Escrito por Marino Braga*

Uma das coisas de que ainda me lembro de meu pai, o juiz Antônio Braga, era o que eu via em casa e o que ele contava a respeito de suas atividades de médico. Atuando desde a primeira década do século em pequenas cidades do interior onde não havia médicos, nem meios para alcançá-los, e para atender a família que ia sempre crescendo, o Dr. Braga se viu na necessidade de conhecer alguma coisa sobre as doenças mais comuns e por isso tinha em casa um pouco de literatura de medicina e o essencial para a manipulação de remédios. O Guia Prático da Saúde e um estojo completo que continha todos os remédios da homeopatia estavam sempre às suas mãos:

n° 1, acônito;

n° 2, brionia;

n° 3, beladona, e assim por diante.

Era, até onde podia, o médico da família. Acontece que, por força das circunstâncias, era levado, ocasionalmente, a atender vizinhos ou amigos. E isso — a seu contragosto — fazia com que às vezes fosse olhado não apenas como juiz, mas também como médico. Certa vez, lá pelas 10 da noite (na época era quase madrugada), foi procurado pelo filho de um vizinho que dizia que seu pai estava passando mal e não havia encontrado o farmacêutico da cidade. Lá se foi o Dr. Braga ver o que estava acontecendo, pois não poderia negar-se a dar a ajuda que estivesse ao seu alcance.

Voltou algum tempo depois, com um ar muito satisfeito, uma vez que não só havia diagnosticado com exatidão qual a doença do vizinho como lhe tinha aplicado o tratamento certo, que produziu imediatos resultados. O amigo já estava bom. Guloso como ele só, o vizinho, no jantar, mergulhou com entusiasmo numa portentosa feijoada e o resultado não poderia ter sido outro senão uma também portentosa indigestão. O remédio para a rápida cura foi tão só e simplesmente o conhecido e apropriado vomitório que se usava naquela época: o tradicional dedo na garganta. Aplicado o “remédio”, o paciente voltou a respirar aliviado.

O susto passou, e provavelmente deve ter ficado a pensar com os seus botões: êta médico bom esse seu dr. Juiz. O episódio, narrado muitas vezes e com muita graça por meu pai, registra o lado curioso desse aspecto da vida daqueles tempos. A verdade, porém, é que, do seu lado sério, a situação vivida por meu pai — e que deve ter sido vivida por outros juízes também — retrata muito bem as dificuldades enfrentadas por quem se dispunha a exercer funções como as de juiz, ou mesmo outras, em nosso imenso, longínquo e desaparelhado interior daqueles heróicos tempos.

Eu mesmo passei por momentos difíceis, muitos anos mais tarde, mesmo quando o progresso já começara a se espraiar por todo o Paraná. Numa comarca do interior — por coincidência a única em que meu pai também tinha sido juiz —, fiquei, certa vez, sem médico para atender a um filho doente. A cidade tinha apenas um médico, muito bom por sinal. Meu segundo filho, então com apenas um ano de idade, ficou doente do aparelho digestivo. Não parava nada em seu estômago, nem mesmo água, e ele se desidratava constantemente. Definhava a olhos vistos.

Toda a região estava assolada por fortes chuvas, a enchente do rio levou pontes e balsas e a cidade ficou completamente isolada. O médico fora atender a um doente num lugarejo isolado e ficou preso lá. Os dias se passavam e ele não voltava. Os recursos que improvisávamos, com a ajuda do farmacêutico da cidade, de nada adiantavam. Felizmente o médico voltou a tempo de dar o tratamento correto e curar o menino.

Depois de tudo serenado, fiquei a pensar sobre a conveniência de ter, como meu pai, um cursinho de medicina doméstica. Mas esse pensamento não me ocupou por muito tempo, pois a partir de então nunca mais passei por situações como aquela. Nas outras cidades em que atuei, não só havia vários médicos como existiam hospitais muito bem aparelhados. Mesmo que chovesse copiosamente, as habilidades médicas do Dr. Braga passaram apenas a fazer parte das agradáveis reminiscências da vida de um juiz que, em certas ocasiões, por força das circunstâncias, precisava fazer as vezes de um improvisado médico. E até que o fazia muito bem, pelo menos quando o doente outra coisa não era senão um danado de um pantagruélico fora de horário.

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail imprensa@portalmedico.org.br, acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.


* Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail imprensa@portalmedico.org.br, acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.
Aviso de Privacidade
Nós usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação no portal. Ao utilizar o Portal Médico, você concorda com a política de monitoramento de cookies. Para ter mais informações sobre como isso é feito, acesse Política de cookies. Se você concorda, clique em ACEITO.