Escrito por Silvia Regina Mendes Pereira*


O Brasil terá, em breve, mais de 30 milhões de idosos e uma das maiores preocupações das pessoas é retardar ou prevenir as incapacidades associadas ao envelhecimento.

Entretanto, proliferam no Brasil propostas de tratamentos que visam prevenir, retardar, modular ou reverter o processo de envelhecimento, bem como prevenir doenças crônicas através de reposição hormonal, suplementação vitamínica e/ou uso de substâncias chamadas anti-oxidantes.

Visando proteger a população idosa, que apresenta maiores riscos para efeitos adversos de medicamentos, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) designou um grupo de especialistas para realizar uma revisão da literatura científica com o objetivo de avaliar a eficácia e a segurança desse tipo de tratamento.

Após uma extensa revisão, a SBGG recomendou a seus profissionais associados que alertassem as pessoas de que, até o momento, nenhuma pesquisa demonstrou que vitaminas, antioxidantes, reposição hormonal ou qualquer outra substância teriam a capacidade de retardar ou reverter o processo do envelhecimento.  E que se deve ter cautela, pois determinados tratamentos, além de ineficazes, podem ser danosos tanto do ponto de vista econômico como da saúde coletiva e individual.

Nas recomendações, os especialistas lembram que os idosos são mais sensíveis aos efeitos adversos dos medicamentos, e que a prescrição para indivíduos com mais de 60 anos, principalmente para os mais vulneráveis, deve ser baseada em pesquisas que comprovem eficácia e segurança, assim como em uma adequada avaliação do custo-benefício.

Os Geriatras e Gerontólogos enfatizaram que as pesquisas têm demonstrado riscos importantes com o uso indiscriminado de vitaminas, como o aumento das chances de adquirir alguns cânceres. Em um estudo com mais de 30 mil homens publicado no ano passado, o consumo de vitamina E foi associado a maior risco de câncer de próstata.

A reposição de hormônios sexuais (estrogênio e testosterona) deve ser feita apenas nos casos indicados nas diretrizes das sociedades de especialidades médicas e nunca com o objetivo de retardar o envelhecimento, pois não existe comprovação de que eles teriam este tipo efeito.

A SBGG recomendou que médicos Geriatras prescrevessem hormônios tiroidianos e adrenais (corticóides) apenas nos casos de deficiências clínica e laboratorialmente comprovadas ou no caso deles serem necessários para o tratamento de doenças, como por exemplo, asma e reumatismos, pois não existem evidências de que a sua reposição, na ausência de deficiências, previna ou retarde o envelhecimento.

Uma das maiores preocupações dos especialistas é com o uso indiscriminado do hormônio do crescimento. Tudo começou no início da década de 90, quando pesquisadores de mostraram, em um estudo com 12 indivíduos idosos com deficiência desse hormônio, que a sua suplementação melhorava algumas alterações constitucionais do envelhecimento, reduzindo a gordura corporal e aumentando a massa muscular. Estudos subsequentes confirmaram esses efeitos, porém de mostraram que eles não se refletiam em melhora da força e desempenho musculares, da capacidade funcional e da qualidade de vida das pessoas. Além do fato de existirem fortes evidências de que a reposição do hormônio do crescimento aumente a incidência de cânceres, diabete, síndrome do túnel do carpo, problemas cardíacos, dores articulares e outros problemas de saúde.  As recomendações para a reposição do hormônio do crescimento são, portanto, muito restritas e não incluem a prevenção ou a chamada modulação do envelhecimento.

A dosagem de DHEA (dehidroepiandrosterona) frequentemente mostra valores reduzidos em idosos. Entretanto, a literatura científica atual não demonstrou nenhuma justificativa para reposição desse hormônio com o objetivo de retardar o envelhecimento, sendo o seu uso com essa finalidade contra-indicado pela SBGG.

Além de ineficaz como tratamento antienvelhecimento, não existe nenhuma comprovação de que os hormônios conhecidos como “bioidênticos” sejam mais seguros que aos hormônios convencionais.

A SBGG lembra ainda que Resolução nº 1.938 de 2010 do Conselho Federal de Medicina veda ao médico a utilização do EDTA, da procaína, de vitaminas e de antioxidantes como terapia antienvelhecimento, anticâncer, anti-arteriosclerose ou voltadas para o tratamento de doenças crônicas degenerativas.

Por fim, a sociedade de especialidade afirma que inúmeros estudos, de excelente qualidade científica, têm demonstrado a influência do estilo de vida saudável, das atividades físicas e da dieta balanceada para o que se convencionou chamar de envelhecimento bem-sucedido, ativo ou saudável, e que essas orientações jamais devem ser esquecidas na prática clínica e recomenda que seus associados, com o objetivo de evitar danos à saúde da população, esclareçam a sociedade sobre a ausência de comprovação científica e se posicionem contra quaisquer tratamentos que firam as resoluções do Conselho Federal de Medicina.

É importante ressaltar que as políticas públicas e ações individuais para promoção da saúde do idoso e prevenção para o envelhecimento saudável já estão delineadas pela Organização Mundial de Saúde no programa “Envelhecimento Ativo” (acesse aqui o site do programa)e são baseadas não só em ações médicas, mas também em ações educativas  que promovam estilos de vida saudáveis, participação social e preservação e adequação do  meio-ambiente, tanto que o tema do da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o dia Internacional da Saúde de 2012, ocorrido no dia 7 de abril, foi sobre envelhecimento com o lema “adicionando vida aos anos”. E nenhum momento a OMS recomenda reposição de hormônios, vitaminas, antioxidantes e outras substâncias.  E muito menos fala em tratamentos antienvelhecimento.


*Silvia Regina Pereira é presidente da SBGG.

 


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