Escrito por Clóvis Francisco Constantino*

“A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver” Paul Klee, pintor suíço.

Fazer o possível para manter-se atualizado é atitude de motivação íntima. É a forma de estar, diuturnamente, inserido em todo o contexto da sociedade, da vida de relação. Quando se trata de atividade profissional, em que há a responsabilidade envolvida, o aprimoramento passa a ser dever ético, um imperativo categórico, uma postura de respeito ao próximo. No caso da Medicina, então, é vital esse cuidado, pois da capacitação contínua tiramos o conhecimento necessário para assistir adequadamente e com qualidade os pacientes.

Sabemos que 65% dos médicos brasileiros têm mais de três empregos no seu cotidiano e são claras as dificuldades para estudar, debater, ler. Porém, não há outra alternativa. A despeito da rotina massacrante, o profissional de Medicina deve encontrar tempo para a reciclagem, visto que o conhecimento científico dobra a cada três ou quatro anos. Numa circunstância dessa, quem não se dedica ao aprendizado permanente fica completamente defasado, o que pode significar uma carreira perigosa e um atendimento inadequado – ou pelo menos não tão adequado quanto poderia ser – ao paciente.

A Medicina deixou o empirismo e absorveu as técnicas científicas em suas ações diagnósticas, terapêuticas, preventivas, reabilitadoras e em pesquisa. Portanto, não é mais possível prescindir de tal preocupação. Os médicos e aqueles que querem ser médicos têm que saber disso. É pré-requisito de consciência para assumir a profissão. Está contida na vocação do “latim vocare”, ou, traduzindo, chamar. Vocação é, assim, um constante chamamento da alma à responsabilidade.

Em 2006, entrará em prática resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) para atualização do título de especialista. Trata-se de uma grande contribuição dos médicos para sua própria capacitação contínua e para a consciência humanitária da assistência médica no Brasil. Todos os especialistas da Medicina, sejam pediatras, ginecologistas, cardiologistas e por aí afora, irão demonstrar, a cada cinco anos, que estão atualizados, que absorveram as novas descobertas e conhecimentos de sua área.

Essa resolução, exaustivamente debatida pelo CFM, Associação Médica Brasileira e o conjunto das sociedades de especialidades, muda a perspectiva da saúde em nosso País. Os médicos estarão cada vez mais preparados, o que é de extrema relevância para o alvo mais importante do sistema: o paciente.

Claro que necessitamos de outras ações para garantir o máximo de eficiência à atualização dos títulos. As sociedades de especialidades terão de se envolver profundamente nesse processo. Aliás, já estão se envolvendo. E o governo, por sua vez, precisa propiciar condições objetivas para que o médico possa se dedicar à reciclagem. Isso pode acontecer por meio de incentivos ou pela melhoria dos honorários tanto na rede pública quanto privada.

Temos ainda de fazer imediatamente outras discussões diretamente ligadas à qualidade da formação. Na atualidade, a robotização de ações, o automatismo, o pragmatismo da maioria das escolas médicas brasileiras contribuem para a pouca motivação de os estudantes e médicos brasileiros estudarem. Nietzsche afirmava que a principal tarefa da educação é “ensinar a ver”, portanto, ensinar a aprender. Não creio que nossas escolas (em quaisquer níveis) mantenham esse cuidado; simplesmente executam em suas grades algo de básico e preparam os alunos para responder questões de provas. Isso é importante? Sim, mas não suficiente nem fundamental.

O grande educador Rubem Alves diz que não se deve, apenas, estimular o hábito da leitura. Deve-se investir no amor à mesma, no gostar de aprender, no prazer do saber – o que amplia nossa capacidade de sonhar e, conseqüentemente, lapida nossa competência para agir e lidar com o outro.

Nossas escolas de Medicina e também os Programas de Residências Médicas precisam mostrar a seus alunos e residentes que é prazeroso estudar. Faz-se necessário que ensinem a estudar… E para tal objetivo quantas atitudes precisam ser revistas!

O importante, neste momento, é que essa consciência adquira mais força. Todos os que, de alguma forma, lidam com atividades voltadas à promoção da saúde têm de colaborar. Desarmemos, então, nossos espíritos combalidos pelo excesso de trabalho, verifiquemos o que se propõe, verdadeiramente. Evoluamos todos, pois é para isso que existimos.

* É vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

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