Escrito por Desiré Carlos Callegari*
 
 
Os rolezinhos pelos shoppings centers foram abordados das mais diferentes formas nos últimos dias. As manchetes dos jornais deram ao tema a dimensão de um fenômeno social e nas rodas de conversa simpatizantes e opositores se enfrentaram com furor. Para mim, que nasci no bairro do Ipiranga, na época um bairro operário da capital de São Paulo, os rolezinhos são uma nova leitura – anabolizada pelas redes sociais – dos hábitos da juventude de famílias trabalhadoras.
 
Em sua versão atual, os rolezinhos são encontros marcados pela internet por adolescentes, em sua grande maioria pobres e negros, querendo se divertir. Os pontos de concentração são os centros de compras, mecas do consumo e do lazer, para os moradores dos grandes centros.
 
Para além dos debates sociológicos ou antropológicos que a presença dessa multidão de jovens que gostam de skate, funk e rap causa nos corredores dos shoppings, fica a impressão de que os rolezinhos nada mais expressam do que a necessidade desse grupo de ser incluído em espaços da sociedade que, até pouco tempo, eram tão distantes quanto as torcidas do Corinthians e doA sua maneira, essa juventude é o retrato do Brasil, que ganha um pouco melhor e que almeja possuir produtos de marca ou comer em lanchonetes de fastfood. Também testemunha o abandono da periferia pelo poder público, que não oferece aos moradores desses locais o cuidado com urbanização, o transporte de qualidade e nem as opções de lazer a que têm direito.
 
No entanto, este fenômeno encontra espelho também no campo da saúde pública. Apesar de pouco divulgado, algo parecido com os rolezinhos acomete também o Sistema Único de Saúde (SUS). Ele se materizaliza na ambulancioterapia e na sobrecarga dos ambulatórios de média e alta complexidade, que são o termômetro das falhas de gestão que tornam a busca por consultas e exames especializados um périplo longo e doloroso.
Ao contrário dos encontros de juventude, o objetivo aqui não é consumo e diversão, mas ter acesso à linha superior de cuidados, um passo além do que já foi conquistado em suas localidades. Nada contra o investimento nas políticas públicas de prevenção e promoção da saúde, muito pelo contrário. Elas são fundamentais para a melhora dos indicadores epidemiológicos e para o bem estar das comunidades. Mas não é apenas dessa forma que se resolverão os problemas de assistência de milhões de trabalhadores.
 
Sem a oferta de mais leitos, sem a garantia de exames e tratamentos e com uma política de recursos humanos em saúde inexistente, o Estado – mais uma vez – comprova que não entende o que a população quer. Com isso, os “rolezinhos” da saúde existirão por um bom tempo. Milhões de trabalhadores continuarão a viajar centenas de quilômetros em ambulâncias ou acordar de madrugada para encontrar um especialista, que não poderá fazer muito pelas limitações dadas pelos gestores do SUS.
 
Os Conselhos de Medicina esperam que incômodo que os rolezinhos deixam no ar não desapareça feito fumaça, até o surgimento de um novo fenômeno. Sem a necessidade dos excessos cometidos pela polícia e o preconceito de alguns, o importante é que o Estado lembre que as cidades vão além do centro e dos bairros nobres e que também há necessidade de estar presente nas periferias, no que se refere ao lazer e à saúde.
 
 
*  É 1º  secretário do Conselho Federal de Medicina (CFM) e ex-presidente da Sociedade de Anestesiologista do Estado de São Paulo (Saesp).
 

 
    

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