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A sustentabilidade da saúde é também papel das sociedades de especialidades
Seg, 10 de Junho de 2019 14:59

Marcelo Queiroga*

 

O sistema de saúde do Brasil (público e privado) é extremamente complexo e tem um compromisso social abrangente. Aspectos como acesso, financiamento e gestão estão na ordem do dia. As sociedades de especialidade têm, sim, papel relevante nesse contexto, pois atuam na titulação e atualização dos especialistas, sendo responsável pela difusão do conhecimento, com esteio na ciência baseada em evidências.

A qualificação médica é fator preponderante na eficiência da saúde e fundamental na sustentabilidade do sistema como um todo. A autonomia do médico é um dos preceitos da ética biomédica, conforme prevê o Código de Ética Médica: “é direito do médico: indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente”. Nesse sentido, as diretrizes societárias devem ser a referência de práticas cientificamente reconhecidas. Essas diretrizes, elaboradas tradicionalmente pelas sociedades de especialidade, norteiam a atividade profissional do médico e são úteis para respaldar políticas públicas que podem resultar em melhores indicadores de saúde para o Brasil.

O rigor na avaliação da qualidade da evidência científica deve nortear a elaboração de qualquer diretriz, pois por vezes nos deparamos com conflitos de interesse decorrentes da relação com a indústria dedicada à saúde. Assim, benefícios limítrofes verificados em ensaios clínicos randomizados (ECR), muitas vezes financiados pela indústria, não podem servir para ensejar recomendações fortes em diretrizes de uma sociedade científica.

O país clama por ética, e a transparência na elaboração desses documentos deve ser continuamente perseguida. Não podemos nos furtar a olhar de frente para essa questão. Um integrante de elaboração de diretriz que tiver conflito de interesse com qualquer tema a ser recomendado não pode participar do processo decisório, e a simples exposição de conflito de interesse já não é mais suficiente.

Defendo uma maior independência nesse processo, que não pode mais simplesmente compilar o expresso nas diretrizes das sociedades internacionais. No caso da cardiologia, os documentos da European Society of Cardiology, do American College of Cardiology e da American Heart Association são as referências. Apesar da grande expertise dessas sociedades, precisamos ter documentos mais condizentes com a realidade brasileira e comprometidos com a sustentabilidade do sistema de saúde do Brasil. É evidente que a literatura internacional é importante e precisa ser avaliada e estudada, mas é necessário ponderar cada ponto para conferir relevância e equilíbrio às recomendações anotadas em uma diretriz.

No caso de terapias inovadoras, como procedimentos ou fármacos ainda não aprovados pelas instâncias regulatórias brasileiras, a recomendação para uso no país deve ser ponderada. Recomendar condutas não referendadas em políticas públicas ou de saúde suplementar pode servir para estimular litígios contra o Estado brasileiro, uma agenda de risco que inverte prioridades e compromete a sustentabilidade do sistema. No mesmo sentido, deve haver cautela para recomendar em diretrizes terapias para as quais os médicos brasileiros ainda não estejam plenamente capacitados, sobretudo procedimentos invasivos e cirúrgicos.

Como a maior parte da população é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), as diretrizes devem levar em consideração, além da evidência científica, a sustentabilidade econômica das recomendações. Por força de uma legislação (Lei Orgânica da Saúde nº 8.080/90), a competência de elaborar protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas, no âmbito do SUS, é do Ministério da Saúde, especificamente da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia no SUS (Conitec). Embora as diretrizes de sociedades científicas obedeçam a uma lógica distinta da de uma diretriz governamental, não se pode simplesmente desconsiderar os conceitos utilizados pelo Ministério da Saúde para a elaboração dos documentos – mesmo que seja para criticar e sugerir alterações à Conitec, se for necessário.

A sustentabilidade da saúde passa, necessariamente, pelas entidades de especialidade e pelo papel que elas têm na sociedade em geral. As diretrizes societárias precisam ter credibilidade e independência não só para continuar a nortear a decisão dos médicos, mas também para orientar os técnicos da saúde suplementar e do próprio Ministério da Saúde.

As sociedades científicas, amparadas na tradição e credibilidade que sustentam perante os médicos, devem contribuir na difusão do conhecimento técnico e científico consolidado, por intermédio da elaboração de diretrizes apropriadas, conferindo eficiência à ação médica para interferir positivamente na adoção de políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde, como prescreve a Constituição Federal.

 

*Presidente eleito da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Ensino da informática biomédica na área da saúde
Seg, 10 de Junho de 2019 14:52

Luiz Roberto de Oliveira*

 

A implantação bem-sucedida e a sustentabilidade das práticas de saúde digital dependem da adequada formação de sua força de trabalho, nos seus três contingentes, integrados, segundo Sabbatini, por (1) pessoas do segmento de tecnologia; (2) profissionais clínicos (da área da saúde); e (3) profissionais não clínicos, ligados às tecnologias operacionais (planejamento, gestão, logística, governança). Todos produzem e consomem informações, o que torna crucial atitudes de compartilhamento, convergência, cooperação e colaboração.

Em todo o mundo detecta-se a carência de pessoal habilitado para suprir as demandas decorrentes do uso das tecnologias digitais da informação e das comunicações (TDIC) na saúde, cujo maior incentivo advém do reconhecimento de seus efeitos benéficos, comprovados com evidências suficientes. Nos países desenvolvidos, frente a esse consenso, denota-se esforço crescente para instituir o ensino da informática em saúde (IS) ou da informática biomédica (IB) – mencionando dois dos termos mais conhecidos – em diversos níveis. Para propiciar desenvolvimento sustentável é importante, além disso, estimular a pesquisa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), atenta às dificuldades causadas pela existência de diversas denominações para o mesmo assunto, e respaldada em estudos de experts internacionais que já há algum tempo discutem o problema, emitiu resolução propondo a designação “saúde digital” como a melhor possível para unificar as demais existentes. Seu intento é instituir terminologia mais coerente e convergente, uma vez que as abordagens sobre o tema impactam em contexto global. Busca-se vencer, assim, uma das primeiras barreiras: a de ordem semântica.

No contexto internacional, inclusive em muitos países em desenvolvimento, com lamentável exceção da maioria dos países latinoamericanos, já existe concordância sobre ser oportuno iniciar ainda na graduação a oferta de formação em IS/IB, visando preparar todos os profissionais de saúde para a realidade irreversível da saúde digital. Os estudos na área, além disso, devem continuar em diversos níveis de pós-graduação, incluindo residências médicas, especializações, mestrados e doutorados. No Brasil não houve ainda a percepção dessa realidade indiscutível.

O panorama nacional, na atualidade, de modo resumido, exibe contraste preocupante quanto à realidade da saúde digital. No âmbito da Comissão Intergestores Tripartite, em 2017, foi aprovado importante documento denominado Estratégia de e-Saúde para o Brasil, sendo destaque o reconhecimento da carência de profissionais com formação para trabalhar no setor, afirmando-se ser importante incentivar oportunidades de melhorar o preparo para atuar na área. Isso corrobora a realidade mundial. A iniciativa de introduzir o uso de prontuário eletrônico do paciente (PEP) no Sistema Único de Saúde (SUS), com o Plano de Informatização das Unidades Básicas de Saúde (PIUBS), por sua vez, demonstra claramente interesse oficial pela adesão do País à modernidade da saúde digital e seus inúmeros benefícios. O tema da IS/IG, entretanto, independentemente da denominação utilizada, não é reconhecido como área de conhecimento pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), dificultando enormemente a criação de cursos de pós-graduação stricto sensu. Isso atinge diretamente o esforço da pesquisa, o que cumpre corrigir com grande urgência. Outro hiato relevante: o assunto também não consta em nenhuma das diretrizes curriculares dos cursos de graduação da área da saúde. Resulta daí, por sua vez, o pouco incentivo para seu ensino nessas graduações, aliado à completa falta de estímulo à formação de docentes aptos ao desenvolvimento das necessárias ações educacionais. O desenvolvimento de consciência ética quanto ao uso das TDIC pelos profissionais de saúde, consequentemente, torna-se irrelevante, com prejuízos inimagináveis.

O esforço na preparação de profissionais de saúde para trabalhar na área da IS/IB no Brasil, além de exíguo, encontra-se direcionado quase que com exclusividade aos profissionais da área tecnológica. Não há, por outro lado, qualquer participação de entidades de classe ligadas à educação, à saúde ou à profissão médica, vez que o tema também não é considerado área de atuação do profissional dessa área. Tem-se enfatizado, no território nacional, a certificação profissional, terminologia claramente ligada a profissionais do segmento tecnológico, mas não identificado com a formação de profissionais de saúde. Falta, portanto, se realmente houver interesse em ver progredir e consolidar a prática da saúde digital no País, corrigir diversas lacunas, a começar por se considerar indispensável o ensino da saúde digital nas graduações da área da saúde.

 

*Mestre e doutor em Medicina, professor associado do Departamento de Cirurgia e coordenador do Núcleo de Tecnologias e Educação a Distância em Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). É coordenador da Câmara Técnica de Informática em Saúde do Conselho Regional de Medicina do Ceará (Cremec).

  

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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O abismo das escolas médicas
Seg, 27 de Maio de 2019 15:47

Marcos Lima de Freitas*

 

Abismos são grandes depressões ou cavidades naturais que levam a profundezas frequentemente inexploradas. Quando utilizada no sentido figurado, a palavra “abismo” pode significar o caos. A abertura desmedida de novas escolas médicas nos últimos anos está levando o ensino e a assistência médica na direção de um abismo.

No início do século XIX, mais precisamente a partir do mês de fevereiro de 1808, teve início a história do ensino médico no Brasil, quando foram fundadas as escolas de medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. Apenas no final desse século foi criada a terceira escola médica brasileira no Rio Grande do Sul. No século XX, especialmente na sua segunda metade, a acelerada evolução dos conhecimentos médicos científicos tornou necessária a ampliação das faculdades de medicina, tendo sido criadas 113 escolas médicas. O crescimento populacional no País ao longo desse século foi da ordem de 900%, partindo de 17 milhões para 170 milhões de habitantes.

Hoje, aos 19 anos do século XXI, o Brasil dispõe de 330 escolas médicas, das quais 152 tiveram seu funcionamento autorizado nos últimos oito anos. Foram criadas mais escolas médicas em oito anos do que no século passado. Hoje perdemos em número de escolas apenas para a Índia, com suas 381 instituições e uma relação de 3,1 milhões de habitantes para cada escola médica. No nosso País, essa relação é de pouco mais de 600 mil habitantes por escola. Esse fenômeno coloca o Brasil em posição de destaque? Países desenvolvidos e que são referência no ensino médico, como Canadá, Estados Unidos e Alemanha, mantêm uma proporção acima de 2 milhões de habitantes por escola. No Japão e Reino Unido essa relação está acima de 1,5 milhão de habitantes por escola. Analisando esses dados, nosso destaque parece ser negativo.

E por que não faltam médicos qualificados para atender à população desses países? Pois priorizaram a qualidade no ensino médico. Dos cursos criados no Brasil nos últimos anos, 70% são privados. Boa parte deles não apresenta qualificação docente suficiente nem campos de estágio adequados, comprometendo a formação. Esses países também optaram pela assistência médica qualificada à população, oferecendo condições de trabalho e oportunidades aos médicos nativos para trabalhar em todo o território nacional. Dados da Demografia Médica do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostram que os médicos estão concentrados nos grandes centros urbanos, e isso se justifica, em grande parte, pela falta de segurança jurídica nos contratos de trabalho e pelas precárias condições para exercer a profissão. Aumentar o número de médicos sem resolver as causas da má distribuição não solucionará o vazio assistencial existente.

Outro dado importante é a proporção entre médicos e habitantes. No Canadá, Estados Unidos e Japão essa relação é de 2 a 2,5 médicos por mil habitantes. Segundo dados da Demografia Médica, nossa relação atual é de 2,18 médicos por mil habitantes, taxa que evoluía em curva ascendente nos anos anteriores à criação das novas escolas.

Ao que tudo indica, construíram uma montanha bastante elevada, e estamos prestes a cair no abismo produzido por ela. A formação médica e o futuro da assistência médica à população brasileira foram comprometidos como consequência da irresponsabilidade social demonstrada através de decisões equivocadas, distantes da realidade e restritas a critérios político-ideológicos.

O Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Medicina avaliam com preocupação esse panorama e debatem o tema na busca por soluções que minimizem os impactos negativos previstos, tendo como objeto principal o cessar imediato da abertura de novas escolas. O CFM está implantando o Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (Saeme), cuja participação é voluntária e por meio do qual, ao final da avaliação, a escola receberá um selo internacional de qualidade. Também estão no centro dos debates o uso de exame de proficiência dos egressos do curso médico como forma de avaliação das escolas e a carreira de Estado para médicos como solução para a má distribuição destes no território nacional. Seguiremos na busca por soluções no sentido de reverter esse quadro, sempre objetivando a boa prática da medicina e enfatizando que essa deve ser uma preocupação de toda a sociedade.

 

*Médico e Presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte (Cremern).

 

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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Para que servem o CFM e os CRMs?
Seg, 27 de Maio de 2019 15:41

Cristofer Martins*

 

Muito antes de conhecer a capital federal, na Curitiba do final dos anos 1980, meu professor de história fez um trabalho em sala de aula perguntando quem teria sido, até então, o melhor presidente da nossa República. Naqueles tempos, já havia amadurecido a ideia de tornar-me médico – com três tios paternos e dois primos maternos médicos, pode-se dizer que a medicina é uma tradição na família. Respondi ser Juscelino Kubitschek (JK) – médico visionário que transferiu a capital da República para o Planalto Central, promovendo o desenvolvimento do interior e a integração do Brasil – o melhor dos presidentes, frustrando com minha resposta o professor, que esperava contemplar Getúlio Vargas e sua consolidação das leis do trabalho.

Embora tenha sido de Getúlio o Decreto-Lei nº 7.955, que instituiu o Conselho Federal de Medicina (CFM) e os Conselhos Regionais (CRMs) em setembro de 1945, no final da ditadura Vargas, a fundação do CFM ocorreu apenas em 1951. Entretanto, foi com a Lei nº 3.268, de 30 de setembro de 1957, promulgada por Juscelino Kubitschek, que os Conselhos verdadeiramente se consolidaram. JK conferiu natureza autárquica federal ao conjunto CFM/CRMs, ou seja, proporcionou autonomia técnica, funcional e administrativa aos médicos brasileiros, atribuindo-nos poderes para regulamentar, fiscalizar e disciplinar nossa profissão. Nesse sentido, apenas nós, médicos, definimos as regras do nosso ofício, nossos ditames éticos e códigos de conduta. Também fiscalizamos se nossos colegas cumprem as regras que estipulamos para boas práticas e, talvez o mais importante, apenas nós temos poderes para punir aqueles médicos que violam a ética profissional.

Para exercer tal papel nos CRMs, função de extrema responsabilidade, elegemos a cada cinco anos 40 médicos que, somados a dois outros indicados pela Associação Médica, tomam posse como Conselheiros e têm poderes para:

1. Escrever as regras éticas da nossa profissão, normas que deverão ser cumpridas por todos os colegas;

2. Entrar em nossos consultórios, clínicas e hospitais para nos fiscalizar e saber se de fato estamos cumprindo as regras estipuladas para o exercício ético da medicina.

3. Julgar e, se for o caso, punir médicos por meio do Tribunal de Ética Médica.

Logo, mesmo que colegas candidatos à egrégia função de Conselheiro prometam, jurem “de pés juntos”, sinceramente, que vão usar do cargo honorífico para “defender” médicos, não acreditem pois, ainda que tentem agir assim, não terão êxito, uma vez que a Lei não delega poderes para tanto. Ao contrário, sucumbirão pelos caminhos do desvio de finalidade, da prevaricação e da improbidade administrativa. Portanto, escolha aquelas médicas e médicos que você acredita serem candidatos capazes de escrever regras éticas para todos cumprirmos, colegas em que você confia para nos fiscalizar e julgar, pois é isso que os Conselheiros efetivamente farão.

Diante do exposto, pode parecer perfeita aos incautos a proposição de extinguir a autarquia, pois sendo suas atribuições distintas da defesa pura do médico, e sendo o Conselho competente apenas para a regulamentação da profissão, sua fiscalização e exercício correcional, não interessaria mais a nossa classe médica sua manutenção. Assim, os médicos unidos poderiam se mobilizar politicamente pelo encerramento do CFM e de todos os CRMs. Nesses termos, o “problema” estaria “resolvido”.

Ledo engano. É mister lembrar aos desavisados que a regulamentação, fiscalização e correição da medicina interessa a toda a sociedade, ou seja, ainda que uníssona fosse sua recusa por nós médicos, o que sabemos ser falso – mas ainda que verdadeiro fosse –, tais atribuições seriam assumidas por outra esfera em nossa sociedade. Note-se que não são todos os países que concedem a seus médicos tamanha autonomia para gestão da profissão, autonomia que os CFM/CRMs possuem. Em muitas nações o registro e a ética profissional são regulados por órgão da administração direta, com severas interferências do poder executivo; em outros locais, a natureza de tal entidade médica é de pessoa jurídica de direito privado, ou seja, fora do alcance dos princípios da administração pública, da devida transparência e da auditoria dos tribunais de contas.

Não é crível que colegas médicos prefiram delegar a regulamentação e o poder correcional da ética médica a órgão público de administração direta, Secretarias de Saúde ou Ministério da Saúde. Lembrem-se das recentes interferências que sofremos do Executivo federal quando do programa Mais Médicos. O atropelo ocorreu com a autarquia em pleno gozo de suas prerrogativas, conferidas pela Lei nº 3.268, de 1957; calcule-se, quiçá, o que seria com os poderes cumulados da nossa autarquia federal! Certamente o dano seria muito maior. No mesmo sentido, é inepto defender que a construção da ética médica e sua fiscalização emanem de pessoa jurídica de direito privado, com faculdade para multas pecuniárias – verdadeiras caixas pretas, de difícil prestação de contas, improvável austeridade de gestão e alijadas do poder conferido a órgãos da administração indireta pelo Estado.

Por fim, há que se acolher a insatisfação da classe frente às inúmeras agressões e dificuldades que nossos pares passam para exercer boas práticas médicas. É esperado que se rogue pela defesa de condições de trabalho dignas, remuneração justa e estabilidade de emprego. Todavia, não há como esconder que tais objetivos somente serão alcançados com o fortalecimento das entidades médicas como um todo, especialmente os Sindicatos dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos, a quem compete defender os interesses dos profissionais médicos sindicalizados; os Conselhos de Medicina, a quem compete regulamentar, fiscalizar e disciplinar a profissão médica; e a Associação Médica Brasileira, que se dispõe a congregar os médicos com o objetivo de promover atualização científica, defesa geral da categoria no terreno ético, social, econômico, cultural e de consumo.

“É inútil fechar os olhos à realidade. Se o fizermos, a realidade abrirá nossas pálpebras e nos imporá a sua presença” (Juscelino Kubitschek).

 


*Conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF).

  

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Saeme: Sistema de Acreditação de Escolas Médicas
Ter, 07 de Maio de 2019 16:04


Carlos Vital Tavares Corrêa Lima*

 


A qualificação do ensino médico no Brasil é uma das preocupações dos Conselhos de Medicina diante da abertura desenfreada de cursos de graduação no País, sobretudo a partir de 2010. Desde aquele ano, 161 instituições do tipo, distribuídas em 132 municípios, entraram em funcionamento, sendo a maioria particulares.

 Em diferentes oportunidades, o Conselho Federal de Medicina (CFM), juntamente com os CRMs e outras entidades da categoria, denunciou os problemas relacionados a esse avanço acelerado, que fez o número de escolas médicas praticamente dobrar em uma década, chegando a 336. Entre os complicadores nas novas instituições, estão: falta de programa acadêmico adequado, instalações precárias, ausência de hospitais de ensino e de campos de estágio, além do pequeno número de professores doutores capacitados para assumir as disciplinas em sala de aula. Tão grave quanto esse quadro estrutural denunciado pelo CFM é a abertura de escolas em regiões onde não há essa necessidade, por já contarem com outros estabelecimentos em funcionamento com vagas o bastante para atender a demanda. Assim, decisões de governo, influenciadas por interesses políticos e econômicos, acabam por aumentar a concentração de médicos em áreas onde já existiam em número suficiente.

 Em 2018, a assinatura de decreto presidencial, a pedido do CFM, suspendendo por cinco anos novos editais para outras escolas, reduziu o ritmo de abertura das unidades, sendo que as que têm sido anunciadas são remanescentes de processos que já estavam em andamento. Contudo, as falhas no ensino médico permanecem e suas consequências precisam ser prevenidas e corrigidas. Por esse motivo, o CFM continua a fazer gestões junto às autoridades competentes para que mudanças aconteçam no ensino médico. Não apenas apresenta reivindicações como encaminha sugestões, contando com o apoio de grupos de representação da categoria, da área da educação e de alguns políticos. Mas essa é uma jornada longa, que exige persistência, e os resultados podem demorar.

 Assim, ao criar o Sistema de Acreditação de Escolas Médicas (Saeme), em 2016, o CFM adotou uma nova estratégia para a qualificação do ensino em medicina no País. O projeto, desenvolvido em parceria com a Associação Brasileira de Educação Médica (Abem) e com a Universidade de São Paulo (USP), não se resume a uma avaliação pontual, específica e padronizada, baseada na apresentação de evidências, mas envolve também o acompanhamento dos cursos acreditados, com a preocupação de elevar o nível do ensino.

 Até o momento, 65 escolas médicas se inscreveram para passar por essa análise, sendo que 32 delas já concluíram o processo. Porém, esse não é o ponto final para elas, mas uma breve pausa num movimento pela melhoria em diferentes aspectos. Como no Liaison Committee on Medical Education, que faz trabalho semelhante ao Saeme nos Estados Unidos e no Canadá e foi fonte de inspiração para seu desenvolvimento, instituições acreditadas vão atrás do aperfeiçoamento de seus processos.

 Por exemplo, nos anos 1990, das 90 escolas médicas acreditadas pelo Liaison Committee, 61 apresentavam alguma deficiência, sendo que, para superar os problemas diagnosticados, 34 promoveram reformas curriculares ou pretendiam fazê-lo. No Brasil, a coordenação do Saeme já percebe que sua avaliação também estimula o interesse dos cursos participantes de alcançar um novo patamar no ensino em medicina.

 Assim, após quase dois anos de tratativas, não surpreende o recente anúncio da World Federation for Medical Education (WFME) de que o Saeme foi reconhecido como a única instituição brasileira em condições de acreditar cursos de medicina, com base em parâmetros internacionais de excelência. Apenas esse fato seria motivo de orgulho, porém ele embute outros desdobramentos relevantes para o Brasil.
É que a partir de 2023 apenas egressos de escolas acreditadas por instituições reconhecidas pelo WFME, como é o caso do Saeme, poderão pleitear exercer a medicina nos Estados Unidos e no Canadá, ou mesmo participar de programas de pós-graduação nesses dois países. Ou seja, essa decisão daqueles governos obrigará a rede de escolas brasileiras a buscarem sua qualificação, tendo o Sistema criado pelo CFM como referência.

 Assim, o Saeme insere o Brasil no contexto de esforços para a criação de uma cultura internacional de Aprimoramento Contínuo da Qualidade (do inglês CQI - continuous quality improvement), a qual deve permear cada instituição de ensino, antes, durante e após o seu processo de acreditação. São os médicos brasileiros, com o suporte do CFM, abrindo um novo caminho para defender o aprimoramento da formação na medicina.

 

* Palavra do Presidente publicada na edição n° 289 do jornal Medicina. Acesse aqui a edição.

 

 
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