Formação do cirugião geral e também adoecimento médico, entre outros temas, são discutidos no encontro

 

O treinamento e capacitação dos cirurgiões gerais, a residência médica de três anos e a incidência da Síndrome de Burnout foram os temas debatidos na primeira parte do II Fórum de Cirurgia Geral do Conselho Federal de Medicina (CFM), promovido nesta sexta-feira (4), em Brasília. Na abertura do evento, o coordenador da Câmara Técnica, Jorge Curi, ressaltou a necessidade de se discutir a formação do cirurgião geral. “Temos de reivindicar melhores condições de trabalho, mas também é nossa responsabilidade lutar por uma melhor formação. Daí porque defendemos três anos de residência médica”, afirmou. Curi ressaltou, ainda, a necessidade de se discutir o conteúdo programático da residência e os parâmetros para que se tenha um cirurgião geral de excelência.
 
O II Fórum começou com uma mesa redonda sobre Treinamento em Cirurgia. O primeiro palestrante foi o professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Delta Madureira, que falou sobre as “Regras e treinamento prático da cirurgia laparoscópica”. No seu início no Brasil, na década de 1990, a cirurgia laparoscópica era ensinada por quatro médicos que dominavam a técnica e não estava presente nas universidades. Hoje em dia, já na graduação o estudante tem acesso à técnica.
 
Em seguida, o diretor de Defesa Profissional do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), Luiz Carlos Von Bathen, discorreu sobre os “Modelos de Treinamento em Cirurgia”, quando ele defendeu que os programas de residência tenham simuladores. O dirigente da CBC também apresentou a plataforma online do programa de capacitação do Colégio.
 
Já o diretor no Brasil do Centro de Treinamento em Cirurgia Minimamente Invasiva (IRCAD), Armando Melani, fez uma explanação sobre “Como treinar e capacitar o cirurgião para a cirurgia robótica”. Ele esclareceu que num primeiro momento o médico aprende a manusear a máquina, mas não a realizar o procedimento, que é ensinado numa segunda fase. Ressaltou, ainda, que a capacidade individual do médico vai determinar quanto tempo de curso ele vai fazer. Para Melani, a cirurgia robótica está hoje para a cirurgia laparoscópica como esta estava para a cirurgia tradicional no final dos anos 1990.
 
O professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Ivan Ceconello defendeu excelência nos programas de residência. “O médico deve sair da residência sabendo como tratar cada doença. A tecnologia deve ser incorporada, claro, mas não é o essencial, até porque teremos de nos aperfeiçoar tecnologicamente sempre”, afirmou. O professor defendeu o ensino e a prática da cirurgia aberta. “Primeiro porque o país tem déficit de equipamentos e também porque o cirurgião deve saber nas intercorrências”, enfatizou.

Adoecimento médico – O debate seguinte tratou da Síndrome de Burnout entre os médicos. O representante da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso, falou sobre campanha da entidade para combater o suicídio entre os médicos. Após apresentar números sobre o adoecimento dos médicos, Cardoso enfatizou que esse é um problema a ser enfrentado, “para que possamos evitar grandes tragédias, como a morte evitáveis de colegas que tiram suas próprias vidas”.

Na sua palestra sobre Síndrome de Burnout, o coordenador da Câmara Técnica de Cirurgia Geral, Jorge Curi, enfatizou a necessidade de grupos de apoio nos centros de ensino para ajudar estudantes que apresentem dificuldades. “O estudante de medicina e o residente sofrem hoje muitas pressões, que levam a privações de sono e falta de concentração. Temos de estar preparados para dar apoio a essas pessoas e, no caso da cirurgia geral, até orientá-las a mudar de curso, caso essa opção seja fonte de sofrimento”, defendeu.

Três anos – O período da tarde foi destinado para o debate sobre os três anos na Residência Médica em Cirurgia Geral. Inicialmente, a secretária executiva da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), Rosana Melo, explicou como será a matriz de competência do novo programa da Residência, dando alguns detalhes do que será cobrado do residente. “O concluinte do R1 deve passar para o R2 sabendo fazer determinados procedimentos, assim como o R2 e o R3 deverão ser dotados de mais outras competências”, explicou. Ela explicou, também, que a partir do R2 o médico terá uma determinada qualificação e poderá migrar para outra residência, como cirurgia plástica, por exemplo. Em seguida, representantes das sociedades médicas de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Cirurgia Plástica, Angiologia e Cirurgia Vascular, Cirurgia Torácica, Cirurgia Cardiovascular, Cirurgia Pediátrica, Cirurgia Oncológica e Cirurgia Digestiva fizeram avaliações sobre o que cada uma delas achava dos três anos, apresentaram dados sobre o número atual de especialistas e residentes e apresentaram as linhas gerais do que seria o conteúdo programático ideal para as respectivas formações. Vários médicos da região Norte presentes afirmaram a necessidade de o médico sair bem formado da Residência Médica em Cirurgia Geral. “Um colega que vai trabalhar no interior do Amazonas, por exemplo, tem de estar preparado para fazer de tudo, daí porque achamos tão necessária a formação de três anos”, defendeu o integrante da Câmara Técnica de Cirurgia Geral e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Acre, Thadeu Silva de Moura. 

Para o coordenador da Câmara Técnica de Cirurgia Geral, Jorge Curi, o resultado do II Fórum foi excelente. “Conseguimos reafirmar a necessidade dos três anos da residência, o que vai garantir melhor qualificação do cirurgião. Podemos dizer, também, que houve um consenso sobre a necessidade da redefinição do conteúdo programático das outras especialidades que têm a cirurgia geral como pré-requisito”, afirmou. Ao final do evento, o coordenador da Câmara Técnica afirmou que as sociedades devem enviar para a CNRM suas propostas para a readequação das matrizes curriculares. “O jogo continua. Ainda temos muito trabalho pela frente”, concluiu. 

 

 

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