Rede dos Conselhos de Medicina
Tendências de mudanças na formação médica no Brasil: a visão do todo Imprimir E-mail
Qui, 22 de Agosto de 2002 21:00
A questão que motiva a abordagem deste tema é o compromisso das escolas médicas, nos seis anos do curso de graduação, de conferir formação geral e competências básicas - conhecimentos, habilidades e atitudes - ao médico para inserir-se no mercado de trabalho tão logo receba o diploma. No Brasil, são formados em torno de 7.000 médicos/ano (Abem, 1997; Abem, 2001), que de imediato são reconhecidos e licenciados pelos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs) para exercerem a Medicina. Tem sido demonstrado, em números, que já existem médicos proporcionalmente suficientes para o atendimento da população brasileira, mas a realidade mostra escassez de médicos para atender as Necessidades Básicas de Saúde (NBS), e que a população, de um modo geral, não está satisfeita com o atendimento recebido em saúde, por estar desatendida ou atendida de forma insatisfatória. O tema ganha mais relevância quando constata-se que o curso de Medicina é um dos mais longos cursos universitários e representa um custo elevado para a sociedade. Aqui nos referimos a um estudo que busca verificar as tendências de mudanças curriculares atuais das escolas médicas brasileiras, nos cursos de graduação. Mudanças que buscam superar as fragmentações do conhecimento em especializações ainda na graduação, na forma de disciplinas, que pouco interagem, e dar conta do dever de conferir formação para atender as NBS da população, atendendo as recomendações dos fóruns nacionais e internacionais de Educação Médica. Da forma como o ensino se organiza, o estudante volta-se para uma especialização em uma fase muito precoce de sua formação. Essa realidade tem sido auspiciada e justificada pelo avanço científico e tecnológico, proporcionado por um modelo denominado paradigma flexneriano (pós Relatório Flexner, 1910), principalmente na segunda metade do século XX. Nessa metade do século, começam a surgir sinais e movimentos, contrapondo as tendências, na medida em que os seus resultados vão sendo avaliados, deixando então evidente que esse paradigma, ao voltar-se em demasia para áreas restritas do conhecimento, as especialidades, descuida da abordagem da saúde do ser humano como um todo, inteiro e único no seu ambiente. Um novo paradigma tem sido anunciado e impregnado discursos e mesmo formulado políticas públicas de saúde e educação. A mais recente evidência foi a homologação da novas Diretrizes Curriculares para os curso de graduação em Medicina (ME, 2001) A construção do paradigma ocorre em um contexto favorável nas reivindicações por serviços de saúde mais humanizados; na grande necessidade de atenção à saúde da população brasileira; nos altos custos dos serviços de saúde em especialidades; na inadequação da formação dos profissionais da saúde, em especial do médico, mostrada nos resultados das avaliações elaboradas pela Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação das Escolas Médicas (Cinaem - Relatório Geral, 1997) e pelo Ministério da Educação no Exame Nacional de Cursos (o “Provão”); na insatisfação dos profissionais médicos demostrado no estudo do Perfil dos Médicos no Brasil; e na dificuldade de encontrar médicos adequados à proposta do Programa Saúde da Família do Ministério da Saúde (MS/PSF, 1994). A mudança paradigmática, no entanto, embora mais próxima, ainda está distante de vir a se concretizar, considerando que a estrutura predominante no contexto do mercado de trabalho e de oferta dos serviços está voltada predominantemente para as especialidades, para atendimentos compartimentalizados. As escolas médicas, apesar das recomendações de fóruns internacionais e nacionais (Conferências Mundiais de Educação Médica de Edimburgo, Abem, Cinaem, Rede Unida), continuam com: programas curriculares estruturados predominantemente em disciplinas; disciplinas ministradas por docentes especialistas; prática predominantemente hospitalar; e sem o modelo do profissional preconizado em serviço, modelo referenciado e respeitado com destaque social e econômico. Os currículos integrados e contextualizados na realidade que sustenta a instituição formadora têm encontrado, nessas evidências, dificuldades na sua implementação. Fica assim saliente a necessidade de esforços contínuos e integrados de todos os atores sociais comprometidos com a assistência em saúde da população, tendo destaque o importante papel desempenhado pela corporação médica. As tendências da formação básica dos médicos ao implementar o programa curricular na graduação foi tema de tese de doutorado defendida este ano,na Ensp/Fiocruz, que por recomendação da banca está sendo divulgado na forma de livro. Este estudo teve como base a aplicação de um instrumento apoiado nas áreas temáticas de cinco eixos conceptuais relevantes em educação médica: o enfoque teórico; a abordagem pedagógica; o cenário da prática; a capacitação docente; e o mercado de trabalho e serviços de saúde. O estudo se desenvolveu a partir da construção e aplicação do instrumento contendo nos cinco eixos alternativas que partem do modelo hegemônico tradicional flexneriano ao modelo de formação preconizado. O instrumento, com o objetivo de abalizar tendências da escola em aproximar-se ou distanciar-se das recomendações dos fóruns de educação médica e das políticas de saúde vigentes, fez com que o Colegiado, responsável pelas deliberações e avaliações do curso de graduação das escolas médicas estudadas, desencadeasse, num primeiro momento, uma discussão entre seus pares exercitando a visão e percepção do curso de graduação como um todo. Fato necessário para, então, fazer a escolha de uma das três alternativas dadas, a predominante, em cada um dos quesitos, a que mais se aproximasse da realidade da escola. Feita a escolha, foi construída a justificativa, ou seja “o porquê” de aquela alternativa ser predominante, identificando políticas e/ou valores institucionais. Logo, o colegiado relacionou a(s) evidência(s) correspondente(s), ou seja, exemplo(s) que ressaltassem o que estava sendo identificado como situação / alternativa predominante, passível(is) de verificação. Esses explicativos possibilitaram transcender o grau de percepção dos atores ao marcar uma das alternativas e a singularidade de cada instituição contida na historicidade de sua proposta curricular. Este estudo possibilitou a criação de uma tipologia de tendências das escolas médicas. O método permite o uso institucional próprio, que de forma dinâmica pode fazer, além do diagnóstico, o acompanhamento dos resultados das ações estratégicas na implementação do currículo, exigindo a visão do todo para implementar mudanças substanciais na formação do médico.
 
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