Escrito por Roberto Luiz d’Avila*

Neste outubro, quando se comemora o Dia do Médico (18), volto meus olhos para o futuro. Do passado levo comigo as lições hipocráticas recebidas dos inúmeros mestres que ajudaram a moldar minha trajetória.  Não renego os percalços e dificuldades. Aprendi com eles. Afinal, somos todos feitos assim: dessa equação ilógica que soma tempestades às calmarias, multiplica sonhos bons em detrimento dos ruins, eleva à enésima potência nossos projetos concretizados com suor.

A Medicina é uma paixão, é entrega. Surge como vocação orientada pela solidariedade e pelo compromisso com a equidade, a justiça e a ética. Nestes tempos sombrios, de um século que dá seus primeiros passos, cabe aos médicos arrebatados por esse ofício exercê-lo sem se curvar às pressões e à indiferença. O desafio é defender a fé naquilo que nos move: a busca do diagnóstico, a oferta do tratamento e a promessa de consolo a quem está fragilizado pela doença.

Em tempos de crise, devemos ser médicos. Não somos mercadores da saúde, garotos propaganda ou vassalos de quem quer que seja. Somos homens e mulheres preparados para salvar vidas. Não se comportar à altura de tão importante missão significa pactuar com a mediocridade de interesses outros, que se postam quilômetros distante de onde estamos.

Acompanhamos atentamente – e com preocupação – o comportamento errático de setores diretamente ligados ao trabalho médico. O momento é de tensão. Gestores públicos anunciam medidas sem se preocupar com consequências para a qualidade da Medicina praticada no país. Ignoram as necessidades de pacientes e profissionais. O lucro político fala mais alto que a responsabilidade técnica e ética.

Na saúde suplementar, as operadoras de planos de saúde querem ganhar mais e mais, sem cumprir as promessas feitas aos 48 milhões de clientes do sistema suplementar e nem valorizar os quase 200 mil médicos que lhes prestam serviços, sem os quais não existiriam.  Eles deturparam seu papel e se transformaram o bem estar em produto à venda. O pior é que nem são comerciantes confiáveis, daqueles a quem estendemos as mãos de olhos fechados. Para eles, a vida é menos importante que percentuais e taxas de risco.

Colegas, neste outubro, vamos mirar no que nos espera. Somos muitos e contamos com o respeito e a credibilidade da sociedade. A população espera  reação da categoria diante dessas pressões, pois sabe que nossa luta implica em melhores condições de assistência onde quer que seja. O brasileiro, atendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou dono de uma carteirinha de convênio, sabe que o esforço dos médicos para mudar realidade trará, finalmente, o atendimento que espera.

As bandeiras devem ser manter no alto. Nada de esmorecer. Continuaremos a exigir um ensino médico de qualidade, o aumento dos investimentos públicos em saúde, a melhora das condições de trabalho, a criação de uma carreira do médico no SUS, um basta aos abusos praticados por planos de saúde e a valorização da Medicina, como atividade profissional. Uniremos nossas vozes em um grito único, forte, poderoso, capaz de mover montanhas. O futuro nos chama. É para lá que devemos ir. Os médicos – estou convicto disso – estão prontos para mais essa batalha em defesa da Medicina, da sociedade e do paciente.

 

*Presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM).

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