Escrito por Alceu José Peixoto Pimentel*

Em um jornal de grande circulação, não recordo exatamente qual, li uma matéria que informava a decisão tomada por bispos da igreja católica, reivindicando do governo federal a suspensão do pagamento dos juros da dívida externa, para que estes recursos fossem empregados no combate à fome e a miserabilidade que grassa em nosso país. É muito bom ver a igreja assumindo posições como esta considerando a alta credibilidade que tem por parte de todos os segmentos sociais e o grande poder de formar opinião. Todas as entidades organizadas da nossa sociedade, sejam elas religiosas ou não, deveriam estar sintonizadas com estas preocupações.

A visão que devemos ter é a de que, nós médicos, somos componentes de um todo, do organismo social. Estrutura viva e dinâmica que necessita de todos os seus órgãos funcionando adequadamente para, dessa forma, poder se desenvolver harmonicamente, contemplando todos os seus membros igualmente. Nunca será possível a sobrevivência isolada de uma de suas partes. É preciso que mude, no inconsciente coletivo, esta necessidade da competição desenfreada e canibalesca onde só a sobrevivência individual ou de pequenos grupos aparece como mais importante, em detrimento do poder que possuímos de somar forças, em unidade, e almejar grandes vitórias e horizontes mais amplos. Portanto, devemos nos preocupar também com este tema – a saúde da sociedade – devemos estar atentos ao bem estar social.

A categoria médica, assim como todas as outras profissões, é somente uma célula desse organismo e, neste sentido, é imprescindível que o todo esteja saudável, para que nós, enquanto partes, tenhamos uma fisiologia normal. O movimento médico, junto com setores dos outros segmentos da sociedade, deve acompanhar, participar e tentar influenciar nos rumos dos grandes problemas que assolam a nossa população, onde a fome adquire proporções assustadoras e a miséria é a companheira do dia a dia dos brasileiros, principalmente dos nordestinos. A redistribuição de renda, a reforma agrária e o combate ao analfabetismo são formas de solucionar problemas que retiram dos indivíduos o direito à cidadania, colocando-os à margem do processo sócio-econômico, político e cultural, impedindo o crescimento harmônico e com qualidade do conjunto da população.

Como resultado da não implementação destas políticas temos o cenário que se nos apresenta na atualidade: · Índices de analfabetismo e indicadores sociais que nos assemelha aos piores países da África, francamente subdesenvolvidos em todos os sentidos. · A fome como uma das piores vergonhas que temos que conviver. Cinqüenta milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza, os miseráveis. · Mais de 80% da população trabalhadora recebendo igual ou abaixo de um salário mínimo mensal. · O número assustador de desempregados. O mercado informal em plena ascensão caracterizando o alto índice de desemprego, mais de 10%, segundo indicadores oficiais, que angustia a população trabalhadora.

Este mercado informal causa um verdadeiro caos urbano nos centros das grandes cidades. Situação esta que acaba demonstrando também a grande capacidade de resistência, a força que as pessoas possuem na tentativa da sobrevivência e o seu enorme potencial criativo. Este quadro escancara a incompetência histórica que vêm tendo os governantes neste país, os quais não definem políticos que venham de encontro às soluções dos problemas existentes.

Esta situação degradante é, freqüentemente, usada como bandeira em várias campanhas eleitorais, enganando de forma vil à população na medida que depois os seus defensores, no plano Federal, sucumbem ao controle dos patrões internacionais, tornando-se servos do Fundo Monetário Internacional e nos planos estadual e municipal estabelecem alianças espúrias abandonando os seus princípios e desrespeitando todos os compromissos assumidos junto à população. Devemos nos preocupar, mas estas moléstias são perfeitamente curáveis.

O primeiro passo foi dado no momento em que a sociedade escolheu, no processo eleitoral de 2002, os candidatos com um perfil de compromisso histórico e sólido com as causas sociais, pois, só com este referencial as definições políticas poderão ser, realmente, tomadas e definidas as ações, os remédios, que irão curar, mesmo que lentamente, este doente crônico restabelecendo todo o potencial de suas funções vitais. Mas ainda existe muito caminho a percorrer se considerarmos que as forças políticas do atraso que comandaram este país, desde o seu descobrimento, ainda continuam vivas e atuantes necessitando, desse modo, que a sociedade e os trabalhadores alcancem um nível de organização muito maior que o atual para que possamos fazer valer os nossos projetos colocados na mesa do governo. E só assim estaremos caminhando na direção da construção de uma sociedade justa, igualitária e fraterna. E nesse processo, o movimento médico, segmento de grande poder de combatividade, juntamente com os demais setores de vanguarda da sociedade, saberá estar no local devido, ou seja, no topo do furacão que, com certeza, varrerá este país em todas as direções.

* É conselheiro federal suplente representante de Alagoas e coordenador da Comissão de Assuntos Políticos CFM/AMB.

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