Escrito por Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt*

 

Quem foi adulto nos anos 1950 e 60 lembra que existiam pessoas que tomavam “boleta” para passar as noites trabalhando, dirigindo, festejando. Muitos morreram em acidentes. Quem foi jovem nos anos 70 lembra do uso de “boletas” do Paraguai, entre elas o femproporex. Outros venenos da época, como o lança-perfume e o cheirinho da Loló, foram colocados fora da lei. Muitos jovens e adultos tiveram surtos psicóticos e se mataram, outros ficaram psicóticos definitivamente, e ainda outros passaram para a cocaína quando esta apareceu por aqui. Porém, algumas drogas dos anos 1950 e 1960 viraram “remédios”, e, destes, a anfepramona, o mazindol e o femproporex só agora estão sendo formalmente proibidos. Por este viés histórico, o Brasil tentou reinventar a roda e está agora atrasado 50 anos. Segundo a Anvisa em anos recentes, 3/4 do femproporex produzido no mundo foi vendido no Brasil.

Na Comunidade Europeia, onde fui médico nos anos 70 e 80, depois professor visitante nos anos 90, anfetaminas sempre foram proibidas. Durante minha tese de doutorado em Londres era quase impossível obtê-las legalmente (Tedeschi G, Bittencourt PRM, Smith AT, and Richens A. Effect of amphetamine on saccadic and smooth pursuit eye movements. Psychopharmacology 79: 190-192, 1983). Nos inúmeros hospitais americanos, europeus e até japones onde estive durante estes 35 anos, nunca vi ninguém prescrever anfetaminas.

Como médico, creio que nosso Conselho Federal ainda está insistindo no uso destas drogas porque precisa lutar pelos direitos dos médicos em uma época perigosa, com a automedicação, o autodiagnóstico e o autotratamento em níveis espantosos. Como neurologista e estudioso de História, creio ser um erro profissionais não especializados no cérebro utilizarem remédios que funcionam no cérebro. Tanto quanto seria jacksoniano eu, um neurologista, operar um apêndice, catarata, tireoide, ovário ou testículo. Segundo a Anvisa, são médicos do tráfego, pediatras, nutrologistas e endocrinologistas que prescrevem anfetaminas.

As anfetaminas foram sintetizadas logo antes de 1900, na Alemanha, a partir da ephedra sinica, conhecida desde a antiguidade (veja em Fora da casinha, uma história da loucura através dos séculos, de minha autoria, disponível no balcão de livros no site www.unineuro.com.br). O consumo das anfetaminas, cocaína e heroína era livre na Europa e USA no início do século XX, mas logo ficou óbvio que eram grandes micos. A 2ª Guerra Mundial ainda foi uma grande alucinação farmacológica. Hermann Göering, chefe da Força Aérea e um dos grandes caciques nazistas, era viciado em morfina; Hitler e sua comitiva tomavam grandes quantidades de anfetamina. O exército alemão tomava anfetamina até 1941, quando finalmente os líderes perceberam que o alto rendimento era seguido rapidamente de paranóia e autodestruição. Hitler desenvolveu uma das complicações do uso crônico, o parkinsonismo secundário.

A fascinação das anfetaminas está no efeito de euforia e bem-estar, mais até que no emagrecimento. O problema é que viciam rapidamente, como ocorre com a heroína, cocaína, morfina, codeína, crack. Em termos técnicos, surge a “tolerância”: a mesma dose já não produz o mesmo efeito; a pessoa automaticamente aumenta a dose, diminui o intervalo de uso, e aparecem sinais mentais e físicos de toxicidade. Pior, o cérebro não se recupera. Todos acompanhamos as recaídas em cocaína e derivados de morfina das celebridades, apesar dos recursos à sua disposição. Diferente de remédios para depressão, epilepsia, diabetes e pressão alta, a dependência química pelas anfetaminas fica marcada nos receptores cerebrais. Seja ela qual forma de anfetamina for, inclusive sua parente original da natureza, a efedrina de tantos antigripais brasileiros.

Porém, as coisas nem sempre são o que parecem. Talvez a Anvisa tenha outros interesses. As razões que listei aqui são antigas. Quando obesologistas dizem que não existe evidência científica contra as anfetaminas, em parte é verdade. A evidência já existia antes do advento dos estudos científicos modernos. Fenproporex, por exemplo (o correto é com n), é um composto químico que libera anfetamina direto na circulação da pessoa. Mazindol e anfepramona são um pouco mais fracos, porém pertencem ao mesmo grupo, tem a mesma natureza farmacológica. O vício na “pílula brasileira da dieta” é tão notório internacionalmente quanto a sandália Havaiana e o fio dental.

Pedir evidência de que anfetamina seja ruim é exigir que as leis de Copérnico, Galileo, Newton e Einstein sejam demonstradas em universidades brasileiras para podermos andar de elevador. Submeter anfetaminas a estudos clínicos para comprovar que são ruins é uma inversão da ética humana, médica e científica. Não existe evidência de sua eficácia. Em nenhuma situação.

 

* Paulo Rogério Mudrovitsch de Bittencourt é  PhD em Neurologia, pela University of London, professor titular de Clínica Médica, Doenças do Sistema Nervoso da Universidade Federal do Paraná (UFPR), membro da Academia Brasileira de Neurologia e cidadão benemérito do estado do Paraná.


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