A necessidade de preparar a medicina para os desafios éticos impostos pelas novas tecnologias, especialmente pela inteligência artificial (IA), marcou a conferência de abertura do VII Encontro Luso-Brasileiro de Bioética do CFM e do II Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Bioética Médica, realizada nesta terça-feira (7), em Brasília.
Com o tema “Novas Fronteiras para a Bioética e Ética Médica no Século XXI”, a palestra foi ministrada pelo diretor do Programa Doutoral em Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), Rui Nunes, e presidida pela 2ª vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Rosylane Rocha.
Ao longo da conferência, Rui Nunes apresentou uma reflexão sobre a evolução da bioética desde sua origem até os desafios contemporâneos trazidos pelo avanço acelerado da ciência e das tecnologias digitais. Segundo ele, a ética médica, embora fundamental para a prática profissional, deixou de ser suficiente para responder a todos os dilemas surgidos nas últimas décadas.
“A bioética é a ética da vida”, afirmou o conferencista, ao destacar que sua abrangência ultrapassa as relações entre médico e paciente e envolve toda a dimensão da vida, da sociedade e das futuras gerações. Para ele, a construção da bioética moderna nasceu da necessidade de estabelecer limites éticos diante dos abusos cometidos em pesquisas envolvendo seres humanos, especialmente após as experiências realizadas durante o regime nazista, consolidando princípios como o respeito à autonomia, ao consentimento informado e à justiça.
Durante a palestra, Rui Nunes lembrou que a bioética moderna está diretamente ligada aos valores democráticos. “A bioética é filha da democracia”, afirmou, ressaltando que sociedades livres permitem o debate plural sobre temas complexos, nos quais diferentes visões éticas podem coexistir, sempre respeitando a dignidade da pessoa humana.
O conferencista observou que a convergência entre inteligência artificial, genética, ciência de dados e outras tecnologias vem promovendo uma transformação inédita e urgente na medicina. Nesse cenário, defendeu que a profissão médica precisa assumir protagonismo na construção dessas ferramentas. “A inteligência artificial é uma evolução sem precedentes, e a medicina deve estar preparada para ela. Se não estiver preparada, vai estar do lado errado da história”, alertou.
Segundo o catedrático da FMUP, o médico não deve se limitar à utilização das tecnologias já prontas. A profissão deve atuar em todas as etapas de desenvolvimento dos sistemas de inteligência artificial, desde sua concepção até a aplicação clínica, garantindo que aspectos éticos, científicos e assistenciais sejam incorporados desde a origem. Outro ponto destacado foi a necessidade de proteger os dados pessoais dos pacientes diante do avanço das tecnologias digitais, bem como de estabelecer mecanismos de fiscalização capazes de assegurar o uso responsável dessas ferramentas.

Apesar do potencial transformador da inteligência artificial, Rui Nunes enfatizou que a tecnologia jamais poderá substituir os valores essenciais da medicina. Para ele, a maior problemática das próximas décadas será preservar a dimensão humana do cuidado. “O grande desafio é o da humanização da saúde. As tecnologias não podem desumanizar a medicina”, afirmou.
Nesse contexto, o professor defendeu que as escolas médicas passem a incorporar, de forma estruturada, o ensino sobre inteligência artificial. Segundo ele, todas as faculdades de Medicina de Portugal já incluem essa formação em seus currículos, movimento que considera urgente em nível mundial.
Além da capacitação tecnológica, Rui Nunes ressaltou que competências como comunicação, empatia e compaixão continuarão sendo atributos indispensáveis para o exercício da medicina. “Temos que conseguir o melhor dos dois mundos: manusear as novas tecnologias com destreza e não perder os valores centrais da prática médica”, concluiu.