Escrito por Alfredo Guarischi*
 
Nosso sistema de saúde sofre com problemas estruturais e crônicos. Repetidamente os governos fogem da discussão ampla e do planejamento de longo prazo. Administra-se por crises. Gasta-se muito ou de forma errada. Desvios e superfaturamento completam o cenário.
 
Mas no país do “nunca se viu antes”, o Ministério da Saúde inova. A solução para a medicina pública veio numa canetada. Viramos  o maior importador mundial de médicos, apesar de sermos vice-campeões no número de faculdades de medicina, ganhando da China e dos EUA.
 
Claro que faltam médicos, assim como enfermeiros, farmacêuticos  e outros. Faltam em número, em qualidade e em lugares específicos. Criar novas faculdades não traz a solução, mas pode aumentar  os problemas. Precisamos formar bons profissionais na técnica e na ética. Além disto, falta um plano de carreira para os profissionais de saúde semelhante ao já existente no judiciário.
 
Os médicos brasileiros reagiram ao programa “Mais Médicos”. Por xenofobia? Não, sempre fomos plurais praticando as regras internacionais. Pela reserva de mercado? Não, pois há espaço para os competentes. Reagiram porque os graves problemas estão nos grotões, nos quais a falta de saúde não é causa, mas consequência do longevo abandono. Reagiram porque este midiático programa vem recheado de equívocos. Mas seu pecado capital está na violação dos direitos humanos. Erro intencional ao defender uma dissimulada escravatura.
 
Este acorrentado lembra o do filme. O ministro apresentou ao mundo o Robomed, versão médica do Robocop.
 
A parte humana do Robocop é de um policial “quase morto”. Esta criatura de ficção revolta-se ao perceber que está sendo manipulado. Retratando a ambição pelo poder, no qual os fins justificam os meios, o filme discute o avanço da ciência e o retrocesso da ética; a manipulação da mídia e os interesses das grandes corporações.  Este “remake” dirigido por José Padilha retrata como o projeto de poder autoritário ressurge em ciclos, com diferentes roupagens.
 
Falta de Segurança não é um problema somente da polícia. Falta de Saúde também não é um problema somente da medicina. Em ambas as situações existem questões relacionadas à educação, a ética, a prevenção e ao resgate social. Mas os policiais e os médicos têm sua responsabilidade. A maioria está comprometida e não apenas envolvida. Como na estória do ovo com bacon, a galinha está envolvida – fornecendo o ovo – e o porco está comprometido – com sua carne. Estamos comprometidos, policiais e médicos, mas não somos porcos.
 
Não haverá um Robocop que substitua um bom policial.  Também não há espaço para um Robomed, este híbrido composto de ideologia por dentro e um ser humano por fora. Tal como no filme, o Robomed poderá ter um final semelhante. O ser humano existente nestes colegas cubanos, começou a se revoltar. Revolta-se contra seu criador, mas desta vez não é ficção. O homem livre é mais importante que qualquer ideologia. A imprensa percebeu.
 
Como a arte imita a realidade, os Padilhas – o cineasta e o ex-ministro – já passaram para a história. O cineasta e sua arte ajudando a sociedade brasileira. O ex é outra estória.
 
* É membro das Câmaras Técnicas de Oncologia do Cremerj e da Segurança do Paciente CFM.
 

 
    

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