O Conselho Federal de Medicina (CFM) promoveu, nesta sexta-feira (30), o I Fórum de Neonatologia, reunindo especialistas de todo o país para discutir os principais desafios da assistência ao recém-nascido no Brasil. Com o tema “Desafios e Ética na Assistência Neonatal: Qualidade, Tecnologia e Humanização”, o evento abordou desde o enfrentamento das infecções neonatais até o impacto da inovação tecnológica e os rumos da formação médica na área.

Na conferência “Infecções Neonatais e Resistência Bacteriana das UTIs: desafios terapêuticos e estratégias de prevenção”, a neonatologista Roseli Calil, da Divisão de Neonatologia do CAISM/Unicamp, alertou para o avanço das bactérias multirresistentes nas unidades neonatais e para o uso excessivo de antibióticos, especialmente em recém-nascidos prematuros.
Segundo a especialista, a resistência microbiana já representa um problema presente e coletivo, exigindo ações imediatas e coordenadas. Entre as estratégias destacadas estão a adesão rigorosa às boas práticas assistenciais, o uso criterioso de antimicrobianos, a vigilância epidemiológica e o fortalecimento de programas de gerenciamento do uso de antibióticos. “Resistência bacteriana não é um problema do futuro. O tempo da ação é agora”, enfatizou.

A conferência “Inovação Tecnológica na Neonatologia” apresentou a evolução histórica e os avanços atuais das tecnologias aplicadas ao cuidado neonatal. O neonatologista José Henrique Silva Moura, do Hospital das Clínicas da UFPE, destacou ferramentas que hoje impactam diretamente a sobrevida e a segurança dos recém-nascidos, como ventilação mecânica avançada, ultrassonografia à beira do leito (POCUS neonatal), espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS) e técnicas menos invasivas de administração de surfactante.
Para o palestrante, mais do que incorporar novas tecnologias, o desafio está em saber utilizá-las de forma adequada, integrada e baseada em evidências, qualificando a tomada de decisão clínica nas UTIs neonatais.

Faltam neonatologistas no Brasil? – O tema da escassez de profissionais especializados foi o eixo de mesa-redonda que reuniu dados demográficos e debates sobre a formação médica. O pediatra Fábio Augusto de Castro Guerra, membro da Câmara Técnica de Neonatologia do CFM, apresentou números que revelam crescimento expressivo da pediatria no país, mas com distribuição desigual e baixa procura pelas vagas de residência em neonatologia.
Atualmente, o Brasil conta com pouco mais de 4,3 mil neonatologistas certificados, enquanto muitas vagas de residência permanecem ociosas. Para o especialista, o desequilíbrio entre a expansão das escolas médicas e a formação especializada compromete a qualidade da assistência neonatal, sobretudo no Sistema Único de Saúde.

Acesso direto à especialidade – O debate sobre a possibilidade de acesso direto à neonatologia na residência médica evidenciou divergências. O conselheiro federal Bruno Leandro de Souza (PB) defendeu que o modelo pode ser discutido como alternativa diante da escassez de especialistas e da baixa atratividade da área, destacando fatores como carga emocional elevada, longa formação e ausência de diferenciais na carreira. “Na saúde, a demora é uma forma silenciosa de dano. Se a escassez é concreta, a resposta também precisa ser concreta”, argumentou.
Em contraponto, o conselheiro federal Eduardo Jorge da Fonseca Lima (PE), coordenador da Câmara Técnica de Neonatologia do CFM, sustentou que a neonatologia deve permanecer como subespecialidade da pediatria, seguindo padrões internacionais. Para ele, a formação pediátrica prévia é indispensável para garantir raciocínio clínico amplo, maturidade profissional e segurança do paciente. “O tempo de formação não é o vilão! O foco deve ser nas verdadeiras causas, como investir na valorização profissional, na melhoria das condições de trabalho e em remuneração justa”, destacou.

“O acesso direto pode parecer uma solução rápida, mas compromete a formação de excelência que nossos recém-nascidos merecem. Defender a neonatologia como subespecialidade é defender o melhor cuidado para as crianças brasileiras. O tempo é importante, mas não é o mais importante. Eu tenho que valorizar, pagar bem e respeitar esse profissional que passou por 5 anos de treinamento. É preciso oferecer boa qualidade de trabalho, escalas, pagamentos que são oferecidos a outras áreas”, defendeu Eduardo Jorge.
Ao longo do fórum, os participantes convergiram na defesa de que o fortalecimento da neonatologia no Brasil depende de investimentos em formação qualificada, infraestrutura adequada, incorporação responsável de tecnologia e valorização do especialista. Para o CFM, o debate técnico e ético é fundamental para orientar políticas públicas e assegurar um cuidado neonatal seguro, humanizado e de excelência em todo o país.
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