Brasil deve manter proibição a cigarros eletrônicos, defende pesquisador norte-americano Imprimir
Seg, 02 de Dezembro de 2019 12:45

Pesquisador norte-americano, Stanton GlantzUm dos principais ativistas do controle do tabaco no mundo, o professor Stanton Glantz, esteve no Brasil para participar do Fórum sobre Tabagismo, promovido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Na oportunidade, o pesquisador e diretor do Centro de Pesquisa e Educação sobre Controle do Tabaco da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, defendeu que o Brasil mantenha proibida a comercialização, a importação e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), a fim de manter os avanços do País no combate ao tabagismo.

Em entrevista ao Portal Médico, Glantz declarou que o Brasil é uma referência mundial no combate ao tabaco e enfatizou que os cigarros eletrônicos são provavelmente tão perigosos quanto os cigarros tradicionais. “Não há benefícios para a saúde ao mudar do cigarro tradicional para o cigarro eletrônico e a maioria das pessoas que pararam de fumar através dos cigarros eletrônicos continua a usar os cigarros eletrônicos por mais tempo”, alertou.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Como o senhor avalia o desempenho das políticas públicas do Brasil no combate ao tabagismo?

O Brasil é um líder mundial no combate ao tabagismo. Vocês têm nas caixas de cigarro aquelas imagens chocantes; já proibiram os produtos de tabaco aquecido no Brasil e também os cigarros eletrônicos; e possuem regulações muito fortes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que tem conseguido manter proibida a comercialização de aditivos, por exemplo. No Brasil, o número de fumantes caiu para 9,3% da população ao longo dos últimos anos, o que é muito baixo, e essa taxa vem caindo a cada ano. Então eu acredito que, de fato, o Brasil é um modelo para o mundo. 

 O que é preciso fazer para continuar avançando?

Primeiro, é preciso manter as políticas atuais, principalmente não permitindo que os cigarros eletrônicos e os produtos de tabaco aquecido entrem no País. Também é preciso banir os produtos com sabores e todos os aditivos. É preciso ainda aumentar a carga tributária sobre esses produtos, pois as empresas de tabaco estão lutando fortemente contra algumas legislações internacionais e vocês têm que manter. Mais campanhas educacionais contra o tabaco, principalmente na internet e nas mídias sociais, também vão ajudar bastante.

O cigarro eletrônico e o narguilé são efetivamente novas alternativas encontradas pela indústria para manter o seu público consumidor? Eles são seguros, como a indústria tem propagado?

Os cigarros eletrônicos são provavelmente tão perigosos quanto os cigarros tradicionais. Eles têm um perfil de risco diferente devido à forma como o aerossol entrega ou administra a nicotina nos usuários, mas todas as indicações dizem que paradas cardíacas, infartos do miocárdio, problemas pulmonares são até mais perigosos que os causados pelo cigarro tradicional. Não temos maiores detalhes sobre o câncer, mas há estudos que sugerem que os cigarros eletrônicos também causam mudança nos genes. Então, está errado o argumento usado pelos defensores dos cigarros eletrônicos, de que eles são radicalmente mais seguros do que os cigarros tradicionais. Ao tragar aerossol, partículas finas, nicotina e outros químicos, o corpo dos usuários é impactado. Além disso, o fumante ainda polui o ar com as partículas finas e o aerossol.

A indústria do tabaco afirma que esses dispositivos são 95% menos nocivos à saúde do usuário. Isso é verdade?

Esse é um número inventado. A origem dessa alegação foi uma reunião que aconteceu na Inglaterra há alguns anos, com muitas pessoas que tinham conexões financeiras com as indústrias do tabaco. Se você ler o trabalho de onde tiraram esse número verá que ele não cita nenhuma evidência, nenhuma prova. As pessoas simplesmente inventaram um número, do nada. Desde então, muitas pesquisas sobre os cigarros eletrônicos foram publicadas. Em relação às doenças cardíacas e pulmonares, por exemplo, eles são quase tão perigosos quanto os cigarros normais e também podem ter impacto no câncer. O aerossol tem péssimos efeitos, quando os agentes saborizadores são aquecidos os pulmões e os vasos sanguíneos são prejudicados. Então, a alegação de que os cigarros eletrônicos são 95% mais seguros que o cigarro tradicional nunca foi baseada em evidências científicas. As evidências disponíveis mostram que eles são, de fato, muito perigosos.

Há substâncias tóxicas nesses produtos que podem causar danos ao organismo? O que já sabemos sobre riscos de câncer, asma, doença pulmonar crônica obstrutiva (DPCO) e de doenças cardiovasculares é o bastante para adotar o princípio da precaução?

Quando você pega o Propileno Glicol, que é um dos maiores carregadores de produtos nesses líquidos do cigarro eletrônico, ele cria muitos outros produtos tóxicos, como o formaldeído, e as molas de metal liberam íon. Tudo isso são substâncias altamente tóxicas. Os sabores também, quando inalados, são muito tóxicos e quando aquecidos se tornam outros produtos químicos. A combustão não é igual à do cigarro tradicional. Com o aquecimento do fluido há muitas reações químicas que vão mudar os produtos que você está inalando.

Têm sido notificados nos Estados Unidos diversos casos de mortes associadas ao cigarro eletrônico, além de milhares de registros de doenças pulmonares e convulsões. Qual é o impacto dessa notícia para a saúde pública?

A primeira coisa é que não sabemos exatamente o que nos cigarros eletrônicos está causando essas convulsões e doenças pulmonares. O governo está ativamente investigando tudo isso. Eu acho que esses problemas já estão acontecendo há muito tempo, mas eram casos isolados e a comunidade médica não notou os efeitos. Agora, eles estão vendo casos mais sérios, próximos um do outro. As pessoas estão começando a notar isso. Saber exatamente o que está causando esses efeitos não sabemos, mas está sendo demonstrado que os cigarros eletrônicos têm muitos efeitos danosos para as pessoas.

Qual é a importância da política de preços e impostos para mitigar o impacto do tabagismo?

Aumentar os impostos sobre os produtos de tabaco é sempre uma boa ideia, porque quanto mais caros eles são, menos pessoas irão usar. Já foi comprovado que essa é uma estratégia boa e abrangente de controle de tabagismo. Nos Estados Unidos, estão começando a taxar mais os produtos de tabaco. Agora, para diminuir o consumo, vocês têm uma solução muito melhor no Brasil, que é simplesmente não permitir que esses produtos entrem no mercado. Essa é uma política muito melhor do que permitir que esses produtos entrem no País para depois tentar controlá-los aumentando a taxa de impostos.

Como o senhor avalia e quais são as características principais dessa nova dependência entre mais jovens?

O nosso governo disse que o aumento radical de dependência de nicotina entre os adolescentes americanos, o que começou com a introdução do Juul no mercado, é uma epidemia. De fato, o governo de Michigan declarou uma emergência de saúde pública e proibiu a venda de todos os produtos saborizados. A taxa de jovens usando esses produtos está aumentando significativamente. Se você analisar o perfil psicológico desses jovens, seria muito improvável que eles começassem a fumar ou se tornassem dependentes da nicotina com os cigarros tradicionais. Eles estão começando com cigarros eletrônicos. Dados apontam que são jovens bem-educados e de uma faixa de renda mais alta. A epidemia está se expandindo. Para a empresa do tabaco isso é ótimo, porque estão trazendo novos jovens, que teriam pouco probabilidade de ser tornarem dependentes de nicotina por meio do cigarro tradicional. Há muitas pesquisas ao redor do mundo mostrando que novos dependentes de nicotina têm de quatro a cinco vezes mais chances de se viciarem depois em cigarros tradicionais, do que os jovens que não fizeram esse uso.

Esses produtos auxiliam na cessação do tabagismo?

Um dos grandes mitos sobre os cigarros eletrônicos é exatamente esse: que é uma boa forma de parar de fumar. É verdade que algumas pessoas foram bem-sucedidas e pararam de usar os cigarros tradicionais com o uso de cigarros eletrônicos, mas ao analisar a população como um todo, em média, os fumantes que adotam cigarros eletrônicos são cerca de um terço menos propensos a parar de fumar. Além disso, está se tornando mais claro que os cigarros eletrônicos são tão perigosos quanto os cigarros tradicionais. Não há benefícios para a saúde ao mudar do cigarro tradicional para o cigarro eletrônico e a maioria das pessoas que pararam de fumar através dos cigarros eletrônicos continua a usar os cigarros eletrônicos por mais tempo.

De que forma os médicos brasileiros podem contribuir no combate ao tabagismo?

A primeira coisa que os médicos brasileiros podem fazer é apoiar a Anvisa e as principais políticas do governo brasileiro de controle ao tabaco, não permitindo no País cigarros eletrônicos e produtos de tabaco aquecido no Brasil. Eles podem pressionar o governo para que pacotes de cigarro sejam mais simples e sem foto nenhuma, para um aumento da taxa tributária desses produtos e apoiar o governo de uma forma geral.

Em sua opinião, as pessoas que param de fumar cigarro convencional e migram para os cigarros eletrônicos, por exemplo, podem ser consideradas ex-fumantes?

Não, de jeito nenhum. Simplesmente mudar do cigarro tradicional para os cigarros eletrônicos ou produtos de tabaco aquecido não significa parar de fumar. A pessoa ainda está inalando aerossol de nicotina e isso ainda está aumentando as suas chances de ter doenças cardíacas, doenças pulmonares, provavelmente câncer também. Então a única forma de parar de fumar, é parar de fumar.