Escrito por Maurício Fernando Cunha Smijtink*

“Todo sonho é grande para quem sonha; e, de alguma forma, todo sonhador tem de fazer uma travessia, enfrentar obstáculos”, diz a novelista Glória Perez. Sua novela, “América”, recém-estreada na Globo, mistura imigração ilegal, rodeios, dificuldades sofridas pelos deficientes, cleptomania, homossexualismo e experiências de quase-morte. Nenhum problema para uma autora de talento que já concebeu unidade ficcional a tramas que falavam de barriga de aluguel, transplante e crianças desaparecidas, bem como a clonagem humana, drogas, amor e islamismo. O interessante de uma novela ou romance é a exposição de questões problemáticas, permitindo a reflexão e o amadurecimento crítico. “América” tematiza a imigração de brasileiros, em particular a ilegal, para os Estados Unidos.

Não é de hoje que nos perguntamos por que tantos brasileiros têm saído do país, submetendo-se a todo tipo de pesadelo: as incontornáveis dificuldades da língua, solidão, trabalho forçado, riscos da clandestinidade. O grupo latino de origem brasileira é o que mais cresce nos EUA. Já chega a 1 milhão de pessoas. Acresça-se que muitos estão indo tentar a sorte também na Europa, no Japão… O êxodo só não é mais expressivo por causa das barreiras à imigração, principalmente depois do negro 11 de setembro.

O que surpreende é como, em um país tão rico, não estejamos conseguindo criar um ambiente mais estimulante para jovens que querem estudar e trabalhar, pessoas que querem empreender e crescer, no setor de serviços, no comércio, na indústria, na agricultura… A propósito, no último dia 17, abrindo o primeiro Diálogo da Classe Contábil com a Sociedade, em Cascavel, o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, falou sobre a notável evolução do agronegócio no Brasil. O setor já representa quase 30% do Produto Interno Bruto do país. Ainda temos uma área inexplorada equivalente ao total das terras cultiváveis dos EUA e da China, os dois maiores produtores mundiais de grãos. Entretanto, para que a tendência se consolide e distribua dividendos à sociedade, a agricultura precisa de “clima” econômico e institucional. A recente elevação da taxa básica de juros Selic para 19,25% ao ano é uma das explicações por que muitos brasileiros acabam desistindo de sonhar e tantos outros vão buscar em terras estrangeiras o que não encontram aqui.

Com taxas de juros entre as mais altas do mundo, carga tributária também das mais elevadas, excessos burocráticos, carência de infra-estrutura e de serviços essenciais, o Brasil não se transforma no celeiro de oportunidades como sonha qualquer governo e nação.

Paradoxalmente, a Selic é a taxa que, quanto mais alta, mais afunda o país. Nossa dívida pública aproxima-se rapidamente da casa do trilhão de reais. É com base nela que os nossos credores são remunerados e é por isso também que o governo briga por arrecadações fabulosas e superávits: para pagar os juros. A União caiu em um círculo vicioso recessivo e nele envolveu toda a nação: trabalha para pagar parte dos serviços da dívida, não tem recursos para investir em alternativas de crescimento. A população, desempregada ou com baixos salários, carrega o peso de produtos e serviços sobretaxados, não tem renda para vitaminar o consumo e muito menos para fazer poupança; e as atividades econômicas, por sua vez, sem um mercado interno forte, ficam na dependência de conquistar mercados externos.

Com essa política econômica, sempre teremos uma Sol sonhando com a vida lá fora (Sol é a personagem de Deborah Secco, cuja obsessão é ir para os EUA, mesmo que clandestinamente).

* É contador, empresário da contabilidade e presidente do CRCPR.

Publicado no site CRM-PR, em 21/3/2005.

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