Na manhã desta sexta-feira, 6 de agosto, o Conselho Federal de Medicina (CFM) deu início ao VI Fórum de Cirurgia Geral, evento que reúne especialistas e profissionais da área para discutir temas cruciais à prática cirúrgica no Brasil.
A mesa de abertura contou com a presença de importantes figuras do setor, incluindo o presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo, que destacou a relevância da especialidade para a medicina e reafirmou seu compromisso com a excelência na formação e valorização dos cirurgiões. “Nosso compromisso é inabalável com a excelência na formação e com o reconhecimento e a valorização dos cirurgiões”, afirmou Gallo.
Além de Gallo, a mesa de abertura contou com a participação de Sérgio Tamura, coordenador da Câmara Técnica de Cirurgia Geral do CFM; Edivaldo Massazo Utiyama, diretor do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC), que expressou o desejo de que o evento sirva como um espaço para “pensar novas experiências e fortalecer nossas práticas”; e Francisco de Assis Rocha Neves, coordenador-geral de Expansão e Gestão da Educação em Saúde do Ministério da Educação (MEC), que parabenizou o CFM pela iniciativa e reforçou a importância do debate sobre a formação de especialistas, destacando que “este é um tema de interesse tanto para os médicos quanto para a população brasileira”.
Confira a galeria de imagens do VI Fórum de Cirurgia Geral.
Setor de emprego – A primeira mesa-redonda, sobre o “Mercado de Trabalho”, foi mediada por Ricardo Lemos Cotta Pereira, membro da Câmara Técnica de Cirurgia Geral do CFM. A discussão abordou tópicos como os tipos de vínculos empregatícios, os honorários médicos na iniciativa privada e no Sistema Único de Saúde (SUS), além da organização dos grupos de cirurgiões em cooperativas.
Ana Carolina Daher Costa, membro da Comissão de Direito Médico do CFM, iniciou os debates com a palestra “Tipos de Vínculos Empregatícios: Vantagens e Desvantagens”. Costa ressaltou a importância de os médicos jovens compreenderem as diferentes modalidades de vínculos, e estarem atentos a aspectos da legislação tributária e sanitária. Ela destacou os diversos tipos de relações de trabalho médico, como servidor público, CLT, e autônomo ou CNPJ, enfatizando as particularidades de cada uma, como a estabilidade, a aposentadoria e as tributações específicas.
Na sequência, Marcos Roberto Loreto, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço e titular efetivo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, apresentou a palestra “Honorários médicos na iniciativa privada”. Loreto discutiu os desafios da remuneração médica no modelo de “fee for service” (em que os profissionais médicos recebem por cada serviço prestado, como consultas, procedimentos ou exames), alertando sobre o impacto dos altos custos e das fraudes no setor de saúde suplementar.
Loreto enfatizou ainda que cerca de 19% dos custos na saúde suplementar são decorrentes de fraudes e desperdícios, conforme estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS). Também destacou que o foco precisa mudar, “deixando de remunerar simplesmente pelo evento, e criando mecanismos que consigam remunerar melhor quem tem melhor resultado, com melhor qualidade e com todos os controles de segurança do paciente garantidos”. Outas medidas apontadas para melhorar qualidade assistencial dentro de lógica de custo-efetividade foram: foco em medicina preventiva, em programas de qualidade de vida e em mudanças para estilos de vida saudáveis (menores condições de risco), bem como combate a fraudes e prevenção de desperdícios.
Fábio Luís Peterlini, diretor administrativo do Hospital São Paulo da UNIFESP, complementou a discussão abordando os “Honorários médicos no Sistema Único de Saúde (SUS)”. Peterlini enfatizou a necessidade de repensar a lógica de oferta para focar nos resultados alcançados, destacando a importância da sustentabilidade financeira e da busca por modelos mais eficientes que otimizem os recursos disponíveis. “O foco atual dos médicos deve ser em obter os melhores desfechos e reduzir os gastos, levando em consideração a perspectiva do paciente, a do médico e os custos”, defendeu Peterlini.
Luciano Santana de Miranda Ferreira, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), encerrou as apresentações da mesa-redonda com a palestra sobre “Organização dos grupos de cirurgiões em cooperativas”. Ferreira, que é fundador de uma cooperativa em Salvador que atualmente congrega 360 cooperados (pessoas físicas e jurídicas) de oito especialidades, destacou a importância das cooperativas na proteção dos médicos contra a precariedade dos honorários. Ele relatou que incentiva a formação de novas cooperativas, sublinhando valores como gestão transparente e a necessidade de um modelo sustentável que envolva médicos, fontes pagadoras e hospitais.
Residência médica – Ainda pela manhã, os participantes do VI Fórum de Cirurgia Geral discutiram a capacitação médica especializada, traçando um panorama nacional e apresentando programas como o de residência médica em Cirurgia Geral do Hospital das Clínicas da FMUSP (apresentação de Edivaldo Utiyama, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões) e o programa da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP (professor Nelson Adami Andreollo).
Participaram ainda Eduardo Neubarth Trindade, presidente do Cremers, que falou sobre o cenário da residência em Cirurgia Geral no Rio Grande do Sul; Carlos Eduardo Domene, professor livre docente da FMUSP, que falou sobre simulação na grade curricular da residência; e Thadeu Silva de Moura, diretor do Conselho Regional de Medicina do Estado do Acre (CRM-AC).
Moura falou sobre formação do residente de Cirurgia Geral nos Estados da Região Norte, destacando que a distribuição dos cirurgiões gerais reflete as desigualdades que persistem na distribuição dos profissionais médicos no território nacional. “Apenas 4,18% das vagas de formação da especialidade de Cirurgia Geral estão na Região Norte”, aponta.
Encerrando as discussões da manhã, Leonardo Emílio da Silva, representante do Estado de Goiás no Conselho Federal de Medicina, apresentou a palestra “Do volume para valor: impacto na carreira do cirurgião”, defendendo que “temos que apresentar, dentro da grade curricular da formação do médico-cirurgião, processos que possam reduzir o custo e aumentar a efetividade do tratamento”.
Baseado no livro The Youngest Science, de Lewis Thomas, Silva enfatizou ainda que “estamos diante de um colapso da saúde. Precisamos de uma mudança de paradigma com um aumento claro na qualidade do tratamento através de melhores desfechos”, diz, ressaltando que “o desfecho do nosso tratamento é a base de tudo que a gente sempre ofertou desde o nosso juramento hipocrático”.
Carta compromisso – As discussões do VI Fórum de Cirurgia Geral resultaram na aprovação da Carta compromisso em defesa da boa formação e valorização da Cirurgia Geral e especialidades cirúrgicas (ACESSE AQUI). Documento destaca a importância da especialidade e alerta para a desigualdade na distribuição de profissionais no território nacional, defende a valorização e oferta de condições para aprimoramento, honorários dignos e condições de trabalho, além de melhorias dos programas de residência médica.
Assista abaixo à íntegra do evento: