Escrito por Marcial Carlos Ribeiro*
 
Preciso escrever. Sou um médico de 72 anos, formado em 1965. Exerci a minha profissão com honra e dignidade. Posso dizer que venci a travessia, embora em todo o tempo a navegação de ondas agitadas tenha sido difícil, espinhosa, com a sensação, por vezes, de que os vencedores seriam os outros. Hoje, estou envergonhado pelos caminhos que estamos sendo obrigados a trilhar, sujeitos ao descrédito de nossa população.
O que estão fazendo com nossa profissão não tem adjetivos. Procuram nos culpar por todos os desleixos de governos que deram pouca ou nenhuma atenção à saúde. Agora estamos em perigo, ainda mais se não conseguirmos dosar as nossas atitudes. Precisamos nos concentrar em nossos direitos para buscar de forma racional as soluções para reconquistar nossa dignidade e, principalmente, o respeito da população. Não será exercendo o direito de greve ou realizando protestos isolados que vamos readquirir a credibilidade pública. Sob os aspectos de legalidade, deixemos a palavra para os órgãos competentes, entre eles o Tribunal de Contas e o Ministério Público do Trabalho.
 
 
Não podemos aceitar que essas imposições sejam definitivas. Não será agora, com decretos presidenciais e com referendos dos parlamentares, que nos intimidarão a desistir de querer a nossa profissão como a enunciada por Hipócrates: em defesa do ser humano e nos constituindo como uma das mais nobres profissões.
 
 
Além disso, não será com agressões de qualquer natureza aos médicos de outros países que seremos respeitados e valorizados. Que culpa eles têm? Nenhuma! Se estão preparados ou não, e se estão sendo admitidos sem respeitar provas como o Revalida, não lhes cabe culpa. É imposição governamental. Nossas entidades representativas tentaram evitar essas discrepâncias, se faltou empenho, vamos exigi-los para atitudes que nos unam.
 
 
Dizer que não haveria falta de profissionais e que a saúde chegaria aos mais distintos rincões se lá houvesse estrutura para atendimento decente, com segurança, é uma afirmação de conhecimento nacional. Os médicos brasileiros não podem ficar imóveis e precisam propor soluções amplas e profundas, que vão muito além da falta de estrutura para o atendimento. Precisamos pensar urgentemente na criação efetiva da carreira de estado para a Medicina.
 
 
Ela pode seguir os mesmos moldes adotados para juízes e promotores. Médicos em início de carreira seriam encaminhados para regiões mais distantes e na medida em que forem evoluindo profissionalmente, se aproximariam dos centros maiores. Tenho certeza que os jovens médicos ficariam encantados com a possibilidade de promoção pelo mérito e pela experiência adquirida. Isso faria, também, com que eles buscassem constantemente o aprimoramento técnico.
 
 
Ou seja, não existiria outra possibilidade para o crescimento profissional que não seja a conquista do direito de exercemos a nossa vocação. Cabe a nós médicos o dever de escutar fielmente os pacientes, dando a eles o tempo necessário para nos induzir ao diagnóstico e prescrever os exames inerentes para cumprir o tal objetivo. Nós temos que respeitar as conquistas tecnológicas, utilizando elas para o bem do paciente. Nós prescrevemos medicamentos baseados em evidências científicas. Nós acompanhamos, também, os pacientes nas horas de tristeza, dificuldades e sofrimentos. Infelizmente, em alguns casos temos que conceder à família o atestado de óbito.
 
 
Sobre esses aspectos reais e fundamentais da medicina não vi muitos comentários nos últimos dias. Os médicos não podem ser substituídos, pois a medicina é uma vocação que não se impõe e que não se modifica por leis e medidas provisórias. Cumprindo o nosso papel social, somos insubstituíveis. Todo esse barulho precisa servir como um estímulo para que os médicos brasileiros exerçam a profissão com qualidade e determinação.
 
 
*É Instituidor da Fundação de Estudos das Doenças do Fígado, comendador da Ordem do Mérito Médico Nacional pela Presidência da República e diretor superintendente dos Hospitais São Vicente – FUNEF (Curitiba).
 
 

 

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