CRM VIRTUAL

Conselho Federal de Medicina

Acesse agora

Prescrição Eletrônica

Uma solução simples, segura e gratuita para conectar médicos, pacientes e farmacêuticos.

Acesse agora

 

Especialistas defenderam a independência técnica do médico do trabalho diante de pressões corporativas, alertaram para o aumento de ações judiciais contra a categoria e discutiram limites para o uso de IA na saúde e segurança do trabalho

 

A programação científica do XII Fórum de Medicina do Trabalho do Conselho Federal de Medicina (CFM)  foi aberta com o tema “Saúde Mental: os impactos da era digital e dos ‘cassinos online’ no adoecimento populacional”, ministrado pela psiquiatra Renata Nayara da Silva Figueiredo, presidente da Associação Psiquiátrica de Brasília (APBr), sob a presidência de Rosylane Rocha.

 

Especialista em quadros que associam transtornos psiquiátricos a dependências químicas e comportamentais, a conferencista alertou que os recursos das plataformas digitais são desenhados para favorecer o uso compulsivo, com repercussões como ansiedade, depressão, prejuízo do sono, sedentarismo, solidão e baixa autoestima.

 

“Mais importante do que o tempo de tela é qual a finalidade daquilo: se a gente usa para estudar, para se comunicar com outras pessoas, qual o contexto, qual o conteúdo, qual a nossa vulnerabilidade”, afirmou. Citando estudo da Organização Mundial da Saúde de 2024, a psiquiatra apontou que 11% dos adolescentes apresentam uso problemático de redes sociais e 12%, de jogos eletrônicos. “A relação é bidirecional. A pessoa que está doente tem uma tendência maior a usar as redes sociais ou a tecnologia, da mesma forma que o uso muito intenso favorece o adoecimento”, explicou.

 

 

Painel – A crescente judicialização da atividade médica, a preservação da autonomia profissional no ambiente corporativo e o avanço da inteligência artificial (IA) na saúde e segurança do trabalho estiveram no centro do painel “A Atuação do Médico do Trabalho na assistência ao trabalhador e na gestão de segurança e saúde no trabalho em tempos de crescente judicialização”, um dos destaques do evento. O painel foi coordenado por Ruddy Cesar Facci e secretariado por Amaury do Lago Prieto, ambos membros da Câmara Técnica.

 

Na abertura do painel, o presidente da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), Francisco Cortes Fernandes, tratou da garantia da independência técnica do médico frente às pressões do empregador. Segundo ele, a especialidade lida com interesses distintos e, muitas vezes, conflitantes entre empregador e trabalhador, o que torna a ética elemento central da prática diária.

 

“O médico pode estar dentro de uma empresa, ser contratado por ela e receber sua remuneração. Porém, antes de ser médico da empresa, ele é médico, e sua principal responsabilidade é com a saúde e a dignidade das pessoas que estão sob seus cuidados”, afirmou. Para o presidente da ANAMT, o trabalhador não pode ser visto “apenas como um número, uma matrícula ou uma mão de obra necessária para a produção”.

 

O palestrante também abordou o sigilo profissional. Lembrou que o médico é o guardião das informações reveladas na consulta ocupacional e que a empresa pode ter acesso ao que é necessário para a gestão de riscos, como a aptidão ou inaptidão para determinada atividade, mas não a todos os detalhes da história clínica do funcionário. “Existe uma diferença importante entre a informação necessária para a proteção da saúde e a exposição indevida da intimidade do trabalhador”, disse, recomendando cautela no manejo de prontuários, sistemas eletrônicos e conversas com gestores.

 

Judicialização – Na sequência, o assessor jurídico da ANAMT, Alberthy Amaro Defendente Carlêsso Ogliari, falou sobre blindagem jurídica na prática da Medicina do Trabalho. Citando levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), afirmou que o número de ações judiciais contra médicos no país cresceu 506%. Para ele, entre os operadores do direito, a discussão já não é se o médico do trabalho será processado, mas quando: “Temos certeza de que o médico vai ser processado em algum momento da sua carreira”, afirmou, ao recomendar o alinhamento às boas práticas indicadas pelo CFM, pela ANAMT e pelas demais entidades representativas.

 

O advogado explicou que o médico do trabalho pode ser responsabilizado em três esferas: a cível, quando comprovados conduta, dano e nexo causal, como nos casos de “perda de uma chance” decorrentes de exame admissional inadequado; a penal, a exemplo do crime de falsidade ideológica, configurado pela emissão dolosa de Atestados de Saúde Ocupacional (ASOs) ou de Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSOs) falsos; e a ético-administrativa, pelo descumprimento das normas do CFM. A elas, acrescentou uma quarta instância: a das associações privadas às quais o profissional esteja vinculado.

 

Encerrando o painel, a procuradora do Trabalho no Ministério Público do Trabalho no Distrito Federal (MPT-DF) Carolina Pereira Mercante discutiu os impactos do eSocial, da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e da inteligência artificial sobre a autonomia médica.

 

A procuradora apresentou aplicações da IA na saúde e segurança do trabalho em diferentes níveis de complexidade: da automação de rotinas e triagem de dados clínicos à identificação de padrões, com detecção precoce de riscos ocupacionais antes do envio ao eSocial, e ao suporte à decisão, com o cruzamento de dados do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e do PCMSO. Ponderou, contudo, que nem o Ministério do Trabalho nem a Organização Internacional do Trabalho têm conclusões definitivas sobre o tema, que classificou como recente e em construção.

 

Entre os desafios, Mercante elencou as assimetrias de informação e de poder, os riscos de discriminação algorítmica, a vigilância excessiva dos trabalhadores, com o monitoramento em tempo real de dados como o ritmo cardíaco; e a necessidade de conformidade com a LGPD.

 

A procuradora também elogiou a Resolução CFM nº 2.454/2026, que trata do uso da inteligência artificial na medicina e, segundo ela, contempla também a Medicina do Trabalho. Mercante classificou a norma como técnica e abrangente e parabenizou a equipe multidisciplinar do CFM responsável por sua elaboração.

 

Notícias Relacionadas

Assista aos debates do XII Fórum do CFM sobre os desafios atuais da especialidade

14 Aug 2026

CFM abre XII Fórum de Medicina do Trabalho com debate sobre autonomia médica, inovação e proteção à saúde do trabalhador

14 Aug 2026
Aviso de Privacidade
Nós usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação no portal. Ao utilizar o Portal Médico, você concorda com a política de monitoramento de cookies. Para ter mais informações sobre como isso é feito, acesse Política de cookies. Se você concorda, clique em ACEITO.