Escrito por Theófilo Gauze*

Nós Médicos, não raramente, somos alvos de críticas, agressões de toda natureza, assediados, constrangidos e ontem – em episódio inaceitável ocorrido, um médico chegou a ser retirado preso de dentro de consultório enquanto atendia uma pessoa (em flagrante desrespeito ao médico e ao paciente). Considerando que fatos como este tendem a banalizar-se e multiplicar-se se deixados sem a devida análise e providências cabíveis, sabedores que o nosso único patrimônio é a boa imagem pessoal no ambiente de trabalho, e que a construção da mesma é feita diuturnamente. Anos de árdua dedicação no trabalho, doação pessoal e sacrifícios a um custo incalculável e claramente irrecuperável por quaisquer parâmetros que não os da moral e espiritualidade. Lembrando que somos movidos pelos princípios milenares de amor e interesse pelo próximo, juramos a proteção da vida humana em todas as suas formas – sem qualquer juízo crítico sobre valores pessoais dos nosso pacientes (aqui incluídos os religiosos, materiais e morais). Evitando protelar-me em um texto que não conseguirá suprir a lacuna atual de um espaço apropriado para estas discussões urgentíssimas em nosso País – venho solicitar atenção de colegas da Atividade Médica para algumas observações, conforme segue: Em tempos onde criminosos detidos não devem ser submetidos ao “constrangimento” do emprego desnecessário de algemas (determinação do Supremo Tribunal Federal), vemos estarrecidos a publicação de notícia neste Jornal descrevendo que os colegas do médico Dr.José Pedro de Souza Shuwab “alegaram que houve invasão da polícia ao hospital, que José Pedro foi agredido fisicamente pelos policiais, que ele foi retirado à força de seu local de trabalho onde atuava como médico plantonista e estava atendendo a um paciente naquele momento, que foi levado de camburão e algemado sem ter cometido qualquer tipo de crime” (é o texto publicado – Jornal Correio do Estado, 11 de novembro de 2008).

Ora, pois, diria talvez o incauto: “antes ele do que eu”, ou até mesmo: “alguma ele deve ter aprontado” ou, pior ainda, “isso é que dá trabalhar em qualquer lugar”.

Entretanto, não nos esqueçamos que a Medicina não está regulamentada no Brasil e que “trabalhar em qualquer lugar” é uma maneira simplista de abordar um tema complexo, posto que as pessoas serão atendidas onde elas e nós tivermos acesso (espaços privados ou governamentais). Também é notório que temos pouquíssima ou nenhuma influência nas decisões sobre o planejamento dos locais e condições disponíveis para estes atendimentos.

Aprisionados que estamos pela nossa vocação de servir ao próximo ultrapassamos facilmente os limites da preservação de nossas necessidades pessoais, esgotando nossas energias físicas e psíquicas, cujos últimos resquícios reservamos aos nosso entes queridos. Assim, cansados, pouco tempo temos para meditarmos, reunirmo-nos em tempo extra e menos ainda para enfrentarmos um modelo poderoso e centralizador de poder que quer ver-nos apenas como colaboradores, prestadores de serviços, funcionários ou qualquer generalização – desde que não seja como donos de nosso destino ou verdadeiras autoridades nestas matérias do Binômio Saúde/Doença.

Descrevo estas idéias não como um desabafo – frequentemente presente em nossas conversas – mas sim como uma exortação, um convite ao exercício simples e poderoso de nossa Cidadania. Da defesa firme não só das leis mas, também, dos preceitos morais que herdamos de nossos pais e avós. Defendamos a nossa frágil Constituição Federal (que frequentemente é ameaçada por arbitrariedades). Constituição que deveria representar um projeto de País onde todos posam sob seus auspícios ser igualmente respeitados.

Em matéria com foto publicada na página eletrônica do noticiário campograndenews(http://www.campogrande.news.com.br/canais/view/?canal=8&id=240031) de 11/11/08 observa-se os elementos que salientam de maneira contundente os danos gravíssimos à Legalidade, à Medicina e à Cidadania: “Médico é preso por omissão de socorro a idoso” (foto do médico algemado seguida do texto) – Médico Wesley Giovany Pereira presta depoimento, enquanto José Pedro de Souza Schwab aguarda algemado”.

Hoje, quer gostemos ou não, todos nós Médicos – e por que não dizer todo Cidadão Brasileiro – somos o “José Pedro”. Agredidos, Presos e Contidos por Algemas, Alquebrados na Auto-estima e Previamente Condenados – Sem Direito a Julgamento. Me faz lembrar das sanguinárias e tiranas revoluções totalitaristas do passado e do presente.

Terá finalmente chegado o tempo para a maturidade e a ação responsável? Será este o limite do tolerável? Quanto tempo ainda viveremos de Ilusões?

* É médico.


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