Escrito por Ronaldo de Souza Costa*

O senhor José da Silva procura o posto de saúde, quer se consultar. Logo chegando é informado de que deve apresentar a identificação para fazer a ficha e aguardar o atendimento. Tem sessenta e seis anos, não tem emprego fixo e não conseguiu completar o tempo para contribuição que lhe asseguraria o direito à aposentadoria desde que veio da zona rural. Aguarda sentado no banco de cimento e sem encosto o atendimento. Pelo menos outros vinte pacientes estão á sua frente, além das urgências que são prioridade.

Depois de duas horas é chamado, às 15:30h, uma, duas, e só na terceira vez, como que assustado levanta e se dirige ao consultório. Ao entrar no consultório é perguntado pelo médico:

– o que o Sr. está sentindo? e o Sr. José responde:

– olha doutor, sinto uma dor no estômago, tontura na cabeça e fraqueza que piora quando ando. Acho que é labirintite, pois a vizinha sentia as mesmas coisas e o médico passou remédio para labirintite.

O médico pede que se levante e deite na maca para o exame: a pele está ressecada, a língua lisa, ausência de dentes e péssimo estado de conservação dos outros, palidez acentuada nas unhas e mucosas. Pergunta ao paciente: o que o senhor comeu hoje? o senhor toma bastante água?

O Senhor José responde: quando dá a gente come. Hoje eu comi um pão com café. E concluído o exame, foi feito o diagnóstico sindrômico: privação de alimentos e de água tratada, desemprego.

A unidade funcional do ser humano, não permite a fragmentação do conhecimento que se tem do mesmo. A medicina respeita como ninguém este fundamento.

Se bem nos lembramos, a história da saúde pública no nosso país foi protagonizada pelos profissionais médicos, que abnegaram a indelicadeza e a intransigência do “não” que hoje recebem das profissões que estimularam técnica, cientifica e encaminharam politicamente em suas regulamentações.

Foram médicos também os protagonistas da reforma sanitária, que tiveram a coragem de enxergar o caráter egocêntrico equivocado da medicina praticada anteriormente, o que possibilitou, pelo menos legalmente, a formação das equipes multidisciplinares na assistência à saúde.

São os médicos que estão despertando do sono e do sonho liberal, e se posicionando frente às empresas de seguro saúde privadas, exploradoras até então do imobilismo dos profissionais, do imputado sacerdócio ultrajante e desrespeitoso a que fomos submetidos, e da carência de serviços e desinformação da população.

É a medicina ciência histórica, milenar, fundamentada filosófica e cientificamente, e nada mais natural, que, numa democracia, as forças sociais e instituições se mobilizem e defendam interesses.

O médico se mobiliza porque tem seu trabalho exigido e reconhecido pela sociedade, que quando sai de casa diz que “vai ao médico” e como conseqüência do seu trabalho, do seu ato, em condições na maior parte das vezes desfavoráveis, desde a ausência dos “queixosos contra o ato médico”, até a falta de material e de estrutura física e organizacional, incapacidade gerencial de gestores que não são médicos, se vê atingido pelo descontentamento e desorganização das filas, pela gravidade não averiguada adequadamente de cada caso, pois o médico não participa da gestão, logo não decide. Mas se o pior ocorre, o paciente agrava ou vai ao óbito, quem responde? claro, é o médico que vai ser processado.

Se a cada um de nós é assegurado o livre arbítrio de escolher o que desejamos exercer, definimos aí mesmo a limitação do campo de ação. À medicina, além do tempo destinado à competição acirrada do processo seletivo no vestibular, ainda somam-se seis anos de graduação, e agora não menos que três de pós-graduação. É facultado a todos os que querem exercer o Ato Médico, o direito de fazer medicina. Falta de propósitos e de ação é “apenas dizer não”, o que não é um ato profissional, mas sim um ato meramente reacionário, livre de propostas.

E voltando ao Sr. José da Silva, embora o município onde mora tenha gestão plena com o SUS, e tivesse realizado concursos sucessivos para odontológos, nutricionistas, fisioterapeutas, assistentes sociais, no posto só havia médicos, um enfermeiro e farmacêutico. O concurso realizado pela prefeitura caducou, e os outros profissionais não médicos aprovados não foram chamados. Nem os sindicatos, nem os conselhos das outras profissões clamaram por justiça, defendendo a presença da equipe multidisciplinar nas unidades de saúde. Parece que estavam em uma manifestação “contra o Ato Médico”.

O Sr. José da Silva tinha fome e sede, era senil e desempregado, desconhecia seus direitos sociais e no posto não havia assistente social. Quando vinha ao posto procurar dentista, em casos de urgência lhe extraíam os dentes, pois não conseguiu agendamento para recuperar sua dentição e fazer prevenção de cáries. Também não havia nutricionistas psicólogos ou fisioterapeutas, e todo aquele quadro de desnutrição somado à uma auto-estima baixíssima, desenhava o biotipo da atrofia muscular, da fraqueza física e mental que aquele senhor sentia. E ainda, faltavam mais médicos, pois os poucos que havia, se revezando em turnos desgastantes, eram os poucos profissionais que tinham contato com os pacientes através do exame físico, que conversavam com os pacientes através da anamnese, onde os mesmos relatavam suas histórias, suas queixas.

São os médicos que fazem no breve período de consulta uma evolução documentada, que prescrevem e que assinam, que praticam um “ato formal”, carimbado e assinado, exposto ao julgo da justiça, e hoje, exposto também às críticas das outras profissões, que não conseguem se unir e exigir aquilo pelo qual todos lutamos para conseguir: o sistema único de saúde com a equipe multidisciplinar; que componha com os preceitos da saúde no seu conceito maior e assine com igual responsabilidade no mesmo prontuário, e não apenas se manifeste pela mesquinhez dos interesses de cargos oferecidos por aqueles que não conhecem e não constroem a saúde pública.

* É médico.

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