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Em busca da eterna juventude
Seg, 06 de Agosto de 2018 15:32

Escrito por José Francisco Comenalli Marques Junior*

 

O garimpo diário na literatura científica por nós, médicos, à procura de informações, dicas e recursos para melhorar nossos resultados clínicos muitas vezes nos surpreende e até nos choca. Foi o que aconteceu comigo recentemente, ao me deparar com trabalhos científicos sendo usados para respaldar procedimentos de transfusão de plasma de jovens a pessoas mais velhas com objetivo de rejuvenescê-los.

Primeiramente, gostaria de refletir sobre a busca de evidências para justificar procedimentos e agregar o necessário valor para sua viabilidade. Seria como tentar provar o provável. No antagonismo dessa tendência, a prova negativa de uma obviedade também deveria ter o mesmo esforço na sua determinação. A negação do obviamente negável, ao que estou podendo observar, muitas vezes tem um grau de dificuldade muito maior do que a compilação de resultados que eficientemente nos alivia ao utilizarmos procedimentos, drogas, orientações, condutas, com justificativa de sua reprodutibilidade nos nossos pacientes. É provar o provável. É demonstrar o demonstrável. É utilizar o utilizável. É ter o argumento suficiente para acreditar que estamos no caminho certo. Um modo científico de pensar. Mas, e negar o inegável? Ou tentar provar, sem resultados anteriores convincentes, que um procedimento não funciona ou não tem um raciocínio lógico teórico para sustentá-lo? É nessa lacuna que os argumentos inespecíficos, ou melhor, que a carência de contraposição ao aparentemente óbvio conquista a força necessária para a implantação de técnicas, ações, atitudes e procedimentos com promessas levianas facilmente convincentes que, com o apelo econômico, se tornam instrumentos de marketing e negócios bem-sucedidos.
Por outro lado, também nos assusta inúmeros exemplos de visionários do passado que foram preteridos na época e que, muitos, longo tempo depois de sua morte, foram reconhecidos por suas iniciativas e geraram inconformismo com os que os retraíram, culpando-os pelo atraso de uma necessidade premente, às vezes até com consequências trágicas para a humanidade.

A lacuna temporal existente entre a contraprova da falta de resultados ou de reações e efeitos adversos, muitas vezes potencialmente graves, sem a contrapartida do benefício prometido, permite tanto o ganho de seguidores inconscientes que se perpetuam na tendência inicial, inerciando a continuidade para os mal informados ou excessivamente influenciáveis, bem como o ganho financeiro nesse período finito, mas eficaz, permitindo o avanço em outra estratégia com o mesmo “modus operandi”, como vertente do trajeto inicial, ou como experiência para um campo distinto, permitindo sequências de investimentos fugazes, porém, perigosamente perpetuáveis.

A transfusão sanguínea é uma prática milenar, antes argumentada por salvar vidas, que se desenvolveu cientificamente tanto nas suas indicações específicas em detrimento do geral (salvar vidas) quanto pelo investimento na sua segurança, com inegável avanço nesse sentido, mas sem atingir seu grau máximo de isenção de riscos.

Não há, no entanto, consenso na sua utilização na prática clínica diária quanto à maioria dos protocolos, da sua real importância em situações intermediárias, e as evidências científicas somente conseguem ser consistentemente baseadas em condições extremas de vida/morte ou prevenção/correção de situações fisiológicas causadas tanto por doenças como pelo seu tratamento cada vez mais agressivo e intenso, cirúrgico ou clínico.

Mas voltando ao apelo econômico e ao mote dessa reflexão, muitas vezes somos impelidos a buscar evidências com ideias já em prática por algum grupo de pessoas, cientistas, médicos, investidores, das quais tomamos conhecimento na mídia leiga. E aí sentimos a necessidade de provar o provável ou negar o negável, ou uma combinação dessas duas dicotomias, nem sempre fácil ou possível.

Fui instigado a pensar nesse assunto baseado em uma recente reportagem feita pela BBC em 12/02/2018, cujo título, “As polêmicas transfusões de sangue para retardar a velhice que são moda entre milionários nos EUA” (https://goo.gl/pgPdQA), remete o conteúdo à pergunta: o sangue dos mais jovens é capaz de rejuvenescer os mais velhos?

Fico pensando em quais repercussões essa ideia poderia causar em pessoas com perfil investidor em busca de inovações e, logicamente, lucro: poderia um jovem congelar seu próprio sangue na juventude e mantê-lo guardado para transfundir em si próprio após décadas, a fim de preservar sua juventude? Seria possível criar empresas do tipo “sorveteria de sangue” que pudessem guardar esses produtos de forma qualificada, com caríssimos sistemas de segurança e de controle de qualidade, que, obviamente, justificariam os altos preços pagos por quem os utilizaria? Seria possível uma rede de empresas nacionais e internacionais que pudessem investir em novas tecnologias para estratificar esses produtos doados por pessoas para ações específicas, ou seja, rejuvenescimento de pele, de coração, de músculos etc.? E como seria a legislação pertinente a isso? Como lidaríamos com a segurança da manutenção e transmissão de doenças infecciosas que retornariam ao indivíduo em um sangue estocado por décadas?

Tenho atualmente muitos questionamentos para refutar esses procedimentos ou tentar ganhar tempo para que um aprofundamento científico com argumentos mais consistentes possa provar sua ineficácia ou ineficiência ou, por que não, até provar que estamos errados e nos culpar por atrasar a evolução, construindo heróis que só serão reconhecidos no futuro.

Outro ponto a questionar seria qual o limite ético de melhorar a normalidade ou algo além da saúde? Prevenção é uma coisa, mas submeter pessoas teoricamente saudáveis a procedimentos de inegável risco para atingir um estado supranormal? A longevidade pode até ser, mas a eternidade, bem como a permanência de habilidades características de organismos jovens em corpos envelhecidos, seria compatível com a evolução da nossa espécie?

Meu pai, como meu primeiro e mais eficiente orientador para a vida, constantemente dizia que o grande problema do nosso corpo é que as diversas peças que o compõem tem diferentes prazos de validade…

A busca por melhorias deve ser contínua e estimulada, mas devem ser contemplados os dois lados, dos ganhadores e dos necessitados. O benefício deve ser de ambos. O tempo dita as normas, e as atitudes pessoais são diferentes quando vêm antes ou depois…

Em respeito à minha ética pessoal e profissional, digo não à transfusão estética rejuvenescedora. Não à exploração dos menos informados. A ciência e a ética devem andar juntas, de mãos dadas, comprometidas com a seriedade que sustenta sua credibilidade através dos tempos.

 

* É médico hematologista e hemoterapeuta, vice-presidente da ABHH – Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

* Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

  

 
A solução para a saúde: criação de distritos de saúde
Seg, 06 de Agosto de 2018 15:22

Escrito por João Hélio Rocha*

 


Um Plano Nacional de Saúde (PNS), experimentado há 49 anos nas microrregiões de Nova Friburgo (RJ), Barbacena (MG) e Mossoró (RN), a partir de 14/12/1968, foi encerrado em 09/01/1971 sem uma análise mais aprofundada dos resultados médico-assistenciais, que ficaram esquecidos. A inovadora e sui generis metodologia operacional e o seu valioso know-how possibilitaram colocar um cartão de acesso nas mãos de cerca de 500 mil habitantes dos seus 49 municípios em apenas três meses. A adesão foi imediata: bastou a população saber que não iria mais enfrentar fila. Descobrimos, em pesquisas, que os métodos operacionais do PNS foram silenciosamente copiados da primeira cooperativa médica, a Unimed de Santos, que os adaptou aos propósitos do Ministério da Saúde.

Descrevemos, no único relatório presencial existente, como o Sistema Único de Saúde (SUS) poderia aproveitar os vários resultados positivos, atualizando-os, levando em conta não apenas os avanços da medicina, mas principalmente as transformações demográficas, sociais, econômicas, políticas e da Ciência da Computação ocorridas no país nesses últimos 49 anos.

Apresentamos uma proposta de atuação para o funcionamento do SUS em distritos de saúde por meio de duas organizações: o Departamento Distrital de Saúde Coletiva, operado pelas secretarias municipais de saúde, e o Departamento Distrital de Saúde Individual, para cuidar da assistência médica, gerido por um Conselho Distrital de Saúde (de viés parlamentarista). A falta de cartão de acesso aos serviços médicos é o ponto fraco do SUS. Associados de plano de saúde não precisam de fila para atendimento porque todos têm esse benefício. Só usuários do SUS não têm cartão de acesso; sujeitam-se a enfrentar tristes filas, de dia e de madrugada, para pegar uma ficha e ser atendido posteriormente, às vezes muitos meses depois.

As transformações que propomos têm origem no levantamento da evolução da assistência médica, documentada nos três primeiros capítulos (47 páginas) da quarta edição do nosso livro Fortalecimento do SUS com a participação do usuário. Do quarto ao sétimo capítulo (44 páginas), relatamos a experimentação do PNS e o seu legado ainda desconhecido pelo Ministério da Saúde e pelas novas gerações de dirigentes de entidades médicas. A proposta é explicada com detalhes nos sete capítulos finais, inclusive com a apresentação de layout de modelo sugerido para a criação do Cartão Nacional de Assistência Médica, que despertaria na população o mesmo entusiasmo com seu uso ocorrido durante o PNS de 1968 (47 páginas). Bibliografia: 30 fontes. Sugestão de um organograma explicativo encontra-se em arquivo anexo. O livro foi editado pelo autor. Contato: (22) 99833-5769 ou e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. .

Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. Se ninguém fizer nada, nada vai melhorar. Reclamar é fácil.

 

* João Hélio Rocha, 83, é médico em Nova Friburgo (RJ) e pesquisador em Saúde.

  

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Insegurança epidemiológica
Sex, 03 de Agosto de 2018 15:43

Escrito por Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 

Após 28 anos, a poliomielite pode voltar a fazer vítimas no Brasil. O alerta é do Ministério da Saúde, que apontou 312 municípios, de diferentes estados, em que a cobertura vacinal está abaixo dos 50% entre crianças menores de um ano de idade. Assim, estes locais são portas de entrada para o vírus dessa doença no País.

O sarampo, outro problema de saúde que também era considerado ultrapassado, voltou a aparecer nos boletins da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS). Nas primeiras semanas de julho, o Brasil enfrentava surtos, com os diagnósticos confirmados de 677 casos e outros 2.724 em investigação. As ocorrências estavam distribuídas em seis estados: Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, sendo as maiores incidências no Amazonas e em Roraima.

Além dessas duas situações específicas, há preocupação com os números da tuberculose, do HIV e da sífilis, incluindo a sua forma congênita. De acordo com os indicadores oficiais, a taxa de incidência da sífilis entre gestantes aumentou de 3,7 para 11,2 a cada mil nascidos vivos entre 2010 e 2015. O crescimento superou os 200%!

No caso da sífilis congênita, a situação é muito grave. As taxas foram de 2,4 para 6,5 casos para cada mil nascidos vivos, no mesmo período. Em 2015, houve cerca de 40 mil ocorrências desse tipo de manifestação da doença. Os óbitos decorrentes também cresceram de forma expressiva, com uma taxa de mortalidade de 7,4 casos para cada 100 mil nascidos vivos.

Esses dados colocam o País em estado de alerta. Há nítidos sinais de insegurança epidemiológica que exigem uma urgente ação por parte do Governo, com o apoio das entidades médicas, da sociedade civil organizada e da população em geral. A reação intempestiva pode ter sérias consequências com impacto sobre a saúde de milhões de brasileiros, em especial das crianças e adolescentes mais pobres e vulneráveis.

Assim, cabe às autoridades o dever de assegurar o acesso da população às vacinas e medicamentos, bem como de organizar campanhas de imunização em grande escala. No caso da sífilis e do HIV, que atingem os recém-nascidos, é fundamental reforçar a qualidade do pré-natal na rede pública, garantindo às gestantes consultas com médicos e a realização de todos os exames necessários.

Por sua vez, os pais e demais responsáveis devem contribuir com esse esforço nacional de prevenção, levando as crianças para serem vacinadas e adotando as medidas de precaução preconizadas.

Os médicos brasileiros estão atentos e dispostos a participar dessas ações, como têm feito ao longo das décadas, ajudando inclusive o Programa Nacional de Imunizações (PNI), criado pelo Ministério da Saúde, a ser considerado uma referência internacional.

Nesse contexto atual de insegurança, a realidade da epidemiologia brasileira é apenas um dos sinais da crise que atinge a assistência da saúde pública nacional, sem orçamento adequado, com péssima infraestrutura e com equipes profissionais subdimensionadas e desvalorizadas.

A saúde do povo é um elemento fulcral ao desenvolvimento sustentável da Nação, portanto as soluções dos seus problemas são prioridades, por seus valores intrínsecos e para diminuição das desigualdades sociais, na perspectiva de um futuro melhor no País.

 

Palavra do Presidente publicada na edição n. 280 do jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 

 
A política de atenção à saúde do homem está esquecida
Seg, 23 de Julho de 2018 15:11

Escrito por Kaique Antônio Moreno Leão de Azevedo*

 

Lançada oficialmente em 2009, a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) representou um passo importante, visto que os homens sempre foram compreendidos com certa singularidade na saúde pública. A PNAISH determinou diversos eixos nos quais a ação conjunta do Estado e dos profissionais de saúde possibilitasse o entendimento integral do homem dentro da atenção básica, tornando-o foco de uma política ampliadora de caráter psicossocial. A estratégia foi incorporar esse grupo a uma discussão em que se pudesse compreender suas fragilidades dentro de um contexto no qual somente crianças, mulheres e idosos tinham atenção do sistema de saúde. Os homens se habituaram a se restringir às unidades de saúde por considerarem dispensáveis os exames de rotina, o rastreio das doenças que poderiam os acometer e até procedimentos que, de alguma forma, possam insultar sua masculinidade. Os tempos mudaram e as mulheres estão cada vez mais empoderadas; os homens já não são mais os responsáveis pelo sustento financeiro da família como antes e isso torna a realidade bem diferente de alguns anos atrás.

Essas discussões sobre gênero chegaram até a saúde pública por meio de grandes movimentos sociais e políticos e, nesse contexto, permitiram que políticas fossem ampliadas e modificadas para se adequarem a essa nova realidade. No entanto, os homens passaram a também fazer parte de um foco social no qual suas questões biológicas seriam levantadas a uma discussão de ordem nacional. A PNAISH teve como principais objetivos atraí-los aos espaços de saúde, analisar suas questões particulares, convidá-los a fazer parte do planejamento familiar e garantir um acolhimento digno, tendo seus direitos sexual e reprodutivo discutidos dentro do campo da saúde.

Na teoria, a PNAISH é uma ótima ferramenta para melhorar ainda mais o acolhimento na atenção básica, visando universalidade, equidade e integralidade, mas sua implantação dentro do sistema público falhou e caminha a passos curtos. Hoje não há qualquer investimento no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) para preparar as unidades básicas sobre as questões dessa política. Muitos profissionais e gestores sequer a conhecem, com suas diretrizes e seus objetivos. Não há a divulgação de cartilhas nem o conhecimento da existência dela por parte dos homens. As unidades básicas não oferecem estrutura, muitas vezes, para o acolhimento correto de manejo desse público e para sua compreensão integral, e os profissionais acabam não zelando por suas preocupações, pois geralmente os homens são vistos apenas como acompanhantes dentro das unidades.

Embora haja compreensão de sua importância, a PNAISH peca quando não deixa claros os meios corretos para sua implantação. Oferece, sim, uma gama de objetivos, mas falha na instrução dos profissionais e gestores e, muitas vezes, não há sequer um material didático para distribuição à população.

Enquanto não há essa implantação coerente, os homens ficam restritos a problemas urológicos, deixando de lado os outros agravos. Há também a falta de dados sobre a quantidade de indivíduos que realizam consultas e exames, o que não facilita um melhor planejamento para tornar a política uma prioridade de saúde.

É preciso maior incentivo aos profissionais, aos gestores e aos homens. Necessita-se de investimento na adequação para as realidades locais, preparação e habilitação para o exercício das diretrizes e, principalmente, enxergar as dificuldades que fazem com que os homens deixem de ir às unidades de saúde. É preciso uma maior resolubilidade sobre os fatores que acometem a saúde masculina, deixando de lado a pretensão de tratar os homens como um grupo homogêneo que apresenta os mesmos agravos e as mesmas queixas.

 

* É graduando em medicina pela Faculdade Governador Ozanam Coelho (Fagoc) em Minas Gerais.

 

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Três tipos de médico
Seg, 23 de Julho de 2018 11:29

Escrito por Evaldo d’Assumpção*

 

Com mais de meio século de vivência médica, posso afirmar que nossa profissão é composta de três tipos de médico, os quais descrevo a seguir, suscintamente.

O médico por vocação é aquele que sempre quis ser médico e desde criança nunca titubeou em afirmar seu propósito. Passaram-se os anos e ele percorreu, com persistência, os caminhos para alcançar seu objetivo. Formado, recebeu o diploma como a realização de sua vida. Dedicou-se com afinco ao seu trabalho, exercendo a profissão com empenho, pois aliviar sofrimentos, curar doenças e salvar vidas não tem dia nem hora marcada. Cuidou dos enfermos e consolou seus parentes com total dedicação e carinho. Soube ouvir os que sofrem e seus familiares, cuidando para nunca demonstrar cansaço, menosprezo ou desatenção. Nesse processo sacrificou seus ganhos financeiros, valorizando mais o cuidar do outro do que a si próprio. Chamado de idealista, às vezes até pejorativamente, mas isso não o abala. Sua vocação é sua convicção. Feliz, mesmo enfrentando dificuldades e desconfortos, é MÉDICO, totalmente escrito com maiúsculas.

Já o profissional tem a vocação para a medicina somada à obstinada preocupação de ser o melhor. Todavia, sua força propulsora vem de denodada busca por fama e fortuna. Trata com perícia seus pacientes, mas impõe sempre uma rotina de trabalho que lhe permita oportunidades de reconhecimento e renumeração. Sua disponibilidade para os enfermos é limitada ao necessário para a execução do seu trabalho. Logo forma uma equipe, o que não lhe é difícil pela notoriedade conquistada e pela pletora de médicos recém-formados. Logo transfere a parte rotineira e burocrática para seus assistentes, tornando-se quase inacessível aos clientes uma vez ultrapassada a fase crítica do tratamento. Aos auxiliares caberá a parte supostamente secundária. Daí as constantes queixas de que ele é competente, porém difícil de ser contatado pelos clientes e familiares. Sempre está com a agenda lotada ou viajando para congressos e reuniões médicas, dando aulas, apresentando trabalhos. Isso lhe dá notoriedade e generosos espaços na mídia, tudo proporcionando-lhe polpudos rendimentos e posição privilegiada nos ambientes que frequenta. Quase sempre é, sem dúvida, um ótimo profissional médico, mas como humanista hipocrático fica muito a desejar, sendo alvo cobiçado e fácil para espertos advogados e clientes insatisfeitos.

O oportunista nem sempre tem vocação para a medicina. Geralmente o que tem é um pai, um tio ou um sogro médico, ou então um mecenas que possui hospital, clínica, laboratório ou qualquer estrutura médica já montada, na qual ele terá um emprego garantido, fazendo-o supor que não haverá obstáculos a vencer. Geralmente forma-se em uma escola de medicina de segunda ou terceira categoria, com poucas exigências. Tampouco lhe importa uma boa residência, uma sólida formação numa especialidade. Só lhe interessa o diploma que legalizará o seu futuro e, depois, o dinheiro que irá ganhar, não se incomodando com o que e como irá fazer para tal. São os que mais contribuem para a péssima qualidade da assistência médica que impera em nosso País, pelo quase total desprestígio dos bons profissionais dessa área e pela judicialização cada vez maior da medicina.

Cada um, ao se olhar no espelho, saberá bem onde se situa.

 

* É médico e escritor.

  

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