Alberto Gorayeb de Carvalho Ferreira*

A instituição de ensino superior deve se lançar ao desafio de se adequar aos cenários de transformações éticas, sociais e educacionais da sua época, atentando para a participação efetiva e democrática de todos os envolvidos na construção do conhecimento. Nesse sentido, deve direcionar-se à produção, ao compartilhamento e ao uso de novas estratégias que correspondam às necessidades de quem aprende e de quem ensina em consonância com a evolução da ciência.

Sob uma ideia compartilhada que tem suas bases em expressivas instituições internacionais, como a Duke University (EUA), e nacionais, a exemplo da Universidade Federal do Ceará (UFC), o movimento acadêmico em Saúde e Espiritualidade se propulsiona no cenário da educação médica brasileira a partir de iniciativas discentes e componentes curriculares de curso, caracterizando-se, na maioria das vezes, como uma demanda trazida à tona pelo próprio alunado. Estes ciclos propõem a abordagem de uma essência humana contrária a qualquer forma de descontextualização sociocultural e psicológica da pessoa, valorizando seu processo dinâmico por busca de significados e propósitos de vida que refletem diretamente na sua condição de saúde.

Essas iniciativas estão respaldadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em medicina uma vez que trazem a integralidade e uma formação de base humanística e crítico-reflexiva como norte. Essa discussão ganha corpo ao se discutirem as proposições metodológicas concernentes ao tema, em outras palavras, de que forma a motivar o corpo discente e docente a tecer novas redes de conhecimento de forma inovadora. Esse fato chama atenção uma vez que, apesar do reconhecimento da necessidade de fundamentação prática e teórica nos saberes humanísticos para que a integralidade do cuidado seja efetiva, as humanidades são frequentemente desvalorizadas no corpo da medicina. Pontuam-se os inexpressivos subsídios teóricos, escassez de vivências que fomentem o incremento de habilidades e atitudes e a dessincronia acadêmico-assistencial.

Indicando uma transgressão de modelos, instituições “formadoras” são inclinadas a ampliar suas práticas pedagógicas, superando modelos antigos e abraçando o state of the art da educação médica mundial que demanda um estudante autônomo que, alicerçado em uma abordagem progressiva, torna-se apto a aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e, por fim, aprender a aprender. No dizer (nunca antes tão atual) de Paulo Freire, essa práxis pressupõe, ainda, o respeito e a inclusão da bagagem sociocultural do estudante.

No trato com a perspectiva educacional em saúde e espiritualidade, diversas instituições promotoras tem buscado se adequar aos ditos cenários de transformação. No Brasil, a Faculdade de Medicina de Marília (Famema) capitaneou tal movimento ao abrir espaço para um grupo de trabalho em saúde e espiritualidade que trazia a aprendizagem baseada em problemas (ABP) enquanto pressuposto pedagógico em que os alunos eram protagonistas até da construção dos casos clínicos a ser trabalhados nas discussões tutoriais. A atividade foi exemplo para outros ciclos, a exemplo de grupos atuantes na Universidade Anhanguera (Uniderp), em Campo Grande (MS), e da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), em Recife (PE). O intento se ampliou, e hoje as iniciativas incluem modernas propostas metodológicas ativas além da ABP como a problematização e treinamentos de habilidades como as técnicas de role-playing e do four competences instructional design (4C/ID).

A proposta de uma prática pedagógica inovadora é um ponto de partida para um desconhecido que desenha intensas possibilidades de transformação. Sobre transformação, acredita-se que a espiritualidade, quando trabalhada ao longo da formação universitária do médico – quiçá transversalmente – e atrelada a uma pedagogia educacional atual, seja capaz de favorecer uma visão do todo, da transdisciplinaridade e da interdependência entre os sujeitos da assistência, além de sustentar ao futuro profissional um olhar ampliado sobre si mesmo. Nesse sentido, uma ideia que se aloca em aprendizado contínuo nunca está pronta, ao contrário, está em permanente processo de transformação.

 

* Acadêmico do 6º ano de Medicina da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS) e membro colaborador do Grupo de Estudos em Saúde e Espiritualidade (GESESP) e coordenador geral do Departamento Acadêmico da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME Brasil)
Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1263577022384264
E-mail: gorayeb.alberto@gmail.com

     

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