Escrito por Ari Zekcer*

A consciência pela busca da qualidade de vida ocasionou, nas últimas décadas, uma transformação não só no comportamento das pessoas, como também nas tomadas de decisões de instituições e governos. Embora a medicina seja o campo científico imediatamente lembrado quando esse assunto é tratado, outras especialidades – a exemplo da engenharia, arquitetura, urbanismo e outros – passaram a abordar o tema com recorrência.

Como conseqüência natural, políticas públicas passaram a ser adotadas com a implementação de medidas de promoção da saúde e da prevenção de doenças. Nesse âmbito, uma movimentação que vem ganhando cada vez mais apoio e adeptos é o uso de bicicleta como meio de transporte. Um exemplo recente foi dado em 2004, quando o Ministério das Cidades lançou o “Programa Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta – Bicicleta Brasil”, com o objetivo de investir R$ 62 milhões na implantação de sistemas cicloviários no País.

Segundo a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), cerca de 4 milhões de pessoas utilizam a bicicleta como meio de transporte diariamente em todo o País. Grandes capitais, a exemplo do Rio de Janeiro e São Paulo, estabeleceram medidas como criação de bicicletários e acesso nos trens de metrô aos finais de semana para aumentar o número de cliclistas em trânsito.

Dados da Pesquisa Origem / Destino, realizada pela Cia. do Metropolitano de São Paulo (Metrô), indicam que só na capital paulista, o número de deslocamentos diários por bicicleta passou de 45.167, em 1987, para 130.431 em 2002. Um aumento de 188,77%, sendo que 139,89% ocorreram a partir de 1997. Apesar desses índices surpreendentes, os números indicam que ainda há margem para incremento no número de deslocamentos por bicicleta, uma vez que as viagens diárias por esse meio correspondem apenas a 0,6% do total.

Já em importantes cidades da Holanda, Dinamarca e Alemanha, por exemplo, as bicicletas hoje são responsáveis por 20 a 30 por cento de todas as viagens.

Os chamados “Desafios Intermodais”, nos quais voluntários se valem de diferentes meios de transporte para se deslocar entre dois pontos, passaram a ser aplicados no Brasil depois de mostrar uma interessante realidade na Europa.

A medida – que tem como objetivo verificar a eficiência dos meios de transporte sob diferentes aspectos – também apresentou dados interessantes em suas versões nacionais. Nos três levantamentos realizados até o momento – nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Santo André – a bicicleta foi o segundo meio mais rápido. Atingiu uma média de 20 km/h, ficou atrás apenas da motocicleta e bem à frente do carro que teve média de 14 km/h e conta com o agravante de ter despesas agregadas de combustível, manutenção e estacionamento, além de ser poluente.

Do ponto de vista médico, iniciativas que incentivem mais pessoas a usar a bicicleta são louváveis. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que 30 minutos de atividade física moderada, como caminhada ou ciclismo, contribuem para a redução do risco de males como doença coronária, diabetes, hipertensão, entre outros.

Comparado com a caminhada, os benefícios do ciclismo tendem a se mostrar mais efetivos devido à maior intensidade de esforço empregado. Para a modalidade são utilizados todos os músculos esqueléticos grandes do corpo em um padrão rítmico, com alternância de períodos de trabalho ativo e descanso.

Há o detalhe que, no ciclismo urbano, ocorrem períodos mais longos de descanso, determinado por fatores como paradas em semáforos, por exemplo. Esses períodos permitem a recuperação dos músculos, que terão de fazer níveis elevados da atividade durante o movimento. Estes fatores tornam a atividade altamente apropriada para fornecer o exercício aeróbico e para melhorar o desempenho em exames de aptidão física.

Diversas experiências de campo recentes foram realizadas para medir o reflexo do ciclismo na saúde. Um levantamento do Copenhagen City Hearth Study (CCHS) Group, envolvendo 13.375 mulheres e 17.265 homens com idade entre 20 e 93 anos, determinou que a prática do ciclismo tem uma função protetora significativa para a saúde.

O estudo conclui que o grupo de voluntários – depois de avaliados por quesitos como pressão sangüínea, colesterol, Índice de Massa Corpórea (IMC) e fatores de risco como fumo e outros – que não utilizavam a bicicleta como meio de transporte registrou uma taxa de mortalidade 39% superior ao dos que se valeram desse recurso.

Outro estudo – desta vez feito pelo Department of Environment, Transport and the Regions de Londres (U.K) – revela que caminhar ou ir de bicicleta ao trabalho incentivam uma parcela considerável da população economicamente ativa à prática de atividade física regular. Também há potencial para um aumento significativo do número de pessoas fisicamente ativas. Outro dado interessante é que 59% dos voluntários com sobrepeso ou obesos que participaram da pesquisa, perderam peso.

Esses e outros estudos sobre o assunto, disponíveis em documentos de entidades de credibilidade reconhecida como a OMS, comprovam que a bicicleta é um meio de transporte saudável, não-poluente e eficaz, sobretudo para viagens de curta distância. Vale considerar que, para aqueles que se animaram com a idéia de ter a bicicleta como meio de transporte ou atividade física, é necessário estabelecer uma programação de uso, a qual o trajeto aumenta gradativamente, já que músculos e articulações não podem ser submetidos abruptamente a um longo período de esforço sem o devido preparo.

O selim (banco da bicicleta) deve ser ajustado na altura do quadril do usuário. Dessa forma não há excesso de esforço dos músculos e das articulações dos joelhos. Equipamentos adequados como capacete, joelheiras e óculos são sempre recomendáveis. Também é necessário não esquecer do alongamento antes de sair às ruas em cima da bike que, aliás, deve estar com a manutenção em dia. Buscar rotas alternativas e vias sem muito movimento também são uma boa pedida para evitar a “competição” com os motos, carros e ônibus.

O artigo 201 da Lei 9.503/1997, que instituiu o Código de Trânsito Brasileiro, determina que o motorista deve guardar distância lateral de 1,5 metro ao passar ou ultrapassar uma bicicleta. O não cumprimento acarreta multa e 4 pontos contabilizados na carteira. Já o artigo 220 determina a redução da velocidade ao se aproximar de um ciclista. Além disso, o bom senso de ambos os lados vai sempre propiciar a convivência pacífica nas ruas.

É interessante como algumas pequenas revisões de conceitos podem contribuir para minimizar problemas que afligem a sociedade hoje. A convergência entre esporte, lazer e meio de transporte pode ser uma alternativa viável para males urbanos, de implicação física – estresse, sedentarismo – ou não – engarrafamentos, poluição – e para que tenhamos mais saúde e qualidade de vida em nossas cidades.


* É especialista em medicina desportiva e cirurgia de joelho pela EPM – UNIFESP, diretor da Zekcer Sports Medicine, coordenador da equipe de ortopedia do Hospital São Luiz (SP), membro efetivo de entidades como Sociedade Brasileira de Cirurgia de Joelho (SBCJ), Sociedade Paulista de Medicina Desportiva (SPAMDE) e International Society of Atrhroscopy, Knee Surgery and Orthopaedic Sports Medicine (ISAKOS).

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


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