Escrito por Florentino Cardoso* e José Luiz Bonamigo**
 
No Brasil de mais de 190 milhões de habitantes (censo IBGE, 2010), quase 161 milhões moram em áreas urbanas e cerca de 20,5 milhões tem mais de 60 anos. Dos 110,5 milhões com 25 ou mais anos, 54,4 (quase 50%) são analfabetos ou tem ensino fundamental incompleto e somente 12,4 (cerca de 11%) milhões tem ensino superior completo. Entre as pessoas de 15 a 24 anos (34,2milhões), 10,5 milhões são analfabetos ou com incompleto ensino fundamental. A população brasileira envelhece rapidamente. Teremos cada vez mais doenças crônicas não transmissíveis – hipertensão, diabetes, câncer etc.
 
Temos um sistema público de saúde, SUS, do qual perto de 150 milhões de pessoas dependem exclusivamente. O SUS é bem concebido, mas passa por sérias crises, especialmente pela dificuldade de acesso e falta de qualidade em muitos desses acessos. Existem ilhas de excelência, mas constituem minoria. A grande maioria dos pacientes que dependem do SUS peregrina em longas filas de espera para consultas, exames e cirurgias. O SUS remunera mal quase todos os procedimentos.
 
Há uma falácia que a culpa desse descalabro seria a falta de médicos. Escamoteiam a verdade, tentando proteger-se da incompetência. Querem confundir quantidade com qualidade. Precisamos verdadeiramente é de médicos bem formados, o que infelizmente não tem sido a prioridade. Abrem-se escolas de medicina no Brasil sem adequados critérios e o pior, a grande maioria privadas. Hoje são 197 escolas médicas (114 privadas ou 57,87%), 36 estão em SP (3.081 vagas das 17.072 no total). Desde o ano 2000 foram criadas 92 novas escolas médicas, 66 (71,74%) privadas.
 
A Índia com mais de 1,2 bilhão de habitantes, tem 272 escolas médicas, os Estados Unidos com cerca de 318 milhões de habitantes, tem 130 escolas médicas. A China com 1,4 bilhão de habitantes tem 150 escolas de medicina.
 
Estimamos em cerca de 380 mil médicos no Brasil, em torno de 110.000 alunos atualmente estudando medicina no Brasil e quase 20 mil estudantes no primeiro ano da faculdade. Existem cidades no Brasil com mais de 4 médicos por 1.000 habitantes (O Reino Unido tem 2,3 médicos por 1.000 habitantes, França 3,15, Alemanha 3,37 e Cuba 5,90). Quantidade não significa qualidade. Como é a saúde pública no Brasil?
 
Medicina é uma ciência que evolui muito rapidamente e cuida do nosso bem maior – a saúde. Precisamos de médicos bem formados na graduação (6 anos em tempo integral), assim como para a assistência aos pacientes, que esses tenham residência médica (são mais 2 a 6 anos) e que tenham ensino médico continuado, para que estejam sempre atualizados.
 
Defendemos uma só medicina para todos. Queremos médicos em quantidade suficiente e com qualidade. Fala-se em escancarar as fronteiras do Brasil para admitir médicos formados no exterior (especialmente de Cuba e Bolívia), sem que sejam avaliadas suas competências. Temos escolas médicas no Brasil funcionando sem as adequadas condições (púbicas e privadas) e querem abrir ainda outras mais. Quem esses profissionais atenderão? Onde?
 
O Brasil está aberto para receber médicos formados em qualquer lugar, mas que obrigatoriamente tenham avaliados seus conhecimentos, atitudes e competências. Nesse momento temos o REVALIDA, mas mesmo assim, escolas públicas de medicina no Brasil têm revalidado diplomas de médicos formados fora do Brasil, utilizando critérios inadequados, colocando em risco a saúde do nosso povo bom e querido.
 
O Brasil precisa ter verdadeiras e adequadas políticas de estado, para enfrentar as graves crises da saúde e não eventuais políticas de governo ou lançamento de planos midiáticos, muitos dos quais sem qualquer planejamento ou adequados controles e avaliações. A atenção básica precisa ser valorizada é com boas condições de trabalho, profissionais competentes e carreira de estado sólida.
 
Sabemos que a saúde pública brasileira é subfinanciada e que os recursos podem ser melhor utilizados através de acesso rápido e de qualidade. No Brasil o acesso dos pacientes aos serviços de saúde é demorado (muitos complicam pela espera) e falta qualidade no atendimento (médicos mal formados não são precisos no diagnóstico e tratamento). Permanecer nesse ciclo vicioso não interessa a ninguém, mas teimam em continuar. Se o paciente complica ou se tem seu diagnóstico retardado e tratamento inadequado o sistema de saúde torna-se ainda mais oneroso.
 
Precisamos mudar esse cenário e buscar o que é melhor para todos. A saúde é nosso bem mais valioso e o povo brasileiro merece respeito.
 
 
florentino cardoso * É cirurgião oncológico, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB).
** É clínico e hematologista, tesoureiro da AMB.Jose Luiz Bonamigo

 
 
 

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