Escrito por Mário Scheffer*

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Da última vez que falei com minha mãe por telefone, na noite de terça-feira (17 de abril), a ex-professora primária amada por todos na comunidade de São Pedro exibia a vitalidade e a alegria com que sempre levou a vida.

Com saúde invejável para sua idade, ela se preparava para mais uma de suas tantas viagens com um grupo de amigas e amigos. Sonhava em realizar muitas outras dessas excursões até o final de 2012. Também estava empolgada com a comemoração de seu aniversário de 80 anos, que se daria nesta semana.

Mas, infelizmente, Ana Esther Scheffer teve seus sonhos interrompidos por um ato de violência inominável. Na manhã da quarta-feira, dia 18 de abril, minha mãe foi assassinada covardemente dentro de casa.

Dois jovens bandidos com vasta ficha policial e usuários contumazes de crack, com 18 e 22 anos de idade, confessaram o crime a agora estão em prisão temporária. Um deles foi recolhido diversas vezes ao Centro Sócio-Educativo Santa Lúcia, o Cerespinho. O segundo cumpria pena por outro delito em regime de prisão domiciliar desde fevereiro passado. O que se lê em seus depoimentos é escabroso. Depois de invadir a residência de minha mãe, eles a asfixiaram com um travesseiro, ainda que a vítima gritasse por misericórdia. Num comportamento que não deixa dúvida quanto à crueldade patológica e o risco que esses facínoras representam para a sociedade, eles ainda jogaram sobre o rosto dela uma televisão extremamente pesada.

E qual o objetivo de tal exibição de atrocidade? Pasmem os cidadãos de bem de Juiz de Fora: tudo que os bandidos levaram foi um pouco de dinheiro, um saco de moedas e bijuterias (depois de matá-la, tiraram inclusive os anéis de suas mãos).

A família e os muitos amigos estão mergulhados em dor e sofrimento, mas também indignados e fortes. Afinal, não é só o caso de minha mãe que está em jogo: é preciso frear a escalada da barbárie na cidade. Por isso, convidamos todos a se unir ao nosso clamor em um Ato Contra a Violência – Queremos Justiça no Assassinato de Ana Esther, a ser realizado neste sábado, dia 28 de abril, às 17 horas, em frente à Igreja de São Pedro.

Com sua ingenuidade e hábitos simples de interior, como manter portas da casa abertas, minha mãe não viu mudar o bairro outrora pacato e acolhedor, uma ex-colônia alemã à qual ela se orgulhava de pertencer.

 Os suspeitos há tempos aterrorizam a comunidade de São Pedro, mas nada era feito pelas autoridades para conter a reincidência dos delitos e crimes, cada vez mais graves.

 Aqueles que lhe tiraram a vida não eram estranhos: conheciam seus hábitos e fragilidades, cruzavam com ela na praça e no ponto de ônibus, mais de uma vez a abordaram em busca de trocados para o crack. O crime, portanto, foi planejado com extrema frieza e calculismo.

Juizforano que vive há mais de 20 anos em São Paulo, confesso estar chocado com a realidade que, tristemente, voltei a conhecer de perto.

 A cidade em que nasci e cresci com orgulho convive hoje com a banalização da violência. A criminalidade explodiu. O crack tomou conta das ruas. Enquanto isso, assiste-se à total ausência de políticas públicas para afastar a juventude da droga e do crime. Da segurança, então, nem se fale: reproduzindo uma sina que acomete muitas cidades médias brasileiras, ninguém está seguro em Juiz de Fora hoje.

 Notei, com grande pesar, que o crime se tornou um item tão presente na  paisagem da cidade que as pessoas preferem adotar uma atitude de indiferença cínica do que encarar o problema como se deveria – uma chaga inadmissível numa cidade que se pretenda civilizada.

Devo registrar aqui o empenho da Polícia, que identificou e prendeu rapidamente os suspeitos. Assim como agradeço à dedicação do delegado responsável pelo caso, Rodrigo Rolli e a competência de toda a equipe de investigadores. Mas, em que pesem seus bravos esforços, é preocupante constatar que as limitações de uma polícia sucateada, sem perícia técnica adequada, com falta de pessoal e de equipamentos básicos até para exames de impressões digitais poderá colocar em risco a punição aos assassinos de minha mãe. Precisamos estar vigilantes, sob pena de ver esses monstros – pois não há palavra mais apropriada para descrevê-los – serem soltos e voltarem a ameaçar impunemente os cidadãos.

Nos próximos dias, aguardaremos com grande expectativa o final do inquérito policial e, tomara, a prisão preventiva e o inicio da ação penal contra eles. Convidamos você – mãe, pai, filho ou amigo que se preocupa com seus entes queridos ou já foi vítima de violência – a se juntar à nossa vigília no próximo sábado.

Que prevaleçam a justiça, a paz e um mundo melhor para todos.


*Mário Scheffer é formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)  e Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).                                      mscheffer@uol.com.br



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