Escrito por Clóvis Francisco Constantino*

Em 18 de outubro comemora-se novamente o Dia do Médico. Diria melhor: comemora-se o Dia do Médico e também o Dia do Paciente. Afinal, é para este que o profissional de Medicina dedica-se em 18 de outubro e também nos outros 364 dias do ano, durante toda sua vida, dia e noite, desde que opta por esse mister que é assistir ao cidadão em suas necessidades de saúde.

Nada é fácil na Medicina. A começar pelo vestibular, o mais concorrido de todos. Depois, são seis anos de graduação, dois a cinco de residência médica e especialização, além de cursos de educação continuada e de capacitação contínua que se estendem para sempre. O médico jamais pára de estudar. Na Medicina o conhecimento dobra a cada três ou quatro anos.

Para mostrar a real dimensão do que isso significa, normalmente recorro a um exercício de raciocínio: digo que para bem servir aos semelhantes, o médico nem pode “se dar ao luxo” de contrair uma doença mais grave e ficar fora de atividade por muito tempo. É um fato! Se sofrer um coma e permanecer numa UTI por três ou quatro anos, quando sair, ele não será mais médico tal a velocidade com que se acumulam novos conhecimentos nessa área da Ciência.

Se fosse só isso, a vida do profissional de Medicina bem que seria simples. O problema é que a saúde no Brasil está bem longe de ser um direito de todos os cidadãos, conforme professa a Constituição Federal. A proliferação irresponsável de escolas médicas, sem critérios que satisfaçam as necessidades sociais, mostra que muita gente enxerga as questões da saúde apenas como negócio.

Em São Paulo, por exemplo, temos um médico para cada 600 pacientes, muito além da relação que a Organização Mundial de Saúde considera ideal: um para mil. Mesmo assim, diariamente, vemos empresários da Educação anunciando que abrirão novas escolas. Lamentável é que boa parte delas oferece ensino inadequado e coloca no mercado de trabalho profissionais com formação insuficiente.

Todos perdem com isso… Perde o médico que investe uma fortuna nos estudos e não recebe a capacitação desejada e necessária; por outro lado, o sistema fica saturado, o que reduz a remuneração; não há residência médica para todos os formandos; e o paciente corre o risco de encontrar pela frente alguém sem a qualificação esperada e que, muito ao contrário de assisti-lo em suas precisões, pode representar um risco à saúde. Enfim, só ganha aquele que criou o curso com o objetivo único de ganhar dinheiro. Afortunadamente, o movimento unificado das entidades médicas, a conscientização progressiva da sociedade como um todo, e um conseqüente início de percepção da autoridade pública responsável pelo setor, têm contribuído para reduzir essa escalada. Na saúde suplementar, a lógica é parecida. Muitos planos e seguros de saúde vêem o segmento puramente sob a ótica mercantil. Pressionam médicos a reduzir exames, internações e outros procedimentos importantes, como pré e pós-operatórios, para amealhar mais lucro. Não disponibilizam os avanços científicos para os tratamentos. Felizmente agora, quando médicos e sociedade exigem seus direitos, pelo singular e gigantesco movimento nacional que reivindica a implantação da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) na saúde suplementar, começam a ocorrer mudanças.

Digo sempre que médicos e pacientes são heróis. Eles enfrentam toda a sorte de problemas juntos e a força do bom relacionamento faz com que superem muitos desses obstáculos. A falta de uma política consistente de saúde pública, a destinação escassa de verbas para o sistema, o desrespeito à Lei que estabelece cota de investimentos para o SUS, só para citar alguns desvios, dão origem às mazelas sociais. São hospitais lotados e sem condições para um atendimento digno, postos de saúde sem a necessária equipe multidisciplinar e, às vezes, até sem médicos, sem equipamentos, remédios e assim por diante. Mas médicos e pacientes resistem. Resistem e normalmente vencem.

Os cidadãos brasileiros e nossos profissionais de Medicina são realmente bravos. E não apenas por enfrentar esse quase caos cotidianamente. Têm um mérito comum: em momento algum perdem a capacidade de luta. Afinal, ambos labutam em prol da vida. Aliás, a relação médico-paciente torna-se mais estreita e robusta a cada novo entrave, e isso certamente é fruto da afinidade que os une. Os médicos também são pacientes. E os pacientes acompanham no dia-a-dia quantas são as dificuldades que pontuam o exercício da Medicina.

Em virtude do 18 de outubro que se aproxima, dia de São Lucas, quero saudar publicamente nossos 300 mil médicos do Brasil, os 90.000 de São Paulo e os milhões de pacientes. Recente propaganda é sábia ao registrar que o melhor do Brasil é o brasileiro. Você e seus pacientes são os melhores exemplos de que esse conceito é realmente verdadeiro.

 

* É vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) e presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).


 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail imprensa@portalmedico.org.br, acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.


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