Escrito por Patrick Cruz*

No mundo, são mais de 12 milhões de óbitos por ano relacionados a doenças do coração. As estatísticas brasileiras registram 360 mil mortes a cada 12 meses, ou 986 por dia, ou 1,4 morte a cada dois minutos ou 0,7 morte a cada 60 segundos. Muitos dos males são revertidos com a desobstrução das artérias por meio do uso de um cateter, a afamada angioplastia 80 mil procedimentos no ano passado, segundo o Sistema Único de Saúde (SUS). Grandes cirurgias, mais invasivas, foram pouco mais que a metade disso. Cardiopatas brasileiros contam se aos milhões.

Benedito Aguiar Azevedo é uma estatística, mas também é um agricultor de 67 anos que se dedica desde sempre à cultura do milho e do feijão em Ubajara, no Ceará, a 329 quilômetros de Fortaleza (“Mas é mais pra dentro, a umas três, cinco léguas de Flexeiras. Conhece?”). O número de estatística em questão, que figura em alguma (ou várias) tabelas de Excel, tem três pontes de safena e, na semana passada, estava em uma das enfermarias do Hospital Messejana, em Fortaleza, à espera de sua vez de receber tratamento. As enfermeiras, atenciosas, procuravam transformar em eufemismo o desconforto da informação de que ele teria pelo menos quatro semanas de fila pela frente.

A situação esteve pior. Antes de conseguir cama na enfermaria C, o agricultor passou dois dias sentado em um uma cadeira disposta em um dos corredores da emergência do hospital, segundo seu relato. “Aqui até que tá bom. É uma extensão do céu”, disse, mas sem deixar de fazer a ressalva: “Eu queria era estar livre. É bem melhor. Quem quiser sofrer que vá prum hospital. Hospital é só pa sofrê”.

Deu se no Ceará a eclosão mais recente do que se preferiu generalizar como “a crise da saúde no Nordeste”. Não chegou a ser uma greve generalizada, como a registrada em Alagoas, com 87 dias de paralisação, mas seguiu se a movimentos de descontentamento de funcionários e conseqüente decréscimo agudo na qualidade dos serviços registrados na Paraíba e em Pernambuco. O registro repentino de seis mortes de bebês na UTI da Maternidade Hildete Falcão Batista, em Aracaju, por suspeita de infecção, não ajudou a melhorar o quadro. No Ceará, os cardiologistas rebelaram se contra a remuneração limite de R$ 81,92 por procedimento cirúrgico que recebem do governo, valor menor que a média de R$ 98,08 praticada nos Estados do Nordeste e bem abaixo dos R$ 126,24 pagos em Mato Grosso do Sul, como informa o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde. Em Fortaleza, quatro hospitais credenciados pelo SUS deixaram de atender. O Messejana, público, passou a receber todos os doentes do coração que antes estavam em cinco hospitais.

A “crise da saúde do Nordeste” não chega a ser uma estatística, como Benedito Azevedo, mas pode ter um rosto e se chamar Neule Azevedo, chefe de enfermagem no setor em que o agricultor aguardava pela sua vez de tratamento. “A gente fica tão ansiosa quanto os doentes. A emergência está lotada e não se consegue dar vazão”, conta ela. Com sua planilha controlada por caneta Bic, faz andar a fila na enfermaria.

No momento em que fez seu relato, na última semana antes, portanto, de o governo federal anunciar um “PAC” emergencial de R$ 2 bilhões para a saúde , a rotina de Neule era a seguinte: colocava um nome na lista de cirurgias e um na espera, caso se tivesse que adiar o procedimento para o primeiro nome. Ritmo de quatro cirurgias semanais cada um dos outros três felizardos, se é que cabe o termo, vinha de uma das outras três enfermarias de cardiologia. Nem todos os doentes que aguardavam no local passariam necessariamente por procedimento cirúrgico. Angioplastias ou mesmo tratamentos clínicos, com remédios, dariam conta de alguns dos casos. Ainda assim, as enfermarias B, C (a da enfermeira Neule), G e I tinham, respectivamente, 26, 28, 34 e 28 cardíacos. Outras trinta e tantas pessoas aguardavam por melhor sorte em casa, por falta de local no hospital.

Dos números 26, 28, 34 e 28, a número 1 tinha nome, 35 anos de idade e trabalha em casa de família (“Ou trabalhava, não sei”). Sônia Maria de Oliveira Souza, oriunda de Canindé, a 120 quilômetros de Fortaleza, e residente na capital, entrou na enfermaria do aguardo no dia 17 de julho e era a que estava ali havia mais tempo. A pouca idade não a livraria de mais uma cirurgia, a segunda. Como pacientes com quadros mais graves chegaram depois de 17 de julho, Sônia, mais jovem, pôde esperar um pouco mais. Lamentou se pelo fato de ter perdido a chance de passar em casa o aniversário de 14 anos de Ítalo, seu filho mais velho, um dia antes. Na enfermaria mesmo, deu os parabéns e disse para ele estudar bastante.

Os honorários das cirurgias cardíacas foram o estopim da “crise da saúde do Nordeste” no Ceará, mas não chegam a ser o caso mais emblemático. “Um médico recebe perto de R$ 83 por uma safena, mas um anestesista ganha uns R$ 50”, diz João David de Souza Neto, diretor médico do Hospital Messejana. Ele acredita também ser pouco alvissareiro o fato de que mais da metade dos médicos do hospital não ter vínculo direto com o Estado, mas com cooperativas. “Isso causa uma carência de plantonistas na emergência e na terapia intensiva.” O Messejana tem 312 médicos e 19 residentes. “E com o aumento no número de pacientes, os doentes acabam chegando com um quadro mais grave. Isso dificulta o tratamento.”

Também pesa o fato de não haver descentralização do atendimento: complicou um pouco, manda para a capital. Francisca Maia Cedro Farias Ribeiro, plantadora de feijão e milho de 34 anos, teve uma artéria desobstruída em março no hospital de Tamboril, a 300 quilômetros de Fortaleza. Nem se passaram seis meses e o problema voltou a incomodá la. “Tive que vir pra cá. Lá não deram jeito”, conta ela. “Foi febre de cinco dias, um fastio e uma dor no peito… Uma dor que dói até pra pisar no chão.” Francisca, outra estatística fria na “crise da saúde do Nordeste”, também cita seus números: dois filhos, dois alqueires de terra e uma colheita raquítica de 50 litros de feijão. “É, neste ano não deu boa a colheita, não. A chuva foi pouca”.

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* É jornalista.


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