Escrito por Carlos Ruchaud*

Um certo grupo de doenças genéticas vem atraindo, ultimamente, maior atenção da comunidade médica. São as Doenças de Depósito Lisossômico (DDL), raras, mas de grande impacto na vida dos pacientes afetados e de seus familiares. É que, antes consideradas incuráveis, várias dessas doenças começam a ter novas esperanças de tratamento.

As células do organismo estão constantemente em processo de renovação. Diariamente, milhares de células morrem e são prontamente substituídas pelas outras novas. O material (gorduras, açúcares, proteínas) que constitui as células mortas é reciclado, sendo “digerido” pelas substâncias chamadas enzimas, no interior de outras células. Se faltar alguma dessas enzimas, certas gorduras ou açúcares deixam de ser digeridos e vão se acumulando progressivamente no organismo, causando problemas em vários órgãos. Essas doenças, as DDLs, ocorrem quando o paciente herda de seus pais genes alterados (mutações) que fazem com que a enzima produzida não funcione direito.

Dezenas de DDLs já foram identificadas, cada uma afetando diferentes órgãos, e várias delas levam o nome de seus descobridores. Embora raras (estima-se haver apenas poucas centenas de pacientes de cada uma delas no Brasil), as DDLs vão comprometendo a saúde dos pacientes progressivamente e, até cerca de 10 anos atrás, não tinham nenhuma esperança de cura, podendo levar à invalidez ou até à morte.

Recentemente, o progresso da ciência começou a dar novas esperanças aos indivíduos afetados por essas doenças, através de um novo tratamento chamado Terapia de Reposição Enzimática. Trata-se da produção, através de processos de alta tecnologia de engenharia genética, da enzima que falta e que pode ser administrada ao indivíduo afetado pelas infusões (injeções na veia) periódicas, levando à melhora de muitos sintomas, podendo fazer com que a maioria dos pacientes possa voltar a ter uma vida próxima do normal.

A terapia de reposição enzimática já é uma realidade para a Doença de Gaucher há cerca de 10 anos e o sucesso no tratamento dessa doença levou ao desenvolvimento da mesma terapia para outras DDLs. O tratamento para outras duas, a Doença de Fabry e a Mucopolissacaridose do tipo I (MPS I), já foi aprovado este ano nos Estados Unidos e na Europa, e foi tema discutido, recentemente, pelos especialistas de todo o Brasil no Simpósio Centro-Oeste sobre Avanços em Genética, realizado no dia 26 de setembro de 2003, em Brasília. Além disso, a pesquisa continua, podendo vir a tornar disponível, nos próximos anos, o tratamento de outras DDLs, como as doenças de Niemann-Pick e de Pompe.

Nesse simpósio, três doenças foram o foco dos debates: Gaucher, Fabry e MPS I. A Doença de Gaucher é causada pela deficiência da enzima beta-glicosidase e caracteriza-se pelo acúmulo de um certo tipo de gordura no organismo, principalmente no fígado, no baço e nos ossos. O fígado e o baço do paciente aumentam muito de tamanho com o abdome podendo ficar enorme. Além disso, desenvolve anemia, com muita palidez e cansaço, e também passa a sangrar com facilidade. Vários pacientes também sofrem com dores nos ossos, que podem chegar a quebrar com o mínimo esforço.

Se não tratada, a doença de Gaucher costuma piorar ao longo da vida e, nos casos mais graves, pode levar à invalidez e até mesmo à morte. No Brasil, mais de 300 pacientes beneficiam-se atualmente da terapia de reposição enzimática para esta doença.

Na Doença de Fabry , a deficiência de outra enzima, a alfa-galactosidase, leva ao acúmulo de outro tipo de gordura nos vasos sangüíneos, o que pode levar o paciente à insuficiência renal, ao infarto do coração ou ao derrame precoce, em torno dos 30 a 40 anos de idade.

No início, os sintomas costumam passar despercebidos: na adolescência, vários pacientes sentem dores inexplicáveis nas extremidades ou podem apresentar pequenas lesões avermelhadas na pele (angioqueratomas).

Porém, esses sintomas também podem aparecer em outras doenças, mais comuns, e o diagnóstico muitas vezes não é suspeitado.

A MPS I, a terceira DDL para a qual já existe tratamento, começa a afetar os pacientes desde a infância, alterando progressivamente as feições da criança, limitando os movimentos das articulações e reduzindo a visão e a audição, entre outros sintomas. Os pacientes com MPS I sofrem com problemas respiratórios freqüentes e costumam ter distúrbios do sono.

Quando suspeitado pelo médico, a confirmação do diagnóstico dessas doenças é feita através de um exame de sangue, onde se pesquisa o funcionamento dessas enzimas, realizado apenas em alguns poucos centros especializados. Com o advento do tratamento específico, os médicos estão cada vez mais atentos a essas doenças, renovando as esperanças dos portadores das mesmas e de seus familiares.

* É diretor-médico da Genzyme do Brasil, em São Paulo.

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