Escrito por Júlio Cézar Meirelles Gomes*

Foi motivo de derramada alegria e, porque não, um secreto orgulho ver o amigo Phylemon Xavier na capa da revista do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego), recebendo a homenagem de honra ao mérito das mãos da conselheira Lívia Barros Garção! O Cremego acertou em cheio. Parabéns amigo, mas o prêmio é apenas um singelo reconhecimento da sua atuação profissional marcada pela probidade, pelo bom-senso, por uma primorosa relação com os pacientes, alem de um elevado espírito humanitário. A força da sua humildade dissimulada na grandeza do silêncio, constrói o herói anônimo do cotidiano. Mas a moldura desta magnífica paisagem é a sua vida pessoal em perfeita sintonia com os princípios éticos de Hipócrates; no seu caso, forma e conteúdo unidos em favor da condição humana.Você é ético na vida, o resto é conseqüência.

Parabéns pela sua história de vida, que daria certo em qualquer profissão, até como um afável e bem-humorado monge beneditino! Mas é melhor tê-lo por cá, pelas bandas da Medicina, como agente de um oficio que consola e também cura. Parabéns pelo conjunto da obra que resultou de muitas ausências acumuladas no festim das amenidades, do desapego ao supérfluo; parabéns pelo espírito sereno de alma limpa e transparente, pelo afago na cabeça da criança febril e a palavra de consolo para a mãe aflita e desesperada. Mãe, até prova em contrário, é a mais aflita de todas as criaturas! Parabéns pela grandeza nas pequenas coisas, no gesto oculto de desvelo com o semelhante, pelo respeito incondicional à memória do ser humano.Você é o grande confidente da cidade, talvez hoje mais do que o padre local; conhece quase todos os segredos guardados na província. E a província, convenhamos, tem reservas colossais de segredo! Sabe, amigo Phylemon, a Medicina foi apenas um pretexto para revelar o seu valor como pessoa. Não se iluda!

Ser grande na província é a prova mais eloqüente do valor genuíno da condição humana. Na província, o maior rival é o conceito urdido no cochicho das comadres; no grande conselho da esquina, uma espécie de supremo tribunal da conduta humana. Numa cidade grande é mais fácil, seus concorrentes são os outros. Mas é isto mesmo, a glória começa e termina em cada um de nós, está debaixo da pele ou no fundo do peito, ou não está em lugar nenhum e, pronto. Não está com certeza nos corredores iluminados dos shoppings centers, nem nos artigos científicos das revistas indexadas; tolices. A província ainda é o palco iluminado da virtude humana. Morrinhos foi a cidade que o acolheu, mas em nome de todas as cidades do interior, desse Brasil ameno e calmo, bucólico até, onde se conversa ao cair da tarde, onde se conhece a maioria das pessoas pelo nome e o perfil social pela procedência familiar, critério quase infalível e secular. Onde se vê o vendedor de leite na porta da casa apregoando seus produtos, alem do menino que vende alface. Ah, isto sem falar no barulhão que a passarada faz ao fim da tarde. Lá, de vez em quando passa um carro de boi, tocando sua rabeca de eixo azeitado. Pura nostalgia, igual ao canto da ema.

Bem-aventurado seja você que já trazia na alma o jeito da província, a calma do interior e todas as habilidades médicas para curar e consolar! O corpo mora em qualquer lugar, a alma não. A alma é danada e caprichosa, às vezes larga você sozinho em Goiânia, embirra, amua e volta antes do tempo para Morrinhos. É duro. A sua sorte é que os outros não percebem, você assume a personalidade do “genérico” e sai falando pouco, baixando os olhos, até voltar pra casa. A propósito, vale a pena recordar F. Pessoa na sua paixão desassombrada pela terra natal: “O Tejo é maior do que o rio que corre em minha aldeia/Mas o Tejo não é o rio que corre na minha aldeia/então, o Tejo não é maior do que o rio da minha aldeia”. Você representa a verdadeira origem, natural e espontânea, do PSF, o médico de família, hoje tão alardeado pelo governo federal como a grande novidade da medicina. Seu estilo tradicional, zeloso e benevolente, às vezes visitando o paciente no domicílio, atento às mazelas do corpo, mas sem perder de vista a aflição do espírito, tudo considerado no contexto da família e da província. Por outro lado, fique sabendo que eu degustava seus pronunciamentos no plenário de Conselho Federal de Medicina, não tanto pela erudição em normas ou leis, mas sempre impregnados de sabedoria popular e bom-senso cristão, a voz do povo na suprema corte de ética.

É bom, tê-lo e sabê-lo amigo. Isto me conforta. Aliás bem o considero uma espécie de colega de turma, vez que nosso lustro de convivência e fraternidade, às vezes com o sabor de um colégio “externo”, no Conselho soa como uma formatura em normas e diretrizes éticas da medicina. Pois que seja. Nos meus momentos de aflição, lembro de você, da sua calma, das reservas colossais de paz e serenidade, do seu acolhimento e da sua atenção; você aberto em todas as direções, como as varandas da casa, ou sorridente e musical como o coreto na praça.

Não precisa mudar, meu caro, nem pense nisso, mas tome cuidado porque você está a caminho da perfeição. E, isto pesa. Sobretudo para mim, pobre amigo tão imperfeito. E, dando os trâmites por findos, tende piedade deste amigo que se fosse mais novo e mais crédulo haveria de lhe pedir a benção, mas ai dele, aceita de bom grado a simples prorrogação da amizade, desde que pelo resto da vida.

* É médico, escritor e ex-conselheiro do CFM.

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