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O I webinar sobre Medicina Física e Reabilitação, realizado na tarde desta quinta-feira (18), começou com a conferência “Desafios da Reabilitação Nacional”, apresentada pela professora titular de fisiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Linamara Rizzo Battistella, que apresentou diferentes frentes de atuação do especialista, como na reabilitação de pessoas com deficiência, de sequelados de acidentes de trânsito ou de portadores de doenças crônicas. Na abertura, a coordenadora da Câmara Técnica, Leopoldina Milanez, destacou a pertinência do tema, “que abarcou toda a complexidade e o desenvolvimento da especialidade no Brasil”.

Ao destacar o papel da Medicina Física e Reabilitação no atendimento a pessoas idosas, Linamara Battistella, afirmou que é papel de toda o sociedade, garantir que as pessoas com mais tempo de vida “continuem funcionais”. A conferencista,  que foi Secretaria das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo por dez anos (2008-2018) e uma das responsáveis pela criação da Rede Lucy Montoro, que atende pessoas com deficiência física, transitória ou definitiva, tendo como foco a reabilitação, destacou na sua apresentação, as principais dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência (quase 24% da sociedade), como preconceitos, falhas nos fornecimentos de serviços e normas inadequadas. Defensora do modelo paulista, ela argumentou que é possível oferecer um serviço de qualidade no SUS. “São Paulo tem a maior rede de reabilitação do mundo, sempre com fisiatras comandando a orquestra”, afirmou.

Também defendeu a distribuição de tecnologias assistivas aos pacientes, que dão mais qualidade e disponibilidade de vida aos pacientes. “O nosso papel é fazer com que o paciente tenha uma vida funcional, dentro das limitações físicas que ele carrega”, argumentou. Outra defesa é que seja adotada a Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF). “Diferente da CID, que descreve a doença, a CIF vai dizer o que o paciente pode, ou não, fazer”, defendeu.

INSS – Após a conferência, foi realizada uma mesa redonda que debateu a reabilitação a partir de vários enfoques. A perita médica do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) Camila Rodrigues Bressane Cruz mostrou como funciona o Programa de Reabilitação Profissional na instituição. Segundo a servidora, há três formas de o trabalhador entrar no programa: via perícia médica federal, por demanda espontânea ou acordo e via judicial.

Em 2024, 57.534 mil trabalhadores participaram do programa e 6.625 foram reabilitados. Camila Rodrigues defendeu uma maior divulgação das funções da reabilitação profissional do INSS para que mais pessoas possam acessar o programa. “Este é um serviço de extrema importância, capacitando trabalhadores com diversas sequelas, que possibilita reinserção do mercado de trabalho e dignidade para esses trabalhadores”, explicou.

Médico do Trabalho – “A medicina do trabalho na reabilitação” foi apresentada pela diretora científica da Associação Catarinense de Medicina do Trabalho, Elisa Martinez. Em sua apresentação, ela defendeu que o envelhecimento acelerado da força de trabalho e o crescimento exponencial das doenças osteomusculares e mentais têm ameaçado a sustentabilidade do INSS e das empresas, o que tem levado a um debate sobre a reabilitação na medicina do trabalho.

Nesse contexto, médicos do trabalho e fisiatras podem trabalhar juntos para evitar o adoecimento da força de trabalho. “Ambos constroem juntos o laudo de funcionalidades visando o retorno seguro do trabalhador”, defendeu. Segundo Elisa, o Sesi de Santa Catarina tem trabalhado nessa perspectiva e os resultados são positivos. “Ninguém quer que o trabalhador adoeça, nem ele, nem a empresa. Então, trabalhamos para que ela não adoeça, mas, caso precise se afastar, possa voltar ao trabalho. Trabalhamos para que a limitação não vire uma incapacidade”, explicou.

Em seguida, o presidente da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação (ABMRF), Celso Vilella Matos falou sobre o cenário e o avanço da reabilitação no Brasil. Após explicar que a especialidade surgiu no período pós Primeira Guerra Mundial, na reabilitação dos sequelados, ela tem hoje um espectro muito mais amplo. “Trabalhamos hoje visando a recuperação funcional, a inclusso social, a autonomia e qualidade de vida, atendendo pacientes com sequelas neurológicas, pós-covid, AVC, doenças graves e acidentes, portadores de doenças crônicas e idosos”, elencou.

Celso Vilella defendeu a presença do especialista, antes chamado de fisiatra, em todas as etapas de internação de um paciente em um hospital, desde a entrada, até a alta hospitalar. “Seria menos custoso para a sociedade e mais eficaz, pois este paciente voltaria a ser funcional mais rapidamente”, argumentou.

Residências Médicas – A última mesa do webinar debateu o tema “A ampliação dos programas de residência médica”. Na apresentação da mesa, o ex-conselheiro federal pelo Rio Grande do Sul e fisiatra Cláudio Franzen, apresentou dados da distribuição de residências em Medicina Física e Reabilitação no Brasil, mostrando uma concentração no sul e sudeste. “Temos de ampliar a formação de especialistas”, defendeu.

O primeiro palestrante foi o preceptor do serviço de ortopedia do Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, Anastácio Kotzias, que mostrou como a residência foi estruturada. “É preciso que haja um volume cirúrgico adequado, um pronto-atendimento estruturado, um centro cirúrgico equipado, um serviço de imagem disponível 24 horas, UTI, enfermaria e ambulatórios disponíveis. Além disso, também deve ter preceptores titulados e registrados na especialidade”, enumerou.

A unidade também deve seguir protocolos padronizados de acordo com evidências científicas, promover reuniões científicas regulares e realizar a discussão sistemática de casos clínicos, entre outros critérios. “É preciso trabalhar com respeito a todos os pacientes e comprometidos com a boa formação do especialista. O trabalho é duro, mas é gratificante. Hoje, alguns dos nossos médicos foram nossos residentes”, contou.

A Residência Médica em Medicina do Trabalho na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp) foi apresentada pelo professor Eduardo Costa  Sá. Em sua apresentação, ele falou das similaridades entre a Medicina do Trabalho e da Reabilitação, já que ambas existem para promover a saúde e prevenir doenças. Ao concluir sua apresentação, ele afirmou que o ambiente e a segurança do trabalhador devem ser os pilares da Medicina do Trabalho e que as intervenções do profissional devem estar baseadas na dignidade da pessoa humana.

A última apresentação foi realizada pelo coordenador do Comitê de Doação de Órgãos para Transplantes da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Glauco Adrieno Westphal, que falou sobre a implementação da residência médica em Medicina Intensiva no Hospital Municipal São José, em Joinville (SC), em 1995. “Fui um dos primeiros residentes e as dificuldades eram muitas. Mas o vigor acadêmico foi maior e a infraestrutura limitada passou a ser um detalhe”, contou.

“O trabalho realizado durante a pandemia da covid mostrou o quanto foi importante ter residentes em medicina intensiva com boa formação”, contou. Segundo o palestrante, após a criação da Residência, o hospital reduziu custos com internações e inspirou duas instituições próximas a também criarem residências médicas em medicina intensiva. “Criou-se um círculo virtuoso”, comemorou.

Ao final das apresentações, a secretária da mesa e membro da Câmara Técnica de Medicina Física e Reabilitação do CFM, Anamada Barros Carvalho, elogiou a qualidade das apresentações. “Temos discrepâncias muito grandes no nosso país, com residências concentradas no sul e sudeste. Mas o fato de termos começado esta discussão, já é um avanço”, afirmou.

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