Escrito por Henrique Suplicy*

O jornal do Conselho Federal de Medicina na edição de Jan/Fev 2009 publicou um artigo da psiquiatra Regina Coeli Martins Pinto, com o título acima. No referido artigo a Dra diz ser médica há 29 anos, diz nunca ter prescrito anorexígenos e defende a retirada sumária destes fármacos do mercado. Como médico há 36 anos e professor de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal do Paraná há 34 anos, gostaria de contrapor esta opinião.

A obesidade é uma doença crônica, universal, de prevalência crescente e que vem adquirindo proporções epidêmicas alarmantes, sendo a doença metabólica mais comum e um dos principais problemas de saúde da atualidade. Estima-se que hajam no mundo mais de 1 bilhão de adultos com sobrepeso e mais de 300 milhões de adultos obesos. A prevalência da obesidade vem aumentando assustadoramente também em crianças.

A obesidade está associada a varias doenças muito prevalentes na sociedade moderna, tais como: diabetes mellitus tipo 2, doença cardiovascular, hipertensão arterial, dislipidemia, calculo biliar, esteatose hepática, gota, alguns tipos de câncer, osteoartrite, problemas respiratórios, alterações endócrinas e distúrbios psicológicos. A Organização Mundial da Saúde prevê que em 10 anos, dois terços das doenças serão atribuíveis a doenças crônicas associadas à obesidade.

Vários estudos com grandes populações , bem como estudos epidemiológicos menores, mostram a relação entre mortalidade e Índice de Massa Corporal (IMC), com uma aceleração no risco de mortalidade para IMC acima de 30. Vários estudos mostram também que uma perda ponderal de 5 a 10% melhora as co-morbidades e diminui a mortalidade.

A obesidade é uma doença complexa e de origem multifatorial, com influencias genéticas, hormonais, psico-sociais e ambientais. Havia um conceito errôneo de que a obesidade era conseqüência apenas da interação de hábitos alimentares errados e de falta de atividade física, ambos resultados de falta de vontade, personalidade e caráter do obeso. Com a descoberta da Leptina em 1994, este panorama mudou, a obesidade passou a ser ciência e hoje inúmeras substâncias (Ghrelina, CRH, POMC, Cart, TRH, NPY, Adiponectina, GLP1, TNF, citocinas, resistina, visfatina, UCPs, PPARs, CCK) estão relacionadas a esta patologia. E, como na psiquiatria, a intrincada ação cerebral de algumas destas substâncias é que irão determinar maior ou menor fome/saciedade. Eu me atreveria a fazer um comparativo da obesidade com algumas doenças psiquiátricas, por exemplo, o individuo não tem síndrome do pânico porque quer e o obeso não é obeso simplesmente porque quer.

Concordo plenamente com a colega, quando diz que prevenção é o melhor remédio, mas infelizmente o aumento global da prevalência da obesidade mostra que estamos perdendo esta batalha, espero que não a guerra.

Concordo também que reeducação alimentar e atividade física são fundamentais e os vários consensos e diretrizes nacionais e internacionais dizem que drogas no tratamento da obesidade devem ser usadas apenas como parte de um programa que inclua dieta, atividade física e mudança comportamental. Dizem também que estes medicamentos podem ser utilizados como terapia de apoio em pacientes obesos (IMC>30) ou com sobrepeso (IMC>25) desde que hajam fatores de risco ou doenças associadas.

Concordo que o Brasil é um dos países que mais consomem drogas anorexígenas. A colega refere que na comunidade Européia e nos Estados Unidos o uso de anfetaminas é proibido, gostaria de esclarecer que o uso de anfetaminas também é proibido no Brasil. O que se utiliza no Brasil e também na maioria dos países citados, são derivados anfetamínicos que causam bem menos efeitos colaterais. No Brasil utilizamos anfepramona e fenproporex e nos Estados Unidos utiliza-se anfepramona e fentermina. Quando a Dra diz que “não é normal consumir anfetaminas, nosso cérebro produz gratuitamente, neurotransmissores (serotonina, dopamina, noradrenalina etc.) que regulam a nossa vida mental e funções básicas como sono, prazer, controle da fome , por exemplo”, eu perguntaria por que então os psiquiatras utilizam drogas serotoninérgicas, dopaminérgicas, etc.

Os anorexígenos, como todos os medicamentos, devem ser utilizados dentro de uma ética rigorosa. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Associação para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), vem há muitos anos combatendo o uso indiscriminado destes farmacos e dentro destas sociedades eu tenho sido um ferrenho defensor do uso correto e ético destes medicamentos.

Como a obesidade é uma doença crônica de difícil tratamento e como o número de obesos só faz aumentar, houve um desvirtuamento no tratamento farmacológico desta patologia por parte de pseudo-endocrinologistas, a quase totalidade sem nenhuma formação endocrinológica. Vendo nestes pacientes um filão a ser explorado, estes médicos passaram a utilizar fórmulações magistrais emagrecedoras que chegavam a conter mais de 20 princípios ativos (doses abusivas de anorexígenos, diazepinicos, hormônio tireoidiano, diuréticos, laxantes, etc. etc.) que ocasionavam uma rápida perda de peso mas com sérios efeitos colaterais. Como não se priorizavam as mudanças de hábito de vida, estes pacientes, uma vez suspendendo o uso da fórmula, recuperavam todo o peso perdido e voltavam a aquele profissional em busca de nova formulação, tornando-se assim prisioneiros das mesmas. Acredito que este uso abusivo de formulações magistrais tenha sido o responsável pelos índices Brasileiros de consumo de anorexígenos e pela má fama dos mesmos.

A SBEM e ABESO sempre combateram a prescrição destas formulações magistrais e contavam que a resolução CFM 1477/97 que proibe a associação de moderadores do apetite com outras substancias, com a finalidade de tratar a obesidade, viesse a coibir esta má prática. Infelizmente o resultado desta resolução foi pífio e as formulações magistrais continuaram a ser prescritas.

Prescrevo anorexígenos há mais de 30 anos para os pacientes que realmente deles necessitam, de acordo com as Diretrizes Nacionais e Internacionais. Nosso objetivo com o emagrecimento é diminuir a morbi-mortalidade e acredito ter atingido este objetivo em inúmeros pacientes. Estes fármacos prescritos nas doses corretas, são eficazes, ocasionam poucos efeitos colaterais, tem um potencial de dependência muito pequeno e com certeza esta é a opinião da maioria dos endocrinologistas que tem experiência com o uso destes medicamentos.

Pelas razões expostas, defendo que estes medicamentos devem permanecer no mercado e espero que o controle mais rígido por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a partir da resolução RDC 58 coiba os abusos e que o Brasil deixe de ocupar os primeiros lugares no uso destes fármacos.  

“ O REMÉDIO MAIS UTILIZADO EM MEDICINA É O PRÓPRIO MÉDICO, O QUAL, COMO AS DEMAIS MEDICAÇÕES, PRECISA SER CONHECIDO EM SUA POSOLOGIA, EFEITOS COLATERAIS E TOXICIDADE” Michael Ballint – Psicanalista Inglês

 

* É professor de Endocrinologia e Metabologia da Universidade Federal do Paraná.

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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