Escrito por Cid Velloso*

A “medicalização” da vida é a transformação de situações normais da existência humana em objetos de abordagem por profissionais de saúde, utilizando medicamentos e equipamentos. Eventos como nascimento, morte, adolescência, menopausa, envelhecimento, atividade sexual, distúrbios digestivos e outros, são transformados em situações clínicas. Nessas situações, é preciso desenvolver atitudes e ações destinadas a promover a qualidade de vida e prevenir doenças, mas o que acaba ocorrendo é o uso indiscriminado e em larga escala de medicamentos.

O filósofo Ivan Illich, em seu livro A expropriação da saúde (1975), já alertava para esse tema, criticando a crescente apropriação da saúde, até mesmo reduzindo a autonomia das pessoas para resolver ou encaminhar seus próprios problemas. Em artigo publicado na revista Le Monde Diplomatique, em maio de 2006, Moynihan e Wasmes denunciaram o movimento da indústria farmacêutica, que vem há longo tempo procurando produzir remédios para as pessoas saudáveis.

O marketing é empregado para criar novas doenças ou novas síndromes, dar novos nomes e destacar a importância de problemas funcionais, para induzir o uso de medicamentos. Essa situação é muito grave, especialmente nos Estados Unidos, que têm menos de 5% da população mundial e representam cerca de 50% do mercado de medicamentos.

Medicamentos de uso discutível em pessoas saudáveis, como vitaminas, hormônios sexuais, medicamentos para diminuir a taxa de colesterol, antidepressivos, vaso-dilatadores, antibióticos para uso “profilático”, anti-inflamatórios, psicotrópicos, além de outros, são, atualmente, largamente usados sem necessidade cientificamente comprovada. Os medicamentos usados para diminuir a taxa de colesterol, por exemplo, formam um dos grupos mais usados no mundo, o que é alimentado pelo verdadeiro terrorismo veiculado pela imprensa leiga, com o propósito de evitar doenças circulatórias. São remédios potentes, muito importantes no arsenal terapêutico moderno, mas não podem ser usados apenas porque o valor numérico do colesterol no sangue está acima do que é considerado normal – isso seria como se estivesse sendo tratado um número e não uma pessoa.

É evidente que, se as astronômicas quantias gastas com medicamentos de elevado custo, fossem utilizadas de modo eficaz em campanhas e ações permanentes contra o tabagismo, alcoolismo e outras drogas, estímulo à atividade física, alimentação saudável, orientação sexual e outras ações preventivas, o efeito sobre a saúde humana seria muito mais eficiente. Profissionais de saúde e a população devem ficar alertas e exercer seu espírito crítico em relação ao uso de medicamentos, que devem ser empregados apenas em situações específicas, para obter benefícios cientificamente comprovados.

* É professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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