

Presidente da ABP alertou para o aumento dos afastamentos do trabalho por doenças mentais. Em mesa de ponto e contraponto, palestrantes discutiram se a medicina é sacerdócio ou profissão
O X Congresso de Humanidades Médicas do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado nesta quarta-feira (16) com o tema “Valorização da Identidade Médica: Essência, Realidade e Futuro”, dedicou parte da programação científica à saúde mental dos médicos e à natureza da profissão. O evento acontece com coordenação da conselheira federal Maíra Dantas.
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Na conferência “Saúde mental: dedicação não é autodestruição”, moderada por João Gonçalves Medeiros Filho, o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, apresentou dados sobre afastamentos do trabalho por doenças mentais passaram de cerca de 220 mil em 2023 para 472 mil em 2024. As principais causas foram reação ao estresse, ansiedade, episódio depressivo e depressão recorrente.
Antônio Geraldo criticou o uso da expressão “afastamento por saúde mental”. “Ninguém afasta por saúde mental, a gente afasta por doença”, afirmou. Para ele, evitar o termo “doença” reflete o estigma contra quem adoece. O psiquiatra também alertou para os danos causados pelas apostas online e pelos jogos eletrônicos, inclusive entre médicos.
Entre os fatores de adoecimento da categoria, ele citou jornadas acima de 60 horas semanais, privação crônica de sono, sobrecarga administrativa, violência no trabalho, medo de processos judiciais e isolamento familiar. Criticou ainda a resistência ao descanso durante os plantões: “O médico que não descansa produz muito menos.” Segundo ele, a cultura de invulnerabilidade afasta os profissionais do tratamento: “Não posso falar que eu estou em depressão, não posso falar que eu estou com ansiedade, senão vão dizer que eu sou fraco.” O resultado, disse, é que os médicos se tornam um grupo de alto risco, “porque a doença existe, mas o tratamento não”. O palestrante coordena a campanha Setembro Amarelo, promovida pela ABP em parceria com o CFM.
A programação científica seguiu com coordenação do conselheiro federal José Elêrton Secioso de Aboim e moderação de Mayron Ghisolfe, membro da Comissão de Humanidades do CFM. Em pauta: medicina é sacerdócio ou profissão?
Para o padre Aníbal Gil Lopes, membro da Comissão de Humanidades, a pergunta apresenta uma “falsa alternativa”, já que as duas palavras remetem a compromisso, entrega e serviço. Ele reconheceu que a medicina precisou se profissionalizar e que a ciência protegeu a sociedade do charlatanismo. Alertou, porém, para o risco de o paciente ser tratado como um caso clínico: “O corpo pode e deve ser dividido para ser estudado, mas a pessoa humana não pode ser dividida para ser cuidada.”
Na sequência, o palestrante Luiz Roberto Londres, membro da Comissão de Humanidades do CFM destacou que o médico aborda a medicina sob uma perspectiva humanística e individualizada, ressaltando a célebre premissa de Hipócrates de que “não existem doenças, existem doentes”. Ele defende a importância central da relação médico-paciente, da escuta atenta durante a anamnese e da consideração dos aspectos biopsicossociais e espirituais do indivíduo, os quais frequentemente revelam a origem subjetiva de sintomas físicos e reduzem a necessidade de exames desnecessários. Ao longo da apresentação, ele exemplifica essa abordagem com casos clínicos emblemáticos e reflete sobre o papel das práticas complementares de saúde e da medicina baseada em evidências.