Escrito por Donizetti Dimer Giamberardino Filho*

A confiança entre médico e paciente é o remédio para alcançar o corpo e a alma.

O Sistema Único de Saúde – o SUS – é um direito social conquistado pelos brasileiros e está completando 27 anos. A avaliação de seus resultados, porém, é crítica e denota intensa insatisfação por parte da população e da imprensa. Não estão em discussão os princípios do SUS, adequados e pertinentes a uma nação que se reconhece como Estado Democrático de Direito, mas sim a sua implantação, nunca efetivada de fato pelos gestores no que tange a seu financiamento e estrutura organizacional em cotejo com as necessidades do povo. Permeando a tudo, quando se fala em saúde dos cidadãos, está a se falar de pessoas, de relações interpessoais e relações de confiança e solidariedade.

Poder-se-ia falar na desconstrução tão bem debatida pelo filósofo Jacques Derrida, a qual indica uma postura e uma atitude de compreensão da vida marcada pela hospitalidade e humanidade – algo fundamental nesta era de fluidez da comunicação e das informações. Nessa linha, é dever de todos, em especial dos meios de comunicação, ter apurado cuidado com a maneira pela qual circulam as informações e relatos de fatos, algo ainda mais delicado em um país marcado pela impunidade. De um lado, devemos evitar cortinas de fumaça e combater a corrupção, como outros crimes, mas, por outro, é um equívoco balizar o julgamento de toda uma classe profissional a partir de uma minoria, tomando a exceção como regra.

É em sentido destrutivo, portanto, diferentemente de Derrida, que a desconstrução da imagem do médico vem sendo um projeto posto à prova desde o século passado. Parece indiscutível a importância das equipes multiprofissionais atuarem em harmonia, bem como parece inconcebível imaginar um SUS sem médicos. A estratégia é equivocada e conduz a caminhos indesejados, dentre os quais a ressignificação da relação médico e paciente como uma relação de consumo comum, substituindo-se de modo imediatista a responsabilidade pessoal do autocuidado pela mera busca de tratamento de sintomas.

O Conselho Federal de Medicina, como órgão de classe e autarquia federal, tem como atribuições a fiscalização, supervisão e julgamento do exercício da medicina no país, visando, acima de tudo, a proteção da sociedade. Trata-se de tarefa árdua, na medida em que o exercício da medicina não se restringe a um ato técnico de conhecimento, mas adentra às dimensões da comunicação verbal e não verbal entre seres humanos em interação, onde as posturas e atitudes representam muito mais do que a tecnologia pode oferecer.

Nesse sentido, a confiança entre médico e paciente sempre foi e será o remédio mais vigoroso e capaz de atingir o corpo e a alma. Substituí-la pela desconfiança e pela suspeita interessam a uma gestão pelo caos. É preciso cautela, portanto, para não se dramatizar crimes cometidos por uns poucos em detrimento da história milenar da medicina ocidental. O exercício da medicina deve sim ser protegido pela punição do malfeito, mas deve também ser protegido no que tem de mais humano e essencial: seu núcleo preenchido pela alteridade e pela subjetividade construída a partir do reconhecimento do outro.

 

* É conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado do Paraná (CRM-PR) e representante do Paraná no Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

     

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