Rede dos Conselhos de Medicina
Cinema e Medicina: CFM exibe Sonhos Tropicais Imprimir E-mail
Ter, 22 de Outubro de 2002 21:00
O Conselho Federal de Medicina promoverá, nesta quinta-feira, dia 24 de outubro, durante o II Encontro Nacional dos Conselhos de Medicina do Ano 2002, a exibição do longa metragem Sonhos Tropicais, filme dirigido por André Sturm, baseado no romance homônimo de Moacyr Scliar. O escritor e o cineasta estarão presentes, prestigiando a sessão e conversando sobre literatura, cinema e abordando temas como saúde pública, a luta de Oswaldo Cruz para vacinar a população, a Revolta das Vacinas, dentre outros assuntos. O FILME Sonhos Tropicais, o primeiro longa de André Sturm, baseado no romance homônimo de Moacyr Scliar, traz à baila a questão da saúde pública no Brasil, num momento em que o Governo se mobiliza novamente para evitar uma nova epidemia de dengue, como a do início deste ano, que contabilizou cerca de 100 mil pessoas infectadas pelo Aedes Aegypti, só no Rio de Janeiro. O filme traz a saga do médico sanitarista Oswaldo Cruz que lutava para dar consciência higiênica à população e para convencer os políticos sobre os benefícios de uma campanha de vacinação em massa. A relutância de uma ala dos políticos contra a vacina e a manipulação da consciência da população resultou num sangrento episódio histórico conhecido como a Revolta da Vacina. Sonhos Tropicais, mesmo sendo um filme de época, com todos os seus méritos de recriação e figurinos, é uma leitura fiel do Brasil. Sua atualidade é única neste momento de epidemia não assumida da dengue no Brasil, exatamente como em 1899... MOACYR SCLIAR Natural de Porto Alegre, Moacyr Scliar nasceu em 1937 e cresceu no Bom Fim, bairro judeu da capital gaúcha. Quando começou a se aventurar no mundo da literatura, não queria mais do que ser o escritorzinho do Bom Fim, como o chamavam seus vizinhos. Hoje, depois de mais de 40 títulos publicados em mais de 11 línguas e muitos prêmios recebidos, Scliar torna-se cada vez mais um grande escritor. Recentemente, recebeu mais um prêmio, o importante Jabuti, por A Mulher que Escreveu a Bíblia, inspirado na teoria de que uma parte do livro sagrado teria sido escrito por uma mulher. O judaísmo e a medicina são temas sempre abordados pelo escritor gaúcho. A recorrência se explica. Scliar é médico sanitarista filho de imigrantes judeus russos. Em Sonhos Tropicais, de 1992, estão presentes as duas questões. Nele, Scliar traça uma biografia romanceada da vida do médico sanitarista Oswaldo Cruz. O tema das polacas judias também está no livro. É por meio da saga de Esther que Scliar tange o assunto que por muito tempo foi tabu na comunidade judaica. Em O Ciclo das Águas, de 1978, com o qual causou polêmica e ganhou o prêmio Érico Veríssimo, Scliar já havia aprofundado o drama dessas personagens que também ajudaram a construir a história do Brasil. ANDRÉ STURM Distribuidor, cineclubista, diretor e produtor, Sturm começou por acaso sua carreira cinematográfica. Estava decidido a ser administrador de empresas, cursava a faculdade na Fundação Getúlio Vargas. Até o dia em que, em 1984, descobriu o cineclube da faculdade. O que era apenas interesse virou paixão. A paixão virou trabalho. Em 1989, com uma carta de apresentação do diretor do Instituto Goethe, viajou para o Festival de Berlim, poucos meses antes da queda do Muro. Determinado a comprar alguns títulos, circulou pelo mercado de filmes. Conversou com alguns distribuidores, alguns lhe deram crédito, outros não. Mas acabou fechando seus dois primeiros contratos e voltou para o Brasil para criar a Pandora Filmes. Do cineclubismo para a direção foi um passo. Seu primeiro curta foi Arrepio, de 1987. Em seguida, rodou Nem Tudo o que é Sonho Desmancha no Ar, de 1989. Em 1994, com Domingo no Campo, ganhou os prêmios de melhor diretor e ator (Osmar Prado) do Festival de Gramado. Pouco depois, resolveu investir em seu primeiro longa metragem e contar a história de Sonhos Tropicais. OSWALDO CRUZ Oswaldo Gonçalves Cruz nasceu em 1872 em São Luís do Paraitinga, onde viveu até 1877, quando seu pai foi transferido para o Rio de Janeiro. Aos 15 anos, entrou para a faculdade de Medicina. Antes de terminar o curso já tinha publicado dois artigos sobre microbiologia na revista Brasil Médico. Em 1892, concluiu o curso com a tese A Veiculação pelas Águas. Em 1896, Cruz foi estudar no Instituto Pasteur de Paris, que reunia os grandes nomes da ciência da época, para se especializar em bacteriologia. Três anos mais tarde, quando voltou para o Brasil, encontrou um Rio de Janeiro conturbado política e economicamente, que lutava contra a falta de saneamento básico e várias epidemias. Pouco tempo depois, soube que o Porto de Santos estava sendo assolado por uma violenta epidemia de peste bubônica e logo se engajou no combate à doença. Em 1902, foi convidado pelo Barão de Pedro Affonso para dirigir o Instituto Soroterápico Federal, instalado na antiga Fazenda de Manguinhos, na zona norte do Rio. Idealista, Cruz preferiu deixar um emprego cômodo como médico da Tecelagem Corcovado para tocar as pesquisas sobre o soro contra a peste em Manguinhos. No ano seguinte, foi nomeado Diretor Geral de Saúde Pública pelo presidente Rodrigues Alves, que precisava de um especialista para comandar seus planos de saneamento da capital carioca. Foi então que as medidas modernas, porém pouco compreendidas e compartilhadas tanto pela sociedade científica da época quanto pela população menos esclarecida, causaram revolta na opinião pública. Para combater a peste bubônica, o médico lançou mão de um método nada convencional. Organizou comissões que compravam ratos caçados pela população. Para conter a febre amarela, Cruz, respaldado pelas descobertas de médicos cubanos, resolveu atacar o transmissor da doença, o mosquito Aedes aegypti. A maior parte dos médicos e da população acreditava que a doença era transmitida pelo contato com as roupas, o suor, o sangue e outras secreções de doentes. Cruz suspendeu as desinfecções tradicionais e criou a polícia sanitária e as brigadas mata-mosquitos, que percorriam as casas e ruas eliminando os focos de insetos e evitando águas paradas, onde as larvas se desenvolviam. Tais medidas provocaram violenta reação popular e Cruz passou a ser alvo constante das sátiras e charges dos jornais da época. Mas o estopim de sua 'briga' com o conservadorismo foi atingido com a Revolta da Vacina, ocorrida em novembro de 1904. Tudo porque, para erradicar a varíola, que assolava o Rio de Janeiro, Cruz exigiu do governo um decreto-lei que obrigava todos os cidadãos com mais de seis meses de idade a se vacinarem contra a doença. Os jornais lançaram violenta campanha contra a medida, o congresso protestou e foi organizada uma liga contra a Vacinação Obrigatória. Os membros da oposição aproveitaram a indignação da população para agitar a Revolta, que tomou conta das ruas do Rio por mais de uma semana. O governo derrotou a rebelião popular, mas suspendeu a obrigatoriedade da vacina. No entanto, a batalha foi mesmo vencida por Cruz. Em 1907, a febre amarela estava erradicada do Rio de Janeiro e o médico sanitarista recebeu a medalha de ouro no Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim. O Instituto de Manguinhos foi batizado no ano seguinte de Instituto Oswaldo Cruz (hoje Fundação Oswaldo Cruz, que foi abrigando ao longo dos anos várias outras unidades de pesquisa) e se tornou referência mundial em saúde pública. Em 1909, Cruz deixou a diretoria geral de Saúde Pública para se dedicar exclusivamente ao instituto que agora levava seu nome. Quatro anos depois, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em 1915, por motivos de saúde, deixou a direção do Instituto e se mudou para Petrópolis. Ainda foi eleito prefeito da cidade, para onde criou um plano de urbanização que não pôde implantar, pois morreu dois anos depois, aos 44 anos, sofrendo crises de insuficiência renal.
 
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