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O uso da medicina de precisão na hematologia foi um dos temas debatidos no I Webinar de Hematologia e Hemoterapia do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado na tarde do dia 15 de outubro, que teve como tema central “O futuro e desafios da hematologia e hemoterapia” e também abordou assuntos como gerenciamento dos bancos de sangue e desafios para o acesso a diagnósticos e tratamentos.

O evento foi transmitido pelo canal do CFM no YouTube e pode ser visto AQUI

Na fala de abertura, o coordenador da Câmara Técnica de Hematologia e Hemoterapia, Krikor Boyaciyan, destacou que a programação do evento foi estruturada para abordar desde as fronteiras mais avançadas do conhecimento, como a medicina genética e de precisão, “até os desafios práticos do cotidiano assistencial e da gestão em saúde, como a descontinuidade de medicamentos consagrados”.

O 1º vice-presidente do CFM, Emmanuel Fortes, destacou a pertinência dos temas debatidos no webinar e informou que algumas das conclusões das Câmaras Técnicas poderão gerar “demandas próprias” para o CFM. Além de criar Câmaras Técnicas para todas as especialidades médicas e para algumas áreas de atuação, a atual diretoria ampliou as atribuições desses colegiados, “que são fábricas de ideias e têm um potencial enorme para o aprofundamento de temas”, afirmou.

Medicina de Precisão – A primeira atividade do webinar foi a conferência “Desafios Éticos na Era da Medicina de Precisão”, ministrada pelo chefe e coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, Leandro Machado Colli. Em sua apresentação, ele falou sobre o projeto Genoma, que mapeou e sequenciou o DNA humano e fundou as bases da medicina de precisão moderna, alertando para a baixa representatividade latino-americana na pesquisa genética.

Também discorreu sobre os desafios bioéticos a serem enfrentados pelos médicos, mostrando um caso ilustrativo de uma mulher, de 52 anos com adenocarcinoma pancreático genético, com duas filhas adultas. “Quando o câncer é genético, a nossa conduta muda, pois todos os descendentes devem ser avisados. E se eles não querem saber?”, ponderou.

Para todos os casos, Leandro Colli alertou que o médico deve agir de acordo com os princípios bioéticos de autonomia do paciente, não-maleficência e beneficência. “Testes sem indicação também são um problema ético”, frisou.

Por fim, o conferencista elencou quatro compromissos que o médico deve ter no uso da medicina de precisão: obter o consentimento para fazer o exame; discutir riscos, implicações e benefícios reais; solicitar o exame apenas quando o resultado puder mudar a conduta do tratamento e buscar a incorporação da tecnologia genômica no Sistema Único de Saúde. “Também devemos ser claros com o paciente, não vendermos promessas vãs. O teste genético ajuda, mas não garante a cura”, afirmou.

PBM – Após a conferência, foi iniciada a mesa-redonda “Gerenciamento do Sangue do Paciente (PBM)”, que teve como primeira palestrante a coordenadora-geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Luciana Carlos, que deu uma palestra sobre a “Implementação do Gerenciamento do Sangue do Paciente: um novo padrão global de cuidado em saúde”.

Em sua apresentação, ela explicou que a arquitetura do PBM consiste em otimizar a massa eritrocitária e a tolerância à anemia e minimizar sangramentos. Com isso, há um menor uso de transfusões de sangue e redução de gastos. No Ceará, onde a política do PBM foi implantada em alguns hospitais, a reserva de segurança do banco de sangue passou de quatro para 14 dias”, informou. Apesar de ter como resultado a redução de transfusões de sangue, Luciana Carlos argumentou que o objetivo não é este, “mas tratar corretamente o paciente”.

Testemunhas de Jeová – Em seguida, a hematologista e membro da Câmara Técnica de Hematologia e Hemoterapia do CFM Jussara Oliveira Santa Cruz de Almeida falou sobre o Manejo do Sangue do Paciente Cirúrgico. “O PBM não proíbe a transfusão, mas qualifica a decisão. O ponto de partida é o próprio sangue do paciente”, esclareceu. Segundo a palestrante, para cada um dólar investido em PBM, há uma economia de cinco dólares.

O uso da tecnologia está sendo bem aceita pelos pacientes Testemunhas de Jeová, que não aceitam transfusão de sangue. “Com o PBM, eles estão aceitando bolsas de hemácias e plaquetas”, explicou a palestrante, destacando que, em todos os casos, deve ser respeitada a individualidade do paciente.

A última palestra da mesa foi dada pela hematologista e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEPA) Leny Nascimento da Motta Passos, que falou sobre a Portaria do Ministério da Saúde nº 11.685/26, que revisou os critérios de triagem clínica, captação e aptidão de doadores de sangue e o manejo hemoterápico no âmbito do Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Derivados (SINASAN).

“Uma das grandes mudanças foi a proibição de se recusar atendimento a um paciente por falta de doadores de sangue”, elogiou. A portaria também passou a permitir que doadores com mais de 70 anos possam continuar colaborando com os bancos de sangue, desde que a primeira doação tenha sido feita até os 60 anos. O novo texto também incluiu critérios para os pacientes que fazem uso das canetas emagrecedoras e que tomaram vacina contra a covid-19, entre outras mudanças.

Esta mesa foi presidida por José Lindemberg da Costa Lima e moderada por Hélio Moraes de Souza, ambos membros da Câmara Técnica de Hematologia e Hemoterapia do CFM.

Desafios – A segunda mesa redonda teve como tema “Desafios do Acesso ao Diagnóstico e Tratamento”, tendo como primeiro palestrante o professor associado de hematologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP Rodrigo do Tocantins Calado de Saloma Rodrigues, que discorreu sobre as dificuldades para que os pacientes possam fazer exames genéticos. “O acesso ao diagnóstico é fundamental, pois sem ele não teremos acesso ao tratamento”, argumentou.

O palestrante argumentou, no entanto, que a solicitação dos testes deve ser feita a partir de critérios clínicos. “Não podemos pedir o teste sem uma hipótese diagnóstica. Compatibilizar achados genéticos com a doença do paciente exige um conhecimento muito especializado do geneticista”, ponderou.

A última palestra foi dada pelo professor titular de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular da Unicamp e presidente do Conselho Curador da Fundação Butantan, Carmino Antonio de Souza, que falou sobre o tema “Descontinuação de Fármacos Tradicionais: como superar?”.

“Nós, hematologistas, vivemos sobressaltados, pois muitos dos fármacos clássicos que usamos são insubstituíveis, mas não há interesse da indústria em produzi-los”, afirmou. Ele falou de projetos da Fundação Butantan para produzir alguns desses medicamentos e do que a União e os estados estão fazendo para aumentar e regularizar a produção de medicamentos essenciais. “A descontinuação de medicamentos é um problema mundial. Por isso, é importante que a indústria da saúde nacional seja fortalecida”, defendeu.

Esta mesa redonda foi presidida pelo hematologista José Luiz Bonamigo Filho e moderada pelo também hematologista Thales Gouveia Limeira, ambos membros da Câmara Técnica de Hematologia e Hemoterapia do CFM.

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