A cada 20 segundos ocorre, no mundo, uma amputação de membro inferior (pé ou perna) em decorrência de complicações do diabetes. A mortalidade em cinco anos entre pessoas com Úlcera do Pé Diabético (UPD) supera a observada em diversos tipos de câncer, como os de mama, próstata e colorretal. Para discutir estratégias voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce, ao avanço do tratamento e ao fortalecimento da assistência no País, o Conselho Federal de Medicina (CFM) realizou, nesta sexta-feira (31), o I Fórum Nacional de Pé Diabético.
Ao fim do evento, o presidente da Câmara Técnica de Endocrinologia e Metabologia do CFM, Bruno Leandro de Souza, leu uma carta com propostas para aprimorar o cuidado com os pacientes, como ampliar a informação e a conscientização sobre o pé diabético; reconhecer a elevada morbimortalidade; organizar a rede, a regulação e a assistência; assegurar acesso às terapias convencionais e às condições adequadas de tratamento, avaliar com rigor as terapias promissoras e experimentais; e delimitar o ato médico e as responsabilidades profissionais.
Na abertura do fórum, o presidente do CFM, José Hiran Gallo, lembrou que o diabetes é uma das doenças crônicas que mais crescem atualmente, impulsionado, entre outros fatores, pelas mudanças nos hábitos de vida. “Nas áreas mais vulneráveis do País, a população enfrenta dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Nesses locais, a ausência de assistência médica favorece a progressão descontrolada da doença, levando a consequências graves, como cegueira, amputações e mortes”, afirmou.
A integrante do Grupo de Trabalho sobre Pé Diabético do CFM Geisa Maria de Macedo apresentou o panorama sombrio da situação no Brasil. “Basta fazer um cálculo: há 20 milhões de pessoas com diabetes no País. Se a gente tomar o número de que 30% desenvolverão úlcera no pé diabético, temos 6 milhões de pessoas. Desse total, 20% terão uma amputação maior ou menor, ou seja, 1,2 milhão de pessoas. Então, 10% morrerão no 1⁰ ano do diagnóstico. São 120 mil mortes”, lamentou.
O conselheiro federal Antônio Carlos Sanches, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Pé Diabético do CFM, destacou que a doença representa um grave problema de saúde pública, tanto pelo impacto sobre a qualidade de vida dos pacientes quanto pelos custos impostos ao sistema de saúde. Segundo ele, o enfrentamento desse cenário depende da atuação integrada de diferentes especialidades médicas.
Longas internações – Ao abordar formas de reduzir o tempo de internação, o conselheiro federal Carlos Magno questionou a possibilidade de pacientes com quadros menos graves serem acompanhados em regime de atenção domiciliar. O membro do grupo de trabalho Eliud Garcia Duarte explicou que essa alternativa nem sempre é viável, uma vez que muitos pacientes chegam aos serviços de saúde em estado avançado da doença, frequentemente com comprometimentos renais, cardíacos e oftalmológicos. “Também é preciso lembrar que, infelizmente, esses pacientes apresentam índices elevados de suicídio”, observou.
Ao longo do fórum, especialistas, representantes de sociedades médicas e os integrantes dos grupos técnicos do CFM defenderam, de forma unânime, o fortalecimento de programas de educação, capacitação de profissionais e prevenção do diabetes e de suas complicações. Segundo eles, essas medidas são essenciais para reduzir amputações, incapacidades, mortalidade e custos assistenciais, além de melhorar a qualidade de vida das pessoas com diabetes. Também defenderam que o Ministério da Saúde institua uma linha nacional de cuidado para padronizar condutas e organizar o fluxo assistencial dos pacientes, contribuindo para reduzir o número crescente de amputações.