
O Conselho Federal de Medicina (CFM) deu início, nesta sexta-feira (29), ao II Fórum CFM e Escolas Médicas, realizado na sede da autarquia, em Brasília. Com o tema “Que Médico Estamos Formando? Ética, Identidade e Cuidado como Fundamentos da Graduação Médica”, o encontro reúne especialistas, gestores, coordenadores de cursos, docentes e estudantes para debater os desafios da formação médica no país e seus impactos na assistência prestada à população.
Na abertura do evento, o presidente do CFM, José Hiran da Silva Gallo, destacou a preocupação da entidade com a qualidade da formação dos futuros médicos e os reflexos desse cenário na segurança dos pacientes. “A formação técnica e ética de nossos jovens médicos é o tema central deste fórum e sintetiza os anseios daqueles que se dedicam ao preparo das novas gerações de médicos para o sistema público e para o sistema privado”, afirmou.
Segundo o presidente, os resultados recentes dos exames nacionais de avaliação dos cursos de medicina reforçam alertas feitos há décadas pelas entidades médicas sobre os efeitos da expansão acelerada e desordenada do ensino médico no Brasil. “Esses números não são apenas estatísticos. Eles traduzem de forma concreta a formação de profissionais que, em breve, estarão à frente do cuidado da vida e da saúde da população brasileira”, ressaltou.
O presidente do CFM também defendeu a criação do Exame Nacional de Proficiência em Medicina como instrumento de proteção da sociedade e de fortalecimento da qualidade da assistência médica. Para ele, a simples obtenção do diploma não garante que o recém-formado possua os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias para o exercício profissional. “Estamos falando da proteção da vida e da segurança dos pacientes. O recém-formado pode se inscrever no CRM e começar a atender a população. A posse de um título não é sinônimo de capacidade e competência”, destacou.

Realidade – Organizador do evento, coordenador da Comissão de Ensino Médico do CFM e responsável pelo Departamento de Ciência e Pesquisa da autarquia, o conselheiro federal Alcindo Cerci Neto ressaltou que o debate sobre a formação médica deve ultrapassar os aspectos curriculares e considerar os desafios concretos enfrentados pelos estudantes ao longo da graduação e no início da carreira.
Segundo ele, muitos alunos ingressam no curso de medicina motivados pelo sonho de exercer a profissão, mas enfrentam dificuldades relacionadas ao alto custo da formação, ao endividamento, à pressão por desempenho acadêmico e à incerteza sobre a qualidade da formação recebida.
Alcindo destacou que o internato representa um momento decisivo na construção da identidade profissional, quando os estudantes passam a lidar diretamente com pacientes, diagnósticos, procedimentos, sofrimento, morte e responsabilidades que acompanharão toda a trajetória médica. “Não se trata apenas de ensinar Medicina. Trata-se de formar médicos”, afirmou.
O coordenador também chamou atenção para os desafios que surgem após a graduação, como a escassez de vagas de residência médica, a violência contra profissionais de saúde, a sobrecarga de trabalho, os processos judiciais e éticos e o adoecimento mental dos médicos.
“Muitos chegam ao exercício profissional sem a segurança que precisariam ter. Isso afeta o médico, mas também pode impactar diretamente a qualidade da assistência oferecida à população”, observou.
“Este fórum não existe para lamentar, mas para enfrentar essa realidade com coragem. Precisamos refletir se estamos, de fato, preparando nossos estudantes para os desafios que encontrarão ao exercer a medicina”, concluiu.