Escrito por Jorge Luiz Baldasso*  

 

A chegada ao Brasil da primeira leva de médicos cubanos, sob vaias, polêmica e muita desinformação, expôs uma ferida grave na saúde pública do país: a falta de critérios, visão e, principalmente, responsabilidade de nossos governantes. Não se trata apenas do uso desavergonhadamente eleitoreiro de um dos mais elementares direitos constitucionais dos cidadãos, mas, sobretudo, da prevalência da desfaçatez e da hipocrisia quando se lida com a saúde e a vida – nossos bens mais preciosos – evidenciada de forma clara ao se proclamar aos quatro ventos que o recém-criado programa “Mais Médicos” seria a solução para os crônicos problemas da saúde pública brasileira, solenemente negligenciada pelos governantes ao longo de décadas e um dos principais alvos dos protestos populares que agitaram o país no mês de junho.  

Foi vergonhoso ver aqueles coitados, que já sofrem demais por pertencerem a um país onde não existe liberdade, falta tudo, inclusive comida, e as punições para os que não se enquadram serem das mais severas, serem submetidos à grosseria de ficarem confinados em unidades do exército brasileiro, sem poder sair ou falar com a imprensa – só aqueles autorizados e devidamente treinados para isso podiam fazê-lo, e tinham um discurso ensaiado: estavam vindo em “missão humanitária” para trazer ao Brasil as maravilhas da medicina cubana, uma das mais avançadas do mundo, e ficavam felizes em ter seu salário repassado aos irmãos Castro para dar continuidade às conquistas da revolução socialista, etc., etc… Acredite quem quiser!!! Os outros médicos estrangeiros, que chegaram em pequeno número – a maioria desistiu ao serem alertados sobre as péssimas condições das unidades de saúde brasileiras – não passaram por este constrangimento: se hospedaram em hotéis, podiam circular livremente, e trouxeram a família – regalia recusada aos cubanos, cujos familiares ficam em Cuba, onde sofrerão represálias caso o médico em “missão humanitária” resolva fugir ou pedir asilo.  

Trazer médicos da ilha de Fidel rendeu inúmeras críticas ao país, não apenas em razão da formação duvidosa daqueles profissionais, mas também por serem submetidos pelo regime cubano a condições análogas ao trabalho escravo, maculando a imagem do Brasil diante de organismos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho e a Associação Médica Mundial. Agora a briga é com os Conselhos de Medicina, que não querem fornecer registro aos estrangeiros que não comprovarem qualificação, conforme determina a lei (mas o governo promete que vai dar um jeito nisso também). Enquanto isso, continuam faltando leitos, materiais, equipamentos e medicamentos, a um ponto tal que a maioria dos médicos brasileiros contratados para o programa desistiu, logo em seu primeiro dia de trabalho… sujeira, mofo, infiltrações, falta de água para lavar as mãos e ambulatório em ruínas eram as queixas mais comuns. Frequentemente, estetoscópio e caneta eram os únicos equipamentos que dispunham para salvar vidas. O ministro da Saúde veio então a público e acusou os colegas brasileiros de estarem boicotando o programa (assim mesmo, na maior cara dura) quando estes apenas cumpriam seu código de ética… “recusar-se a exercer a medicina em instituições onde as condições de trabalho não sejam dignas ou possam prejudicar o paciente” (Art. 23).  

Pois é, este mesmo governo, cujo partido está há dez anos no poder e neste período fechou mais de 40 mil leitos hospitalares, 280 hospitais e 47 mil vagas em unidades básicas, tornando a saúde pública brasileira um exemplo de descaso e má gestão, agora aponta o dedo acusador para os médicos e instituições que os representam, dizendo que são contra a saúde do povo. É a forma grotesca que se valem para justificar sua incapacidade, má vontade e inação num momento em que em todo o país se clama por serviços públicos decentes, impostos que não sejam extorsivos e o fim da impunidade para os corruptos.  

A classe médica tem insistentemente se manifestado quanto a estes problemas, não apenas denunciando ou criticando, mas também apontando soluções. Infelizmente, não temos sido ouvidos. Adivinhem quem vai mais sofrer com isso!  

   

* É clínico geral em Mato Grosso do Sul

     

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