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Programação da tarde do encontro tratou da atenção primária, dos riscos da prática nefrológica, dos números da doação de órgãos e da campanha do Dia Mundial do Rim

 

A programação vespertina do I Fórum de Nefrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado em 9 de outubro, por videoconferência, discutiu temas que vão do diagnóstico precoce da doença renal crônica (DRC) na atenção primária ao cenário do transplante renal no país. Com o tema central “O cenário atual da diálise no Brasil”, o evento foi organizado pelo conselheiro federal  titular por Sergipe, José Elêrton Secioso de Aboim, coordenador da Câmara Técnica de Nefrologia do CFM.

 

A quinta mesa, “Doença Renal Crônica: do Diagnóstico Tardio à Atuação Preventiva na Atenção Primária à Saúde – Proposta para uma Ação Nacional”, foi presidida por José Tibúrcio do Monte Neto e moderada por Pedro Túlio Monteiro de Castro e Abreu Rocha, ambos membros da Câmara Técnica de Nefrologia do CFM. A palestrante, Patrícia Ferreira Abreu, coordenadora do ambulatório de doença renal crônica da Disciplina de Nefrologia da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), defendeu que a DRC seja tratada dentro da síndrome cardiorrenal metabólica e apresentou o tratamento em diferentes eixos.

 

De acordo com a palestrante, cerca de 97% das pessoas com algum grau de DRC devem ser acompanhadas na atenção primária, e apenas 3% encaminhadas ao nefrologista. Ela relatou que mais de 70% dos brasileiros conhecem o nefrologista apenas no pronto-socorro, já com indicação de cateter para diálise. Desde junho de 2025, Patrícia conduz oficinas de atualização baseadas no PCDT, organizadas pela SBN com secretarias de saúde. Até agora, 1.436 médicos já participaram, e a previsão é chegar a 16 oficinas em 14 estados até novembro. “Prevenir, rastrear e manejar a doença renal crônica é simples, fácil e é muito barato”, afirmou.

 

A sexta mesa, “Responsabilidade na Assistência Médica em Nefrologia”, teve presidência de Luís Gustavo de Freitas Trindade e moderação de José Tibúrcio do Monte Neto. A palestrante Kalyanne Cabral de Paula do Ó, membro da Câmara Técnica do CFM, apontou ao menos 13 momentos críticos em uma única sessão de hemodiálise, da identificação do paciente à desconexão, procedimento que se repete mais de 150 vezes por ano para cada paciente. Ela ressaltou que um desfecho desfavorável não significa, por si só, erro médico: pelo Código de Ética Médica, o erro se configura quando há imperícia, imprudência ou negligência. A responsabilidade do médico, disse, é garantir assistência adequada, e o prontuário é o principal registro da racionalidade das decisões clínicas.

 

A palestrante abordou ainda o controle da água de diálise, lembrando os 30 anos da tragédia de Caruaru, a responsabilidade compartilhada com outras equipes, que segundo ela não deve ser confundida com responsabilidade diluída, e o direito do médico de recusar trabalhar em condições que ponham o paciente em risco. Sobre o fim de vida, defendeu a rediscussão do plano terapêutico com a família, com foco em cuidados paliativos. Também alertou para orientações de conduta por WhatsApp e para o uso de inteligência artificial: se a ferramenta sugere uma conduta, quem responde por ela é o médico.

 

Transplante Renal – A mesa seguinte, “Transplante Renal: Números, Recordes e Desafios”, foi presidida por Kleyton de Andrade Bastos e moderada por Luís Gustavo de Freitas Trindade. O palestrante, Pedro Túlio Monteiro de Castro e Abreu Rocha, informou que o Brasil realiza cerca de 27 transplantes renais por milhão de habitantes, contra 85 na Espanha, líder mundial, e que em 2025 o país superou o número de transplantes do período anterior à pandemia. Ele destacou a queda do transplante com doador vivo, hoje em torno de 3 a 3,5 por milhão, abaixo da meta de 10 e do patamar de 2005. Citou também a estagnação do transplante pâncreas-rim, ativo em apenas oito estados, e a falta de centros para crianças de baixo peso: segundo ele, 50 crianças morreram em 2025 à espera de um órgão.

 

O palestrante apontou a diferença entre doadores notificados (75 por milhão) e efetivos (cerca de 20 por milhão), além de uma recusa familiar estável em torno de 40%. Relatou que a SBN e a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) se posicionaram contra a mudança para o modelo de doação presumida sem debate e esclarecimento prévio da população. Também citou Rondônia como exemplo na captação de órgãos e rebateu a ideia de que nefrologistas não transplantadores deixam de indicar o procedimento: são cerca de 173 mil pacientes em diálise para aproximadamente 7 mil transplantes por ano, com uma fila de cerca de 30 mil pessoas. Entre as propostas, defendeu garantir afastamento laboral ao doador vivo, criar códigos SIGTAP para nefrectomias minimamente invasivas e implementar a nova portaria do Sistema Nacional de Transplantes, adiada mais uma vez.

 

Dia Mundial do Rim  – Para finalizar, a conferência “Reflexos do Dia Mundial do Rim 2026: Cuidar de Pessoas e Proteger o Planeta” foi presidida por José Elêrton Secioso de Aboim e proferida por José Andrade Moura Neto, membro da Câmara Técnica. Ele estimou que entre 10% e 12% da população tenha DRC em algum estágio, o que corresponde a mais de 20 milhões de brasileiros, e que ocorram cerca de 40 mil mortes anuais antes que o paciente chegue à diálise ou ao transplante. A campanha completou 20 anos em 2026 com o recorde de 1.481 atividades registradas, contra 350 em 2015.

 

Moura Neto também apresentou o projeto EPDRC 2025, que testou 8.374 pessoas com ao menos um fator de risco, em 40 cidades de 20 estados. Desse grupo, 40,2% apresentaram creatinina alterada no teste rápido, resultado que depende de confirmação diagnóstica, e 64,8% desconheciam os fatores de risco da doença. A edição de 2026 incluiu a população geral, avaliação de albuminúria e acompanhamento dos participantes após três meses, com resultados ainda a serem publicados.

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