Escrito por Silvia Brandalise*


“Nas últimas duas décadas, como resultado de um esforço internacional de pesquisadores, as chances de cura para as crianças com câncer alcançaram níveis de 70%, através do uso de protocolos terapêuticos ajustados de acordo com os grupos de risco das doenças, além das melhorias das medidas de suporte a estes doentes. As crianças e adolescentes com câncer devem ser tratados em Centros Especializados em Oncologia Pediátrica, onde se garantem toda a infra-estrutura para diagnóstico, tratamento quimioterápico, radioterápico, cirurgia, suporte nas intercorrências clínicas, suporte psico-social e reabilitação. Estas conquistas da filosofia do cuidado multiprofissional altamente especializado, em Centros de Câncer Infantil e dos elevados índices de cura, foram uniformes nos países do primeiro mundo.

Na América Latina, através de esforços pessoais, grupos de médicos, principalmente localizados nas capitais e grandes cidades, conseguiram quebrar o paradigma de que a maioria das crianças latino-americanas com câncer estavam sentenciadas para a morte. Desde 1985, as chances de cura para a leucemia linfóide aguda estavam em 70% em vários estados do Brasil, no Chile e na Argentina.

Significativas melhoras nas porcentagens de cura também foram paulatinamente alcançadas para outros tipos de câncer pediátrico. Não é fato desconhecido a enorme desigualdade do cuidado da saúde da criança em nosso mundo. Entretanto, na América Latina, do México até a Patagônia, as grandes discrepâncias sociais se refletem fortemente nas políticas de saúde pública. Em vários países ainda existe uma medicina discriminatória, como no México e na Colômbia, por exemplo, onde somente 40% e 60% das crianças com câncer são, respectivamente, cobertas pelo seguro social.Na Argentina, 30% das crianças com câncer ficam desamparadas do cuidado médico.

Entretanto, em outros países, como Brasil, Cuba e Chile, todos são iguais perante a lei, com a garantia do acesso igual e universal a tratamento médico, independente da raça, religião, sexo, nível social, etc. O alicerce da atenção médica pública é a mais relevante estrutura para estabelecer um programa efetivo de combate ao câncer infantil nestes países.

Em todo Brasil há 172 centros pediátricos que cuidam de crianças com câncer (www.tabwin/datasus/ms) e que funcionam em estreita parceria não só com o governo (Ministério da Saúde), mas também com cerca de 200 ONGs que colaboram com o transporte, alojamento, alimentação e suporte emocional às crianças e adolescentes com câncer e suas famílias. São as conhecidas Casas de Apoio, distribuídas de Norte a Sul no Brasil.No Chile há 13 centros credenciados para oncologia pediátrica e 5 organizações comunitárias. Cuba tem 9 centros creditados ligados a um programa nacional de câncer pediátrico.

A sobrevida livre de doença para as crianças destes países é ao redor de 70%. Resultados semelhantes são obtidos na Argentina, na Venezuela e no México para aquelas crianças cobertas pelo seguro social. Adicionalmente, colaboração internacional entre países do primeiro mundo e alguns países da América Latina, como Honduras, Bolívia, El Salvador, Guatemala e Equador, tem permitido melhores resultados no tratamento do câncer.

As profundas discrepâncias entre os 25 países da América Latina nos obrigam a uma complexa análise quanto aos aspectos epidemiológicos, o diagnóstico, tratamento e sobrevida da criança com câncer. Embora os estudos de base populacional nos forneçam dados completos sobre a incidência e a sobrevida de crianças e adolescentes com câncer em Cuba, Chile, Costa Rica, Colômbia, Porto Rico, Brasil e, mais recentemente, na Argentina, estes dados faltam em vários outros países. Os registros de Informação do ACCIS (Automated Childhood Cancer Information) da Organização Mundial da Saúde (WHO/IARC) não estão disseminados e distribuídos na América Latina.

Com a finalidade de desenvolvimento das pesquisas na busca das causas do câncer da criança e para avaliar o progresso do tratamento no cuidado do paciente dentro do enfoque de base populacional, é necessário e recomendado que se construa um banco de dados para a América Latina. Dois terços das crianças com câncer são oriundas dos países em desenvolvimento, onde elas estão mais sujeitas a carcinógenos ambientais, a infecções, além das diferentes interações com fatores étnicos (genéticos, farmacogenéticos).

O pleno conhecimento destas questões tem o grande potencial de melhorar nossa compreensão sobre os diferentes mecanismos desta doença. Considerando especificamente os dados do Brasil, entre os 16 registros de base populacional publicados pelo Instituto Nacional de Câncer (2003), selecionamos oito deles com períodos mais longos de seguimento. Hoje o Brasil tem 22 registros de base populacional implantados em diferentes estados da federação. A seleção dos 8 registros (Belém, Campinas, Distrito Federal, Porto Alegre, Recife, Salvador, São Paulo e Goiânia) distribuídos de Norte a Sul do País, mostra um perfil de incidência distinto de acordo com os diferentes estados. Comparando com Europa e Estados Unidos vemos 2 pontos de realce:

1º – A incidência de tumores cerebrais é menor no Brasil. Provavelmente isto não decorre de sub-diagnósticos, principalmente pela falta da disponibilidade de exames de imagem (tomografia e ressonância nuclear magnética). As cidades dos registros mencionados disponibilizam, no mínimo, a tomografia para os doentes.

2º – Em crianças e adolescentes brasileiros temos aumento significativo na incidência de carcinomas, cânceres mais prevalentes em adultos. Possivelmente fatores ambientais podem ser responsabilizados pela maior proporção deste tipo de câncer no Brasil. O conhecimento das variações geográficas da incidência do câncer pediátrico na América Latina poderá ajudar os cientistas a responderem questões sobre o câncer da criança, fornecendo dados para elucidar mecanismos celulares e genéticos de proliferação, diferenciação e regressão do câncer na infância.”


*Silvia Brandalise é pediatra oncohematologista e docente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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