Escrito por José Hiran da Silva Gallo*

O Instituto Nacional do Câncer (INCA), com sede na Praça Cruz Vermelha, no Rio de Janeiro, é referência nacional para o tratamento do câncer no Brasil. Recentemente, em episódio que chamou a atenção da mídia nacional, todos os seus diretores pediram demissão dos respectivos cargos sob a alegação de que o funcionamento do hospital estava sendo prejudicado em decorrência da indicação de pessoas não qualificadas para administrá-lo. Foi divulgado que a nomeação da esposa de um vereador carioca para a Diretoria Administrativa do INCA, aliada ao seu despreparo para a função, foram as causas de um desabastecimento na instituição, fato que comprometeu gravemente o atendimento dos pacientes.

Na mesma seqüência de episódios semelhantes, deu-se a crise da Anvisa, com a demissão de vários técnicos do setor de medicamentos, ocasionada por ingerência externa de cunho político na administração da agência.

Acontecimentos dessa natureza devem servir de alerta tanto ao povo como a administradores públicos que nomeiam parentes e amigos para cargos na área da saúde ou fazem loteamento partidário.

A população acaba, como sempre, sendo a principal vítima da incompetência de pessoas desqualificadas para ocupar essas funções. Sob o argumento de que José Serra fez excelente gestão no Ministério da Saúde, mesmo não sendo médico, cargos de secretários de Saúde vêm sendo ocupados por pessoas sem qualquer preparo e/ou predicados necessários para gerenciar esse setor, considerado essencial para o bem-estar da comunidade.

Não se pode esquecer que Serra, doutor em Economia, foi assessorado por um batalhão de planejadores, técnicos treinados e profissionais competentes que davam – e ainda dão – sustentação para o funcionamento e definição das diretrizes daquele ministério. A nomeação para os cargos de gerenciamento da Saúde requer, fundamentalmente, observação de critérios técnicos. Exercendo a profissão médica há quase três décadas, tenho visto com preocupação a ascensão de despreparados para essas importantes funções e as conseqüências danosas daí advindas.

Sou da opinião de que desviar dinheiro da Saúde para os ralos da corrupção deveria ser considerado crime hediondo. Sabe-se lá quantos brasileiros já morreram em prontos – socorros imundos e em hospitais desaparelhados porque os recursos foram desviados para bolsos gananciosos e desonestos, ou pela incúria de despreparados (por mais bem intencionados possam ser). O tempo passa e a Saúde continua mal: sem planejamento, sem rumo e sem soluções. Até quando?…

A compensação para a inoperância vem sob a forma de mutirões de cirurgias que nada mais são do que produtos de marketing, factóides criados para dar respostas temporárias às pressões da mídia e da Justiça. Ações sem continuidade. É a velha e parva tentativa de tapar o sol com a peneira.

A coletividade paga um preço bastante alto pelas indicações que atendem a interesses parentais e politiqueiros na área da saúde. À destinação dos recursos provenientes do Sistema Único de Saúde cabe o máximo de zelo e racionalidade, o que – definitivamente – requer um mínimo de instrução e preparo da parte dos administradores.

As políticas de saúde exigem ações permanentes, continuadas, fiscalizadas e não um vai e vem ou sobe e desce de acordo com o humor e/ou caprichos do secretário de Saúde de plantão, que é parente ou protegido de seu fulano ou filiado ao partido da vez. Ao que parece, as indicações para os cargos da Saúde continuarão à mercê do capricho de políticos inescrupulosos, cujos critérios de escolha são os mais tendenciosos que se conhece. Um fio de esperança fica por conta da atuação dos Conselhos de Saúde, cujos representantes têm a legitimidade suficiente e necessária para impor limites e exigir responsabilidades nas instâncias da Saúde que, em muitos locais, mais parecem torres de Babel, cabides de emprego para oportunistas e apaniguados ignorantes.

* É conselheiro federal representante do estado de Rondônia.

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