Escrito por José Eduardo Carvalho Teixeira*

 

Não raro, ouço nos corredores de minha faculdade a expressão: “ele é doutorado em tal lugar” ou ainda “ele tem mestrado, doutorado e pós doutorado em determinada área da medicina”. Depois de algum tempo como acadêmico de medicina e indubitavelmente interessado em ingressar no professorado, escrever uma breve reflexão sobre os acontecimentos recentes nas escolas médicas brasileiras é um tanto quanto conveniente, pois me vejo na voz de muitos estudantes. Não existe sequer um resquício de conflitos de interesses nesse pequeno fragmento textual, muito pelo contrário, sou um inexorável adepto e aspirante do aperfeiçoamento científico e do stricto sensu.

O turbilhão de mudanças políticas que aqui jaz fez com que uma nova ordem de avaliação da competência das escolas de ensino superior fosse estabelecida. Depois de 1995 o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) passou a desenvolver condutas avaliativas de caráter estatístico para clarificar a ação do Ministério da Educação, guiando-o a tomar as melhores decisões possíveis. Em 1997 esse órgão foi transformado em uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Educação (MEC) pela Lei 9.948, dando-lhe em seu Artigo 1º todo esse poder de ajuizamento das instituições de ensino. Acelerando um pouquinho a história chegamos à instituição do Conceito Preliminar de Curso (CPC), emitido pelas supracitadas instituições governamentais, e constituindo um dos parâmetros de avaliação das Universidades Federais e privadas. O CPC tem como uma de suas variáveis a avaliação do corpo docente através da consulta de titulação, regime de trabalho e tempo de dedicação.

Ora, existem outras variáveis que incidem sobre o valor final da nota. Porém, o impacto do CPC que verifica o corpo docente é algo insidioso. Obviamente, infraestrutura, tempo de atividade empírica e material disponível são expoentes de uma boa faculdade. Todavia, não se pode avaliar um docente pela sua titulação sem que haja uma visão geral da aula dada no cotidiano na instituição, o que, em minha opinião, é o fator mais importante dentre todas as variáveis e constantes existentes nessa grande equação matemática. A metodologia adotada em sala de aula é, em parte, um produto da capacitação do professor, mas de nada adianta quando lhe falta o prazer em ensinar. O processo educacional vai muito além de um power point ou uma aula verbalizada.

Vejo aí uma nova expressão aplicada ao atual contexto brasileiro: “doutorização” das faculdades, não só de medicina, mas também das outras áreas, afinal quem não quer uma notinha mais alta para colocar na propaganda da instituição?! Isso, em longo prazo, pode sucatear o ensino da graduação visto que muitas criaturas irão ingressar no professorado da graduação sem a menor aptidão para ensinar. Nesse sentido a regra é clara: um doutorado na proteína CYABCDEF uma cadeira para dar aula de anatomia, e todo um status quo a ser protelado.

Caminhar nos meandros da medicina me fez crer que o melhor professor não é aquele com o maior título, mas sim o que mais sente prazer em pisar na sala de aula, e isso, caro amigo, não há doutorado que ensine. Não raro deparo-me com professores que “vestem” o amor pelo ensino “básico” e sustentam uma coleção de títulos acadêmicos, e isso é extremamente prazeroso. Mas o que me leva a escrever toda essa crítica é a apreciação que cultivo pelos professores que não apresentam todos os títulos do mundo, mas sim o carinho por ensinar e aprender que reflete não só na qualidade da aula ministrada, como também nos ensinamentos que esses nos repassam, que vão muito além das “quatro paredes” do consultório.

* É aluno do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora (MG).

 
    

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