Escrito por Edevard José de Araujo*

Combativo, polêmico, peculiar. Esses e vários outros adjetivos poderiam acompanhar o nome de Marco Antonio Becker. O conheci quando fomos presidentes de Conselhos, mas nossa convivência aumentou a partir de 2002 no Conselho Federal de Medicina, onde fazíamos parte da 5a Câmara de Julgamento. Dessa curta convivência, três lembranças dele me são mais fortes.

A sua imensa distração e, por conseqüência, sua desorganização. Entre 2002 e 2004, fomos vizinhos de assento na Plenária do CFM e, logo na minha primeira participação ele quase conseguiu destruir meu precioso notebook. Inicialmente tropeçou no fio (mesmo após ser alertado) jogando-o ao chão e, em seguida, quase o afogando com um copo d’água. Daí em diante, eu vivia angustiado, cuidando da integridade dos meus pertences. Em 2005, durante a redistribuição de assentos do novo Corpo de Conselheiros, confesso que fiquei satisfeito ao ver a valorosa flâmula do Estado Rio Grande do Sul no lado oposto da plenária (desculpe Becker, mas eu precisava relaxar um pouco!). Se ele estivesse telefonando para o CREMERS ou dando uma entrevista, usando o seu fone de ouvido enquanto esvaziava a sua bolsa (guardava tanta coisa que de vez em quando tinha que fazer uma seleção), o Becker era um perigo iminente a tudo e a todos em volta dele: caiam cadeiras, pastas eram arremessadas, copos eram entornados, cafezinho esparramado, os óculos eram deslocados, a caneta se perdia, o paletó dependurado (que de vez em quando alguém escondia) ia ao chão, os sapatos eram retirados, seus pertences invadiam as mesas ao lado… era indescritível! E só havia uma forma de acalmar o homem: colocá-lo na Presidência dos trabalhos. Aí ele se transfigurava e tudo se ocorria dentro da mais perfeita ordem. E foi o que estabelecemos nos julgamentos da 5a Câmara: o Becker passou a ser sempre o Presidente!

Outra lembrança que me vem: o respeito ao ser humano era uma premissa básica dele. Nunca ouvi da parte dele qualquer adjetivo que desclassificasse alguém com quem estivesse em conflito. E não eram poucos – o Becker adorava encabeçar uma confusão! Constantemente ele estava litigando com um hospital, uma faculdade, um Ministério, uma autoridade qualquer, um jornalista, um colega, etc. Entretanto, seus comentários se limitavam aos fatos e às ideias, sem diminuir a pessoa.

Não esqueço também do medo que o Becker tinha de ser injusto. A máxima de que é preferível absolver um culpado do que condenar um inocente era perseguida por ele, mais do que por qualquer outra pessoa. Foram inúmeros os julgamentos em que ele levantou um voto pela absolvição ou redução da penalidade aplicada ao médico. O seu voto divergente, sempre acompanhado de um pedido de precedência, para justificá-lo enfaticamente em defesa do colega, já fazia parte dos julgamentos. E, quando a conduta transgressora do médico era cristalina e unânime, o Becker valia-se de suas teses jurídicas para tentar demonstrar uma falha processual ou questão preliminar, afim de obter um arquivamento ou nulidade.

Não tive a honra de estar entre os seus maiores amigos, mas tínhamos uma ótima convivência, debati inúmeras vezes com ele e, por isso, aprendi e cresci.

Estou convicto de que a sociedade brasileira perdeu um gigante, combativo pela qualidade da assistência à saúde; enquanto, a classe médica, perdeu um protetor.

* É conselheiro federal representante da Associação Médica Brasileira.

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