
O Conselho Federal de Medicina (CFM) realizou, nesta terça-feira (9), o I Fórum de Endoscopia Digestiva e Coloproctologia. Com o tema central “Rastreamento do Câncer Colorretal no Brasil: das Evidências à Política Nacional”, o evento promoveu uma ampla análise sobre o cenário epidemiológico da doença, experiências nacionais e internacionais de rastreamento e os desafios para implementação de um programa estruturado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Na abertura, o presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo, destacou a relevância do tema para a saúde pública brasileira e ressaltou a importância do diálogo entre especialistas e instituições na construção de soluções para o enfrentamento da doença. Segundo ele, o câncer colorretal representa um dos maiores desafios atuais da oncologia, ao mesmo tempo em que possui elevadas taxas de cura quando diagnosticado precocemente.

O coordenador da Câmara Técnica de Endoscopia Digestiva do CFM, Nailton Jorge Ferreira Lyra, enfatizou que o Brasil avançou significativamente nas últimas décadas na qualificação dos profissionais e na disponibilidade de métodos diagnósticos, mas ainda enfrenta desigualdades importantes de acesso. “Precisamos refletir sobre o que estamos fazendo bem, o que podemos aprender com experiências nacionais e internacionais e, principalmente, como transformar o conhecimento científico em políticas públicas capazes de reduzir o número de pessoas acometidas por uma doença que pode ser prevenida e identificada precocemente”, afirmou.

O primeiro painel do evento discutiu a necessidade de um programa nacional de rastreamento. O ex-presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), Hélio Moreira Júnior, apresentou dados sobre a incidência da doença no Brasil e no mundo, destacando o aumento dos casos e das mortes, inclusive entre adultos jovens. O especialista defendeu a criação de um programa estruturado de rastreamento capaz de reduzir a mortalidade, diminuir os custos assistenciais e ampliar o acesso ao diagnóstico precoce.
Na sequência, Marcelo Averbach, coordenador do Programa de Prevenção do Câncer Colorretal da SBCP e da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (SOBED), abordou os métodos de rastreamento atualmente disponíveis. Durante a apresentação, explicou as diferenças entre as estratégias populacionais e oportunísticas, destacou a importância da colonoscopia de qualidade e discutiu os critérios utilizados internacionalmente para definição da idade de início e da periodicidade dos exames. Também apresentou o cenário brasileiro, marcado pela ausência de uma diretriz nacional estruturada e pelas recentes discussões sobre a incorporação do teste imunoquímico fecal (FIT) ao SUS.
O médico epidemiologista Arn Migowski, da Coordenação de Pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), apresentou evidências científicas relacionadas à efetividade e à custo-efetividade do rastreamento. Em sua exposição, analisou benefícios, riscos e impactos econômicos associados às diferentes estratégias, destacando que programas organizados, associados à garantia de qualidade dos exames e à adequada capacidade assistencial, apresentam potencial para reduzir significativamente a mortalidade pela doença.

O segundo painel do fórum foi dedicado à discussão sobre como estruturar uma política nacional de prevenção do câncer colorretal. A coordenadora do Núcleo de Ações Sociais da SOBED, Eduarda Tebet, apresentou experiências internacionais de rastreamento e avaliou modelos adotados em países como Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Holanda e Austrália. A especialista defendeu a adoção de um programa organizado, baseado em convite ativo da população, utilização do FIT como porta de entrada e monitoramento permanente por meio de indicadores nacionais padronizados.
Representando o Ministério da Saúde, o secretário de Atenção Especializada à Saúde, Mozart Julio Tabosa Sales, detalhou as ações em andamento para implantação do rastreamento organizado no SUS. Segundo ele, o câncer colorretal reúne os critérios clássicos para programas populacionais de rastreamento e o Ministério trabalha na definição dos protocolos assistenciais, fluxos regulatórios e mecanismos de monitoramento necessários para viabilizar a estratégia. O gestor informou que a perspectiva é iniciar a implementação do programa no segundo semestre de 2026, utilizando o FIT para homens e mulheres entre 50 e 75 anos, seguido de colonoscopia nos casos positivos.
Encerrando o ciclo de palestras, o primeiro tesoureiro da SOBED, Sylon Ribeiro de Brito Júnior, abordou os desafios relacionados à adesão da população e à qualidade das colonoscopias. O especialista apresentou indicadores nacionais e internacionais de rastreamento, destacou experiências brasileiras consideradas bem-sucedidas e defendeu a adoção de mecanismos permanentes de auditoria e monitoramento da qualidade dos exames. Também ressaltou a importância de estratégias de educação em saúde, busca ativa e integração com a atenção primária para ampliar a participação da população nos programas de prevenção.