Escrito por Samir Dahas Bittar*

A história de povos e países ensina-nos lições preciosas. Vivemos em um país jovem; muitos outros, milenares, têm em seu passado a fascinante participação no desenvolvimento da humanidade. Em seu tempo, detinham conhecimento tão avançado que ainda hoje desafiam os que buscam explicar tanto avanço em uma época em que o conhecimento científico lógico era praticamente inexistente. Eram vanguardas absolutas. Grande parte destes países representa hoje exatamente o inverso do que foram. Culturalmente isolados, apresentam indicadores sociais lastimáveis e são governados por castas oligárquicas vitalícias. Enquanto isso, outros países, em períodos inferiores a 100 anos, promoveram uma verdadeira revolução desenvolvimentista, que representou grandes e favoráveis transformações para seus povos, com justiça social, redução da corrupção e das desigualdades. Dentre esses, podemos citar a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia, a Alemanha e o Japão do pós-guerra.

Os estudiosos atribuem tais avanços ao forte investimento na transformação dos valores morais e humanos, na educação, no respeito às leis, no combate à corrupção e na punição de delitos. Esses países nos ensinam para a vida e para o movimento médico. Mostram-nos que o imediatismo de muitos, que se impacientam por resultados plenos mesmo diante das significativas conquistas, não cabe em projetos ousados e duradouros, como desejamos ter. Os pessimistas, também em descompasso, profetizam dificuldades e derrotas, e as alcançam.

Precisamos voltar os olhos para nossos quintais quando nos referimos à péssima qualidade de muitos gestores públicos no país, e analisar sem paixão a qualidade da gestão que tem sido aplicada em nosso meio associativo. Não seremos uma classe consistente se a busca pela competência e pelo aprimoramento dos valores éticos e morais não se fizer em todos os níveis.

É papel imprescindível das regionais, além de suas atribuições locais, informar aos associados sobre os grandes projetos nacionais em prol da classe, motivando-os a participar. Já se notabilizariam só em fazê-lo. De outra forma, perdem a oportunidade, vital para o movimento, de capitalizar as ações nos dois sentidos, fazendo chegar aos associados as iniciativas das entidades maiores, e levando a estas o sentimento reinante e as reivindicações das bases. Algumas funcionam como unidades blindadas, alheias aos acontecimentos. A ausência de informações traz a falsa impressão de inoperância, afasta o médico da entidade, reduz a sua auto-estima, mina seu ímpeto de lutar e desagrega.

Quem sabe pudéssemos aplicar uma lei de responsabilidade moral associativista àqueles que ocupam cargos para atender à sua vaidade pessoal, ou aos que se expressam pela óptica pessoal para denotar capacidade e discernimento, mas estão sempre distanciados dos interesses da maioria, e na contramão do movimento nacional. Não há mais espaço para os que se elegem e geram um período estéril na entidade, quase sempre desfazendo em pouco tempo o que muitos construíram com grande esforço. Impunemente, fazem-nos retroceder, prorrogando para um tempo distante o momento em que alcançaremos nossos objetivos.

Ainda evocando a gestão competente como fundamental para as nossas cooperativas, cujo papel é fundamental nesse processo de construção, aplicaríamos a lei de responsabilidade moral cooperativista aos dirigentes que agem e se expressam como donos de operadoras nas mesas de negociação com os médicos, aos que criam e perpetuam singulares inviáveis economicamente, aos que estabelecem para si salários incompatíveis com a realidade, e aos que não se alinham aos propósitos do movimento médico, alimentados pelo sentimento de auto-preservação e pela falsa idéia de que podem ter cooperativas fortes com médicos enfraquecidos e mal remunerados.

O tempo, necessário para promover as mudanças, é aliado dos que conseguem empreender esforços de forma continuada e com foco definido. Será por conseguinte inimigo dos que se perdem em seus objetivos, ou se dão por vencidos diante das dificuldades. Até no mais singelo ato profissional, desde que exercido de forma ética e qualificada, estaremos contribuindo para a consecução desse grande projeto.

Transformar é possível, alcançar metas ousadas também. Países inteiros o fizeram. Temos em andamento grandes projetos. Quanto a estes, seja conforme o verso bíblico: “Aquele que põe a mão no arado, não olhe para trás” (Lc. 9.62). Nosso caminho é adiante.

* É diretor de Saúde Pública da Associação Médica Brasileira.

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