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Especialistas e representantes dos pacientes defenderam diagnóstico precoce, integração da assistência e medidas para garantir a continuidade do tratamento da doença renal crônica

Transformar direitos previstos em lei em acesso efetivo ao tratamento foi um dos desafios discutidos no I Fórum de Nefrologia do Conselho Federal de Medicina (CFM), realizado na sexta-feira (9). Com o tema central “O cenário atual da diálise no Brasil”, o encontro abordou as dificuldades enfrentadas pelas pessoas com doença renal crônica, as desigualdades regionais na oferta de serviços e o financiamento da assistência.

Nas mesas dedicadas aos direitos dos pacientes, à jornada das pessoas em diálise e aos custos do tratamento, os palestrantes destacaram a necessidade de organizar uma linha de cuidado que conecte a atenção primária aos serviços especializados.

Direitos e acesso ao cuidado – Na mesa “A Doença Renal Crônica e a Lei: O (Des)cumprimento de Direitos Assegurados”, Tarcisio Steffen, representante da FENAPAR, chamou atenção para a distância entre a existência dos direitos e sua implementação. Segundo ele, a dimensão territorial do país, as desigualdades e a dificuldade de fazer os recursos chegarem aos serviços comprometem a assistência.

“O maior desafio da nefrologia brasileira não é criar novos direitos. É transformar direitos previstos na lei em acesso real, oportuno e digno para cada paciente renal”, afirmou.

Steffen apontou falhas na prevenção, demora na oferta de terapias, pouca integração entre os pontos da rede e ausência de acompanhamento contínuo. Também destacou que muitos pacientes iniciam o tratamento pela urgência e emergência, sem uma trajetória de cuidado previamente organizada.

Embora o Brasil seja referência em transplantes, o palestrante relatou obstáculos como a concentração dos centros, as filas prolongadas e a demora na realização de exames. Segundo ele, há situações em que os protocolos vencem antes da conclusão da avaliação, além de estados sem serviços de transplante renal.

 

Uma jornada marcada por desigualdades – A coordenadora do Serviço de Nefrologia da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, em Belém (PA), Ana Lydia Lédo Cabeça, abordou os impactos do tratamento na vida dos pacientes.

A apresentação debateu falhas que vão do acompanhamento na atenção primária ao acesso às diferentes modalidades de tratamento. Conforme os dados apresentados, diabetes e hipertensão respondem por 57% das causas entre os pacientes que chegam à diálise, enquanto uma em cada cinco pessoas inicia a terapia sem causa conhecida.

Ana Lydia destacou a concentração dos serviços no Sudeste e as dificuldades de acesso na Região Norte. Na realidade amazônica, observou, os deslocamentos precisam considerar territórios em que os rios são as principais vias de transporte. Para ela, a menor prevalência de pacientes em diálise na região deve ser analisada à luz das barreiras de acesso, não como uma menor ocorrência da doença.

Outro ponto foi a redução da oferta de diálise peritoneal. Segundo os números apresentados, o percentual de centros que disponibilizam a modalidade tem passado por sucessivas quedas. “A diálise salva a vida, mas interrompe a biografia”, afirmou, ao abordar o tempo dedicado às sessões, a fadiga, os deslocamentos e os efeitos sobre o trabalho, a renda e a autonomia. Defendeu que a assistência busque, além da manutenção da vida, a qualidade de vida dos pacientes.

Demanda crescente e financiamento – Na mesa “Custos X Financiamento: Entendendo o Cenário Atual na Diálise”, Pedro Túlio Rocha, membro da Câmara Técnica de Nefrologia do CFM, apresentou dados do Censo Brasileiro de Diálise de 2025. Segundo o levantamento citado, o país tem cerca de 173 mil pacientes em diálise, crescimento de 41% em relação a 2016, e 83% dependem do SUS.

O palestrante destacou que a expansão da demanda ocorre em um cenário de defasagem do financiamento. Conforme a comparação apresentada, entre 1999 e 2025, o reajuste da tabela da hemodiálise foi de 188%, enquanto a variação acumulada do IPCA chegou a 408%. Para Rocha, a recomposição federal de 2026 recupera apenas parte dessa perda.

O subfinanciamento, afirmou, repercute na disponibilidade de vagas e na organização da rede. Foram relatadas situações de pacientes que permanecem internados enquanto aguardam atendimento em clínicas de diálise, com consequências também para os gastos de estados e municípios. A palestra trouxe, também, diferenças na oferta de modalidades terapêuticas conforme a fonte pagadora e dados sobre o cofinanciamento estadual.

Participação – As três mesas contaram com Vanessa Santos e Camila Simões, assessoras da Coordenação-Geral de Atenção Especializada do Ministério da Saúde, como debatedoras.

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09 Oct 2026
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