Escrito por Marcelo de Pinho Teixeira Alves*

 Gostaria de refletir sobre um assunto muitas vezes problemático, as casas de parto, ou a “humanização do parto”, como alguns preferem.

Falam que atualmente se realizam muitas cesarianas, que isso aumenta o risco para a mulher e para a criança, como também de ocorrência de infecções e outras sequelas. Dizem ainda que o parto sempre normal seria mais benéfico e que a presença de obstetra e de pediatra (geralmente neonatologista) seria desnecessária, e que isso encareceria para o Estado o procedimento de trazer à luz uma criança.

Afinal, se o médico obstetra cursou uma faculdade de medicina por seis anos e, depois, por mais pelo menos três anos fez residência médica e se especializou em tal procedimento, isso pode ser dispensado?

E o médico pediatra – igualmente com formação prolongada e tendo de percorrer um árduo caminho, em nosso país, para ser habilitado a exercer sua profissão de forma adequada – também pode ser dispensado das casas de parto?

Resolvi fazer um levantamento estatístico de apenas um mês, janeiro de 1930, sobre os registros de óbitos realizados no Cartório da Quarta Circunscrição do Rio de Janeiro. Escolhi 1930 porque, naquela época, não era acessível para todas as mulheres o acompanhamento pré-natal, os partos eram normais e as crianças geralmente nasciam em casa. Ou morriam.

No período recortado, foram registrados 92 óbitos. Destes, 3 (3,3%) foram de mulheres com morte durante o parto, e 14 (15,3%), de crianças. Morreram no período neonatal 28 (30,5%) crianças (de causas variadas, mas, na maioria dos casos, de broncopneumonia). Se formos extrapolar esses números para um período de doze meses, seriam 36 mulheres e 168 crianças mortas no parto e 336 crianças mortas no período neonatal.

Penso, então: as parteiras faziam os partos, as casas das pessoas eram as “casas de parto” da época. Não havia, nesses casos, a presença de médico para auxiliar a mulher na hora do parto; os partos duravam 8, 10, 12 horas, num sofrimento interminável para a mulher e a criança.

Como a medicina se desenvolveu nesses quase cem anos que nos afastam de 1930, nos permitindo evitar mortes desnecessárias, não consigo entender por que esses médicos seriam desnecessários no momento mais importante da mulher, o parto, nos dias atuais. Acredito que as “casas de parto” sejam um retrocesso científico e social, com a desculpa de “humanizar” o parto. Na minha modesta opinião, sentir dor por dez horas seguidas é desumano.

Não sou obstetra nem pediatra. Sou ortopedista e cirurgião de mão, trato de pacientes com dor diariamente, e sempre lhes digo que sentir dor é algo muito ruim. Não consigo imaginar a dor de perder um filho ou uma filha, ou a esposa, na hora do parto, principalmente se houver a disponibilidade de um médico para evitar essa situação. Existem muitas maternidades públicas no Brasil, e nosso trabalho é cuidar pela saúde dos pacientes, como está no Juramento: “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.

 

* É médico do serviço de Ortopedia do Hospital Nossa Senhora do Rosário (Portugal) e membro titular das Sociedades Brasileira e Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia e de Cirurgia da Mão

 

    

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