Escrito por Roger Abdelmassih*

A História nos mostra que o avanço da ciência é inexorável, mesmo enfrentando a sempre presente resistência dos interesses contrários – especialmente os de ordem religiosa. O panorama de debates no qual estavam envolvidas as pesquisas com células-tronco embrionárias não foi diferente. É de se imaginar que, no conteúdo, esses debates muito se assemelhavam às discussões medievais, quando um douto corpo de senhores, representantes de Deus e delegados da verdade, resolvia que o dito cientista que se atrevera a dizer como o sangue circulava no corpo cometera uma heresia e merecia ser punido com a fogueira. Os argumentos eram levantados, discutidos e aceitos pela alta intelectualidade da época. A lei era feita, a ciência brecava, mas não por muito tempo. Hoje, a heresia tem nova roupagem: o lucro financeiro. Em carta distribuída aos parlamentares, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil pedia o veto à inclusão das pesquisas com células-tronco, argumentando que os grupos investidores em biotecnologia só tinham interesse em auferir lucros.

Houve também o debate sobre a vida do embrião, debate que envolve não só os religiosos como os doutrinadores das ciências jurídicas. Para muitos, um embrião é um conjunto de células vivas, mas não é vida. Há quem diga que passa a ser considerado uma vida a partir da formação do sistema neural, com 15 dias de existência. Minha opinião é de que um embrião torna-se uma vida, com todos os direitos inerentes, a partir do momento da sua implantação no útero materno – a partir de quando é alimentado e tem condições de desenvolver-se. Definitivamente, um embrião congelado não é vida.

Diante do temor das autoridades católicas, de que interesses mercadológicos sobrepujem a preocupação com a saúde e com a vida, ou diante da subjetividade controversa sobre o início da vida, confronte-se o enorme medo de quem enfrenta uma doença degenerativa sem esperança de tratamento; o grande desespero de quem vê a vida de seu filho esvair-se dia a dia, sob a distrofia de músculos doentes. Que temor seria maior do que o de não ter esperança para exercer o legado que Deus nos concede: a vida? Diante desses temores e desesperanças, estes sim, concretos, não seriam – no mínimo – incoerentes quaisquer objeções religiosas?

Minha formação e convicção religiosa são católicas. Sou um homem de fé, temente a Deus, católico praticante. E sou médico. E como médico abracei uma especialidade que tem por trás uma ciência que procura desenvolver todas as tecnologias para viabilizar a vida para casais inférteis. Nesse sentido, vale lembrar que o polêmico bebê de proveta de 1978 transformou-se em um marco dos grandes avanços da medicina reprodutiva, e só no Brasil centenas de crianças nascem anualmente, trazendo realização pessoal e felicidade para suas famílias. Esses bebês, há menos de 30 anos, seriam impossíveis. As técnicas de reprodução assistida hoje utilizadas foram, também, combatidas, discutidas, consideradas heréticas por alguns setores religiosos.

Ao aprovar o projeto de lei da biossegurança, a medicina pode pensar na efetiva cura de condições de saúde que até hoje nos diminui, como médicos, e que ferem os princípios básicos da dignidade do viver. Essa possibilidade, no meu entender, não poderia esbarrar em empecilhos e debates de quaisquer ordens – fossem religiosas, econômicas ou jurídicas. Nenhum debate, nenhum jogo de palavras poderia estar acima e à frente do direito à vida de seres vivos que sofrem sem esperança para seus males, para os quais Deus misericordioso está propondo soluções por meio do conhecimento dos homens. Seria uma incoerência incompatível com a dignidade do viver – para a qual a medicina existe e empreende todos os seus esforços. Impedir esta possibilidade de esperança, este sim, seria o pecado maior.

* É médico, especialista em reprodução humana.

Publicado no jornal O Globo, em 14/3/2005.

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