Escrito por Abdon José Murad Neto*

 

São Paulo está prometendo para Outubro/05 mais um movimento separatista, desta vez, por meio do CRM-SP, no seio da própria classe médica. Não podendo, por razões legais, aplicar o chamado Exame de Ordem para médicos, o CRM daquele Estado, está programando uma edição piloto de exame de habilitação para médicos recém-formados. Ao final das provas, serão fornecidos certificados de aprovação aos que obtiverem êxito.

Defensor apaixonado da proibição de abertura de Escolas Médicas por tempo mínimo de dez anos, já que o Brasil tem mais médicos do que precisa e do fechamento das Escolas que não têm condições de formar médicos, sou contra, também, o prometido exame piloto anunciado pelo CRM-SP. O que poderá advir de proveitoso com esse teste? Não consigo vislumbrar nada de positivo. Antevejo, entretanto, a criação de duas categorias de médicos naquele Estado e a possibilidade de dar força a um Projeto de Lei com o mesmo objetivo, que tramita na Câmara Federal, cujo autor é um Deputado Federal do Prona-SP.

Explico: nem todos os médicos recém-formados irão se submeter a esse exame, por várias questões, inclusive de fórum íntimo, por não concordarem com este procedimento, de atacar o efeito que é o médico não tão bem formado e não a causa que são as péssimas Faculdades de Medicina espalhadas pelo nosso País, misturadas às boas e excelentes, num total em torno de 120, formando 12.000 médicos a cada ano.

Outro contingente de recém-formados não será aprovado no teste, porque as suas Faculdades não o prepararam condignamente. Reprovados e ausentes, formarão um segmento prejudicado pela falta dos certificados que aos aprovados serão fornecidos. A quem interessa essa segregação?

A sociedade que já cobra demais dos médicos se apoiará no “selo de qualidade” que São Paulo passará a distribuir aos que se submeterem e forem aprovados pelo CRM local para, erroneamente, fazer juízo de valor sobre bons e maus médicos. Juízo de valor errado, porque esse certificado do CRM-SP, em nada vai garantir que os seus detentores são os melhores médicos de determinada safra de recém-formados, nem que a ausência dos mesmos em meio a muitos médicos significa que esses são piores.

Enquanto isso, as Faculdades de final de semana e as de semana inteira, mas, sem condições de funcionamento adequado para prepararem pessoas para cuidarem de outras pessoas, continuarão a existir e a serem abertas, num desrespeito aos jovens que sonham em ser médicos e que dão tudo de se e de seus familiares para obterem um Diploma, que nem sempre os qualifica para o exercício da Medicina em sua plenitude e num desrespeito à sociedade. Paralelamente a tudo isso, as vagas de Residências médicas continuarão a contemplar apenas 60% dos recém- formados, por total falta de compromisso das más Faculdades de Medicina que, além de não prepararem bons médicos, não se preocupam com a pós-graduação.

Pelos motivos expostos, considero inoportuno, desnecessário e perigoso o teste do CRM-SP, que embora deva estar calcado em bons propósitos, criará médicos que poderão ser vistos como de segunda categoria, sem que a essa categoria pertençam e os que à mesma se adequarem não será por culpa deles, mas, de um sistema nocivo e desmoralizador da Medicina e dos médicos e contra os interesses da sociedade.

 

*Abdon José Murad Neto é conselheiro federal e presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Maranhão (CRM-MA) e conselheiro federal.

 

 

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